domingo, maio 02, 2010

Para não dizer que não lembrei de ti

Pois é, abandonei esse blog, não tenho tido muita inspiração nem me lembrado da existência dessa ferramenta que já me fez tão bem. Sendo assim, hoje eu quero ouvir e dançar tango, obviamente e preferencialmente tendo você na parceria, nem que seja na penumbra do quarto, com a janela fechada, a porta trancada e as luzes apagadas, sob pena de ridículo e risos de escárnio. E que os transeuntes das ruas de Buenos Aires aplaudissem e se entusiasmassem enquanto eu te dissesse: Te Amo. Mas depois pensei: acorda, moço. Você precisa aprender a ser só.

domingo, abril 11, 2010

Algum consolo

Naquela tarde chuvosa, sua lembrança esfumaçada me veio à pele indolente e dolorosa, como uma agulha picando-me o braço. Já sabia que não existia mais o durante, mas me era necessário a recordação do por enquanto. No preciso momento, seu corpo solto em lugar desconhecido me aderia à cabeça como o sal da água marinha naqueles banhos de mar noturnos e solitários. Mas o fruto da imaginação sobrepunha a realidade, sorri eu, entre melancólico e irônico.
Continuar, mesmo assim. Era o que tinha de ser feito. Sem uma segunda alternativa. Mas naquele dia ainda não havia descoberto a fórmula; ainda hoje não a descobri totalmente. A calçada continuava deserta, esperando meu caminhar por vezes vacilante. Eu tinha de andar por ela, ou mesmo escolher continuar estático por tempo incerto, mas o tempo me impelia a caminhar, terno e consolador. Para todos aqueles que sabem o que é o amor em sua via única, arrisco-me a dizer: mesmo que sua delicadeza não tenha tido capacidade de adentrar a alma alheia, guarde-a no fundo da gaveta, pois ela ainda haverá de ser servida. Mesmo que em prazo médio ou longo. Esta não apodrece nem exala mau cheiro. Permanecerá intacta à espera do momento em que finalmente será oferecida a alguém.
Na falta da sua mão, eu mesmo afago meus cabelos com essa idéia consoladora. Pode até parecer frase feita, mas eu não receio parecer banal. A porta continua destrancada, um dia conhecerei o reverso da moeda.

domingo, fevereiro 28, 2010

Apenas sentindo

Agora não adianta mais, é irreversível, o cheiro já está grudado irremediavelmente em minha pele e roupas, durante o anoitecer e principalmente quando amanhece. Na outra esquina, não sei se te encontrarei mais uma vez, mesmo algo me dizendo que sim, que não pode ser dessa forma torta, que ainda existe um desvio, um outro caminho, uma estrada vicinal que me conduza ao mais fundo de você e que você venha a me tirar desse torpor, dessa apatia letal que me tem feito arrastado e pesado pelas horas que vão se passando sem que eu me aperceba disso. Apenas palavras, vãs e fúteis como quem as escreve. O que palpita é muito mais verdadeiro e essencial. Tem sido o meu leitmotiv nas madrugadas insones.

PS: Lembra quando você me disse que não sabia porque ainda se lembrava com saudades de mim? A resposta é muito simples: és sadomasoquista, gostas dos subterrâneos, e eu sou o simulacro mal acabado daqueles que não foram, não tiveram e nunca serão. Eu sou as suas angústias mais profundas, o que você não conseguiu externalizar, mas que por algum motivo mantêm vivo dentro de ti. Eu fui a realização dos seus piores dramas, somente porque eu sou a imagem daquele não realizado, do distante, do que olhava para ti como se procurasse a salvação que nunca poderias me dar. Sendo assim, aceite: eu fui e seria a sua maldição se continuássemos sendo um só.




sábado, fevereiro 20, 2010

A Ciranda


Encontro-me parado e solitário dentro daquele elevador desativado temporariamente entre dois andares por falta de energia elétrica, em meio à penumbra. As horas passam lentamente sem possibilidades de algum resgate, motivados talvez pela minha inabilidade e apatia em recorrer de algum socorro, nem ao menos me apercebi ainda do telefone de emergência instalado à minha direita. Sento no chão acarpetado e observado a fraca luz que adentra o ambiente, com a sombra do meu rosto na palma das mãos, observando-as desatentamente e sem estardalhaço interno algum. Apenas com a sensação da reminescência, do eterno retorno, do temido, do não esperado que volta sempre, independente da minha vontade e necessidade.

De certa forma acalma-me aquela meia luz, simbologia de que, ao menos por enquanto, existe um resquício de salvação, de ainda não queda total pelo que suponho ser acontecimento futuro. Ainda vivo somente a ansiedade da espera, da inquietação e das mãos úmidas do que não pude evitar, por mais que me atormente sabendo que poderia tê-lo evitado, mas, mais uma vez o círculo se fecha e vejo-me nas mesmas circunstâncias de um passado não tão distante que não me seja mais possível revivê-lo em flashbacks e objetos que o remetam a tal.

Na minha imaginação algumas crianças naquele corredor brincam de ciranda, entoando aqueles cânticos infantis, enquanto eu ao centro observo somente com o olhar suas bocas e corpos tremulantes e arfantes que rodam simetricamente sem que em algum momento a roda se desfaça e cada uma delas se ocupe de outras brincadeiras ou afazeres. Ali estava sendo estabelecido para que eu não pudesse me desvencilhar da prisão que começara a se acercar de mim alguns momentos antes.

Só sei que temo reviver certas situações que procuro evitar com conhecimento de causa, comparando-as ao dia em que, mesmo com o sol causticante, não me precavi e saí à rua sem ao menos uma proteção mínima para os olhos. Como resultado, obviamente, enxergava vultos em meio ao amarelo incansável solar.

E assim tem se iniciado o processo interno do tão temido, do evitável mas infelizmente ainda assim alcançável. Palavras tem sido vãs na sua descrição porque, mais uma vez, o principal de tudo ficará nas entrelinhas e com elas não me seria possível sua descrição, somente um rascunho roto do que tanto me amedronta.

Pois sendo assim, troco em miúdos: espero que esse elevador seja consertado em tempo cômodo, pois não gostaria de novamente provar do fel e dos gritos de paixões desenfreadas e mal ajambradas.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Só dez por cento é mentira

Só digo que sem Manoel de Barros eu me seria ainda mais desprezível, não teria reinvenção muito menos salvação. Por Manoel e em Manoel me calo, me divirto, me delicio com suas palavras e me surpreendo com suas palavras e despalavras. E, principalmente, me amplio, para todo o sempre, Amém.
Se tiverem a oportunidade, assistam Só dez por cento é mentira, uma espécie de videodocumentário consentida por Manoel sobre sua vida e obra, e se arrepiem como eu. Mas, se ele não te tocar, esqueça. Você não foi talhado para a reinvenção da gramática manuelesca, ou manuelina, sei lá eu.


domingo, fevereiro 07, 2010

Mimimimimi


Como sabiamente escrivinhou o santo autor: Uma questão de honestidade básica. Sem falsos escapismos ou sabedoria de livros de auto-ajuda, muito menos algumas frases feitas tão úteis como o guardanapo sujo de catchup após o final do sanduíche. É preciso saber se ser se não há o que fazer. Como o agricultor sem defensivos para erradicar a praga em sua plantação, estão alguns de nós diante de determinadas situações. Se não se pode ser, que se chafurde na desgraça sem falsos pieguismos tolos nem frases de autoconsolação. Mas com honestidade, reitero. Pague-se o preço devido, por mais que este seja alto. Se, realmente, existem novas janelas na rua de trás a serem arrombadas, meta-se as caras, se possível for. Não tome a aceitação como covardia ou fraqueza. Ou tome-as, como melhor lhe convier. Só quem vive em sua carne e corpo sabe das suas dores e delícias, principalmente das suas dores, mesmo que sejam as mais comesinhas e egoístas. A mim não importa como nem onde, mas que dói, irremediavelmente. Me interessam aqueles cujos corpos estão desalojados em seus tempos e espaços, os que vagueiam sem rumo certo, os que bocejam com o hoje e desdenham do próximo amanhecer, por estes falam a minha língua. Com estes posso urrar no meio da praça sem ser taxado de pinel. E, se taxado for, estarei em minha alcatéia. A voz daqueles que não são se torna tão áspera que, com o passar das horas, transforma-se naquele audível que preferimos não perceber quando "tudo" parece mais suportável, ou menos enfadonho.

Aquelas que não perdem a finesse nem sob as lágrimas ao Romeu abandonado e que se fecham em copas ao transcorrer da vida são o tipo de pessoas que me entenderiam, pois falam às claras e tem no olhar trevas e luz.

O que digo é: saiba ser, mas também saiba experimentar a sensação do não. Tal como tem sido a negação, ou melhor, a aceitação empírica de que há algo que não se altera, por mais que atos e pensamentos estejam em consonância contrária. Eu não pude, fracassei, caí, cada vez mais me acomodando à rede por tanto tempo rejeitada. A frustração também pode ser bela e poética depois que se vivencia outros estágios. Não é o ideal, eu sei, aliás, todos sabem, mas foi o que deu. Sem tantos dramalhões existencialistas. Ao som de Bossa Nova e tendo ao meu lado aqueles tantos ordinários perdidos pelas praças, eu brindo a todas as alegrias e terrores que conheci em vida. Sem falsas esperanças, vivendo e sendo o que me foi permitido. Me amoldando a novos corpos e almas.

domingo, janeiro 24, 2010

Adágio ao pé na bunda


Mata minha fome de ti, sirva-me os manjares de sabores mais apurados que provém dos seus poros, cheiros e carnes. Traga-me de novo a soberba daquele que deseja o prato em porções fartas. Faça-me preguiçoso ao fazer com que o tempo corra menos em sua presença. E que eu demore alguns minutos para te responder, para que eu saboreie o tom aveludado e rouco da sua voz. Que eu seja lento ao te apontar as pequenas banalidades nossas de cada dia, antevendo sua reação e sempre sorrindo com suas conclusões inesperadas. Que a música de fundo do bar torne-se ainda mais deliciosa e que nossas piores desavenças sejam lavadas ao som de Chet Baker e luzes acesas pela casa. Embeba-me com seus acessos de ciúme e que o calor da sua mão em meu rosto seja apenas o prenúncio de uma tarde saudosa, quando você se vai mas a presença torna-se ainda mais forte. Deixe no forno aquela sua receita de família há anos esquecida, para que eu reclame do tempero em tom de troça e te faça chegar à ira, sendo que depois eu deitarei minha mão sobre a tua e direi o quanto necessito de você.

Você, sempre você, que um belo dia saiu daqui mas não de mim. Não conseguiste tirar da memória os pequenos gestos, as coisas boas e bobas, daquelas que me perguntam onde andará você. Digo, balançando a cabeça, que estás no meu sangue, e mesmo que não o queira ainda permanece, continua. Tal e qual o buraco na parede mesmo após a retirada do prego. Sedento percorro os lugares de antes, sedento da mão que já não me acompanha mais, dos dedos longos e finos que coçavam minha nuca durante o sono. Do vinho compartilhado aos goles, da ressaca programada, do sono adiado, dos dedos vorazes, das línguas aceleradas, das velas agora apagadas. Dos seus humores inconstantes e das músicas cantaroladas no banheiro. Que saudades de você, que falta você me faz, o que foi que você me fez?

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Resmungando vivo

Quando as olheiras tornam-se incômodas, a voz embarga e sai rouquenha, a cachaça se torna tão companheira quanto a água nossa de cada dia e sente-se com a impressão de estranheza perante o mundo e suas coisas, eu ouço alguma coisa que me deixe ainda mais pernóstico. Sendo assim, nada melhor que Maysa. Porque eu só quero ir além do que suponho o limite, eu quero o improvável. Vaiem-me, eu mereço ser apedrejado na ágora.


sábado, janeiro 09, 2010

Em algum poço


Com prazo de validade vencido: assim se sentia. Com uma sensação de não-pertencimento a nada nem a ninguém. Não uma total desapropriação, mas o que mais lhe importava naquele instante havia se esfumaçado feito o número de mágica do mágico no circo mambembe. Uma mão contendo uma pomba e Zás!Trás!, a dita cuja desaparece sem deixar vestígios, nem ao menos um rastro de poeira no solo. Inconsequente e inconsciente tartamudeamos nós após o fim do que julgávamos muito mais vivo do que supunha a vã inocência ou imaturidade diante do déjà vu.

Mágica feita, platéia satisfeita e boquiaberta, resta a nostalgia do presente intocado, sem arroubos, inexistente: assim dito arrastadamente e letra por letra, como se a audição do tal verbete por si só provocasse mais angústia. E esperanças, obviamente, pois a não existência deste cavaria poço de tal profundidade que dele só se sai em casos excepcionais e análogos.

Pois só vivo intensamente o momento vivido após seu completo término, como se a lembrança fosse mais envolvente e aniquiladora do que o realmente experenciado. Pegadas na areia só me comovem após o instante em que a onda vem e os apaga. Ainda gosto mais dos resquícios, do que fartamente sobeja, da cicatriz, principalmente as da alma. Neles posso suscitar a reinvenção, as opções, alternativas e novos finalmentes.


Imaginar como teria sido se eu tivesse dito, oferecido, ouvido, tocado e fornecido em sangue, ossos, poros e lágrimas, que me dão a sensação de tempo molemente transcorrido, de relógios quase parados, do grito não pronunciado, da piscadela não concretizada.


E assim é, mais uma vez a mão vazia e essa fome às vezes insuportável, que alimento algum saciará e que será eliminada apenas com um olhar doce, uma mão quente e um cheiro bom que não existe mais aqui onde estou. E nem aonde mais eu procurar, pois já se tornou memória, a sarça já se consumiu. Me escoro nas paredes úmidas do lugar onde eu me encontro, estando eu também tão umedecido quanto tais paredes, procurando com os olhos o interruptor da luz, me esquecendo que as lâmpadas foram extraviadas ou estão apenas quebradas. Sendo assim, não há luminosidade prevista.

Apenas a saudade daquela respiração tantas vezes procurada e possivelmente jamais encontrada. Logo mais encontrarei cheiros e olhares novos, pelos quais sei que hei de procurar equivalentes nas manhãs que se arrastarão. E o ciclo mais uma vez se inicia, mais uma vez total e ensandecido, até uma nova parede sem iluminação. É necessário aprender a não ter, a não ser. De uma vez por todas.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Pensamentos esparsos


Estive pensando em todas as coisas que eu poderia ter dito, olhado, sentido, sido e esperado se houvesse tido tempo para tal, mas a quebra se deu imatura, antes da percepção ao menos do que já havia se iniciado. E, principalmente, anterior ao primeiro suspiro.

Como uma casa mobiliada antes da finalização de sua construção. Assim foi. Casa abandonada, com a poeira tomando conta e resquícios da última chuva com móveis embolorados. Azulejos quebrados e grama alta em volta da construção. Não houve tempo para o fechamento do ciclo: nascimento, crescimento e morte. Nascimento e morte confundiram-se de tal forma que se tornou difícil precisar onde é o fechamento de um e iniciação da sua consequência. Mas ficou a nostalgia do não-experenciado nas paredes da casa, que ainda guardam marcas quase imperceptíveis da sua passagem. Leve cheiro acre no teto inexistente desse quarto. E alguns olhares e muitas perguntas de como teria sido essa casa com aquela presença mais prolongada.

Se você ainda cá estivesse, já teria tirado seus óculos escuros para melhor observação da disposição da mobília modificada no dia anterior. Olharia o capacho da porta com a sensação de que suas pisadas teriam sido assimétricas e barulhentas. E todos os outros objetos seriam meros detalhes crivados de histórias e sensações. Alguns copos vazios e cinzeiros lotados pela varanda denotariam que uma tarde qualquer havia sido entremeada por amigos em comum, muitas risadas e conversas desconexas.

Mas você se foi sem ao menos deixar um bilhete grudado com imã na porta da geladeira já enferrujada: Gás-Requeijão-Cenoura-Alface-Acabou, não volto mais - PS: Tire as roupas do varal.

sábado, dezembro 05, 2009

Alguma coisa

Para ouvir, reouvir e triouvir nas madrugadas insones, manhãs modorrentas,dores de corno ou ressaca moral. Porque eu ainda creio na música boa, relativamente limpa e decente.




sexta-feira, dezembro 04, 2009

Debaixo de um abacateiro


Zezito pretendia se engraçar com Claudimeire logo após sua mudança para a rua de baixo. Moça de fartas carnes, cabelos negros escorridos às custas de artifícios da estética, manicure do salão do bairro e exímia dançarina do mais concorrido baile das redondezas, onde o repertório musical ia desde os hits das rádios populares aos sons que agitavam as madrugadas e também seus vizinhos, nada contentes com aquela barulheira ensurdecedora. Tantas fez, tantas vezes aparecia propositadamente no caminho da moça que um belo dia convidou-a a tomar um sorvete em uma fresca tarde na sorveteria à beira-rio. No dia combinado, após alguma gomalina em suas madeixas, escolha criteriosa do figurino e algum cuidado com seu vocabulário, lá foi Zezito com o coração aos pulos ao encontro da sua futura namorada, amante ou cônjuge. Mas antes do desenlance final, o rapaz precisava sobretudo convencer Meirita, como era conhecida pelas amigas do bairro de morada anterior, de suas boas intenções e de ser um partido interessante e cobiçado pelas moças casadoiras das adjacências. Durante o encontro, ambos foram descortinando suas existências um ao outro e relatando as peripécias e delícias da existência, principalmente discorrendo sobre as necessidades passadas em suas terras natais e a procura por uma vida mais digna nos grandes centros urbanos. Zezito era mestre de obras dos mais famosos na região pela economia e cumprimento dos prazos previstos, fora que seu dedo mindinho fora avariado por uma martelada não prevista e muito dolorida, sendo assim alcunhado pelos inimigos e amigos não muito calorosos como Zé Entortado.

E os dias iam assim passando, com encontros fortuitos, esperanças mútuas de que em breve se iniciaria uma história de amor e os hormônios em cada vez mais ebulição, seguidos por lágrimas de Claudimeire por se entregar tão facilmente às necessidades biológicas e por imaginar o quão ficaria falada pelos vizinhos, devido ao namoro caloroso na porta de sua casa. Sua família era extremamente rigorosa e zeladora do seu bom nome e costumes sociais, sendo assim iniciou-se pela iniciativa paterna um furdunço para que essa história terminasse no altar o mais breve possível. Seu Romualdo tivera cinco filhas e há quinze anos enviuvara, o que o levara a tomar as rédeas da família com mão de ferro e exigir decência e pureza de suas filhas, sendo que ele próprio não era participante de tal ideologia, envolvendo-se às sextas-feiras com uma tal mulher conhecida na zona do meretrício como Eulina Alçapão.

Seu Romualdo exigia solução imediata para o quiproquó, não aceitando que sua filha namorasse sem sérias intenções conjugais, pois em sua família isso não era visto com bons olhos muito menos seria aprovado pela sua esposa já falecida, que, de onde estivesse em sua outra vida, se entristeceria enormemente com a perdição daquela a quem gerara após longa gravidez e bolsa estourada no caminho para mais um exame pré-natal no posto de saúde municipal. Após três meses de pequenos preparativos e com parcos recursos, um casamento no civil com terno alugado, vestido quitado na modista por longas e suaves prestações, chá de panela ajeitado e mobília surrada, o casal se vê na lua-de-mel em uma meia água do outro lado da cidade. Sendo que o sentimento que os unia era inversamente proporcional ao saldo bancário do casal.

E o tempo foi passando até que Zezito diz à sua esposa que fará serão na obra; logo após a ligação escapulindo para um forró arretado no ponto final da lotação e enganando sua não mais aflita Meirita, já acostumada às noites do marido farreando pelas esquinas e botecos mal afamados da cidade grande e impessoal. Nesse mesmo dia, ele conhece uma moça de não muitos encantos chamada Severina, que, a despeito de sua pouca beleza física, conversava e versava a respeito de muitos assuntos, entre os quais suas viagens pelo país trabalhando nas casas dos mais endinheirados empresários e políticos das regiões nas quais residiu, mostrando assim um desembaraço e remelexo capaz de desvirtuar o mais fiel dos homens.

Após o conhecimento da existência de um ao outro e devidas apresentações, não muito tempo depois ocorreu o conhecimento carnal, no qual Severina desfilou mais uma vez para um estupefato Romualdo seu conhecimento de causa e experiência. Apesar da não-oficialização do relacionamento extraconjugal, o moço se viu cada vez mais envolvido pela amante até o momento que sua esposa descobriu o fato e jogou as roupas do esposo pela janela, ordenando-lhe que sumisse de suas fuças e que só se veriam novamente nos tribunais, aonde ela exigiria o desquite e 40% do seu ordenado, fora as custas processuais que seriam arcadas pelo agora não mais marido.

Claudimeire cai na mais penosa das prostrações e enche-se de queixumes com suas colegas, difamando Zelito com os mais desairosos adjetivos, mas no fundo do seu coração se arrrependendo de sua ira e desejando o retorno dele ao lar. Enquanto isso, Romualdo não estava mais sentindo tanto assim a falta dela, mas havia se arrependido, pois Severina não era dada às prendas domésticas e pouco dava atenção nesse quesito, deixando o rapaz à própria sorte e andando pelas ruas com as roupas amassadas e se alimentando nos pratos-feitos baratos do centro da cidade. Sendo que suas necessidades físicas e psicológicas só se completariam na presença um do outro, mas havia um porém: Romualdo sentia saudades de Meirita, mas por outro lado sentia uma paixão avassaladora por Severina, que neste momento se encontrava tomando cerveja com as amigas em uma padaria daqui a duas ruas.

Ambos pesaram os prós e contras de reatarem, e após um curto tempo de reflexão, decidem tentar mais uma vez a felicidade conjugal e ele retorna à meia-água, já com dois meses de aluguel e água atrasados devido à falta de colaboração dele nas despesas da casa. Romualdo aquieta o facho e decide se tornar um pai de família honrado e respeitoso, mas às escondidas flerta com a atendente da farmácia da avenida. Em contrapartida, Claudimeire troca bilhetes amorosos com o supervisor da empresa na qual presta serviços como Auxiliar Geral.




sexta-feira, novembro 13, 2009

Cinema para todos


O preço do ingresso no cinema é absurdo, caríssimo para meu módico poder aquisitivo, inviabilizando a sétima arte para boa parte das pessoas que gostariam de ter a oportunidade de frequentá-lo ao menos de vez em quando. Principalmente em tempos comandados pelas grandes cadeias como Cinemark, Severiano Ribeiro, UCI, Moviecom e afins. Praticamente parques cinematográficos encravados nos shoppings center de decoração duvidosa. Diria eu, em tom baixo com medo de cruzar acidentalmente com o responsável por tal poluição visual, que o melhor do cinema não seria, sob hipótese alguma, seus adornos e estilo. Muito menos as pipocas e demais guloseimas vendidas no balcão ao lado a preços também não muito convidativos: Senhor, deseja pipoca de tamarindo com molho de groselha ou de groselha com cor de tamarindo?

Pois bem, mas para a salvação daqueles que ainda acreditam que nossos bisnetos não verão tantas atrocidades à língua-mãe cometidas nas provas de Ensino Médio, existem, em alguns locais, projetos que visam levar cinema grátis para as pessoas que não teriam condições de conhecê-lo caso tivessem de pagar por ele. O SESI aqui do Estado de São Paulo é um ótimo exemplo, levando música, teatro e cinema de altíssima qualidade a custo zero. Pena que não em todas as unidades paulistas, mas de qualquer forma Santos é uma das cidades em que tais projetos existem.

Para minha sorte, moro a poucos minutos de caminhada da unidade da minha cidade. Sendo assim, alio meu bolso de parco erário com o acesso privilegiado a bens culturais raramente existentes em outras circunstâncias,e lá estou eu no SESI, assistindo um filme brasileiro chamado Nossa Vida Não Cabe Num Opala. Não me apedrejem nem me mandem plantar psicotrópicos nas serras colombianas pois nosso cinema, apesar das cenas de sexo fora do contexto e forçadas, tem alguma qualidade.

Percebi na platéia muitas pessoas humildes que suponho não serem telespectadores assíduos das salas cinematográficas, e espero que não esteja sendo preconceituoso deduzindo isso apenas pelo aspecto físico e de vestuário dessas pessoas. Mas fiquei muito entusiasmado de saber que o pessoal, tendo chance, proximidade física ou custo baixo, não se roga a conhecer bens culturais fora do seu dia-a-dia. Mesmo que muitas pessoas ali estivessem mais interessadas no cafezinho servido ou em rir nas partes que julgo eu dramáticas, ao menos começa a se formar uma platéia mais consciente, com um pouco mais de conhecimento, enfim, que, tendo a oportunidade, vai sim conhecer e participar de situações novas.

Talvez seja ingenuidade minha, mas seria tão bom se eu chegasse um dia qualquer à sala de teatro do SESI ou de alguma instituição com projetos semelhantes, e me deparasse com uma fila imensa, com direito a vendedores de Tampico e água da bica. Eu até tomo um Tampico de Laranja com Acerola, mas em compensação eles tem de me contratar para a análise do repertório a ser exibido.

domingo, outubro 25, 2009

Sobre o Politicamente Correto

Por essas e outras digo que a inteligência é afrodisíaca, deliciosamente alimentadora da alma. Há de se autovilipendiar, mas com um quê de ironia fina. E isso Dadá Coelho fez maravilhosamente bem. Dadá é humorista e jornalista piauiense radicada no Rio de Janeiro, e há alguns dias foi entrevistada por Jô Soares e seus comentários polêmicos sobre seu estado natal tem provocado divergência quanto ao seu teor.

Entre outras pérolas, Darcimeire Coelho Pinto ressaltou, dentre outras coisas, que é uma honra ter chegado aos 38 anos com dentes na boca e que, de cada 10 crianças nascidas no Piauí, 11 morrem. Pareceria apenas xenofobia gratuita se ela não estivesse falando sobre uma realidade vivida por ela sem pobreza de argumentos nem amargura, mas inteligência em falar com bom humor sobre situações vividas por ela e a falta de perspectivas se tivesse continuado em sua cidade natal, Floriano; e a miséria de sua gente.

Pronto: o furdunço estava feito. Nordestinos bairristas e exaltados levantaram-se em fúria contra as declarações que atentavam contra o bom nome do estado e de sua população. Mais uma vez repito o que costumo dizer sempre. Cada um de nós tem o direito de pensar o que lhe for mais conveniente acerca de qualquer assunto, desde o preço do pastel com garapa na feira desde a eleição do presidente norte-americano Baraq Obama. E discordar de pontos de vista também, é claro. Mas, se discordar de algo, apresente argumentos que refutem sua hipótese ou cale-se. E nem apele para o senso comum que a emenda sairá pior do que o soneto. Sem frases feitas. Convença-me do contrário, ou ao menos tente.

Não foi o caso de Dadá. Em sua página no Orkut ou no YouTube, revoltosos atentavam contra sua honra utilizando argumentos vazios e assassinando da forma mais descabida a língua-mãe, lascando-lhe palavras de um dialeto ainda a mim desconhecido, tais como "concerteza", "nada haver", "isagero", etc. Imaginei que se Guimarães Rosa tivesse lido tais declarações teria se envenenado com cicuta para esquecer essa desdita em sua existência.

Espero que não me tome como anti-nordestino. A questão não é essa, mas sim a falta de argumentos que se tém quando alguém toca no ponto nevrálgico: a falta de compasso entre o desenvolvimento nordestino, sobretudo seu interior, com o restante do Brasil. Não me importo que apontem para os defeitos e características da região em que vivo, pois eu não vejo somente seus pontos bons. Os ruins tb existem, procuro ver pelos dois pólos. E se o que tiver de ser dito o for de uma forma deliciosamente irônica, melhor ainda. Assim fez Dadá Coelho, sem ressentimentos por ter vindo de uma terra que lhe negou todas as oportunidades de ascensão social e profissional. O perigoso é quando descamba para a ofensa gratuita, desmoralizante.

Em suma, gostei deveras da entrevista com a irmã de Ememary Janes.
Se tiverem paciência e tempo disponível, assistam sua entrevista, disponível no YouTube nessas quatro partes:








quinta-feira, setembro 17, 2009

O Homem


Às suas costas, havia apenas uma cadeira e um palco escuro. À sua frente, várias fileiras de cadeiras, algumas ocupadas a espaços esparsos por alguns espectadores. E, dentro dele, algo não discernível até aquele instante. Somente através da iluminação que o cercava e dava-lhe destaque conseguia perceber os objetos e pessoas ao seu redor, o que o amedrontava, ou melhor, não o incomodava, pois era necessário que tais estivessem milimetricamente arrumados tal e qual o estava. Recitando seu texto procurava não exalar sua emoção e assim procurava o maior distanciamento possível da personagem representada, mas sabia que não lhe era possível. Grande parte do que ali era dito referia-se também a si mesmo, como se seus atos e palavras fossem uma espécie de autobiografia consentida, não declarada. Mas ainda assim ausentava-se de expressões faciais carregadas e algumas vezes fechava os olhos quando procurava interiorizar algum conceito ou frase que os proporcionasse maior desalento. E gesticulava, por não saber como e onde posicioná-las e com uma espécie de reforço da sua interpretação, utilizando todo o seu corpo como corroboração do que ali era apresentado. Pode-se dizer que era o ator ideal representando a personagem ideal, de tal forma que não se sabia quando iniciava-se um e onde eram os limites do outro. A mescla era infindável.

Por vezes sorria como uma espécie de cumplicidade íntima entre si mesmo e os espectadores, nas raras vezes em que se dava real conta que não estava sozinho naquele espaço de grandes proporções. Ao se esquecer de sua não solidão, baixava o tom de voz e virava-se de costas, sussurando trechos mínimos do texto. Quando se dava conta do lapso, aumentava o tom de voz e se voltava para os espectadores, que quase não percebiam seus erros. De alguma maneira era agradável de presenciar aquele homem que andava velozmente pelo tablado no espaço de algum silêncio e muitas vírgulas, procurando que sua voz fosse audível em todos os espaços ocupados por aquelas cadeiras. Por momentos chegavam a gracejar da falta de tato e aparência cômica que aquele homem imprimia, principalmente quando confidenciava algumas de suas passagens trágicas.

Sua indumentárias negras e chapéu-coco, cabelos dourados ornando suas têmporas e postura encurvada caíam como uma luva naquele homem. Como um figurino e fisionomia previamente estudados para melhor apreciação do espetáculo. Somente aqueles pés magros e brancos destoavam do negrume que tomava conta do palco. Pés magros, finos e sem nada digno de nota, como aliás todo o conjunto da obra.

O tempo corria e o espetáculo havia chegado ao fim, após algum esforço e possível compreensão da platéia para aqueles temas e homens tão enfadonhos. Aplausos escassos ressoaram no recinto, o homem curvou-se com da maneira típica para agradecer aos presentes. As cortinas se fecham e o homem sai do teatro, com as mesmas roupas com as quais se apresentou, naquele dia ainda ensolarado. Andava no parque olhando a esmo, para coisa alguma. Como se procurasse algo que soubesse não estar ali, mas que buscasse alcançar com sua postura de quem se acostumou à ausência forçosa.



quarta-feira, setembro 02, 2009

Sobre a sociedade de consumo

Publicitários de todo o mundo, uni-vos pois lhes indago: como funciona a psicologia humana para que uma simples música de comercial mexa tanto comigo a ponto de eu não conseguir passar um reles dia que seja sem ouvir a malvada?

Foi assim com a música de uma campanha nova do shampoo Garnier Fructis. Me dei conta do fato quando, ao assistir televisão como espectador passivo e massificado, esperava ansiosamente pelos comerciais para assistir o anúncio com a indefectível música. Após pesquisa quase sem sucesso na Internet, deparei-me com o grupo responsável pelo meu mais novo suplício. Ouço essa música incessantemente pelo YouTube, incansavelmente, forçosamente, sem o mínimo descanso e ai de quem me interromper durante a 160ª execução desta, ser-me-ei forçado a executar a criatura e jogar seus restos mortais no córrego a dez minutos de caminhada de onde moro.

Eu não vou consumir o Garnier Fructis (sei lá se é assim que se escreve), mas eu sou a grande prova de que a publicidade tem propagandas subliminares poderosas. Hunf para eu mesmo. E durma-se com um barulho destes!


segunda-feira, agosto 31, 2009

Sobre o diferente


À esquerda, uma nesga considerável de mar, tendo ao fundo a faixa de areia com alguns guarda-sóis e pessoas tremulantes pelo sol escaldante e alguns coqueiros, juntamente com as bicicletas e automóveis circulando vagarosos. À direita, asfalto, construções, casas, edifícios e mais pessoas. Ao fundo verde. Eu no meio, ouvindo suas colocações sobre a hierarquia humana. E no meio também sem saber como reagir perante uma visão que em nada compartilho, quando se tem em vista os que não tiveram tantas oportunidades e por isso estão à margem, relegados a uma espécie de limbo invisível que nós mesmos criamos quando não queremos ver o que acontece à nossa volta. Não estou querendo dar uma de bom samaritano e me autointitular o mártir dos pobres e necessitados, se nem eu mesmo consigo suprir as minhas necessidades básicas e supérfluas. Apenas falo de como reagimos ao diferente, por mais que queiramos ser lugar-comum e dizer que respeitamos (pero no mucho) a opinião alheia. No momento presente ao ocorrido, até fazemos cara de paisagem perante o despautério proferido, mas, ao nos encontrarmos em meio ao café da tarde na casa do vizinho, logo colocamos as mãos nas bochechas e suspiramos: "Ai, Jesus, que alma pecadora, perdoa-lhe por não saber o que diz."

O que eu apenas quero dizer é que não tenho a intenção de dar lição de moral alguma, mas apenas perceber mais uma coisa que você me fez aprender, mesmo que de forma inconsciente: ainda não aprendi a respeitar a opinião alheia. Posso não concordar e mesmo não saber como refutar sua opinião, mas internamente tenho ímpetos de te mandar para o raio que o parta com sua ignorância e cretinice. Talvez o cretino seja eu mesmo, mas é muito fácil supor que isso eu não confesse ao psicanalista muito menos à senhora que me pede ajuda para escolber o almeirão mais fresco na feira de domingo.

Me sinto a personagem do livro A Náusea, Jean Roquentin, de autoria de Jean-Paul Sartre, quando eu ouço os indefectíveis celulares e MP4 nos coletivos e ruas, com seus proprietários e meros ouvintes escutando os novos hits sertanejos e do pop trash. Não aprendi a respeitar o gosto musical alheio, ou a falta dele. Tenho a mania de praticamente obrigar à força de decreto que as pessoas que convivem ao meu redor tenham o mesmo gosto musical que eu. Obviamente nunca consegui. Ao menos continuo insistindo como bom teimoso que sou apontado pelos conhecidos e inimimigos.

Tão entretido persisto em perceber o que há de semelhante entre eu e o próximo que me esqueço do diferente, que se constitui em tantos aspectos. Que eu pare de me surpreender com aqueles que pensam, agem e vivem de uma forma diferente da minha. Que eu não reclame mais com o guarda de trânsito quando a senhora fala da prima que não pagou o sapateiro no mês passado. Que eu não seja tão ranzinza quando um grupo de adolescentes emos barulhentos e nojentos cruzam meus caminhos com aquelas caras de eterno nojo e estupefação. Que eu não rogue pragas contra todos os amantes de carne cozida e bolachas Maria. Pelo bem da minha estética, para a prevenção de rugas e cabelos brancos que ostento em excesso.

quinta-feira, agosto 06, 2009

Sobre o Rodrigo


O cenário da história se passa no bairro da Ponta da Praia, na cidade de Santos, litoral do Estado de São Paulo. Seu principal e única personagem é um rapaz de cabelos claros e traços europeizados chamado Rodrigo, regados a muito rock´n roll heavy metal, fumaças de cigarros Marlboro e algum sexo, para que atraiamos assim mais leitores para a história. Pareceria mais uma história comum, se você, caro leitor, não tiver o feeling para perceber quando se está diante de algo ou alguém cuja extração da essência resultaria em histórias riquíssimas e algumas lições de vida.

Só sei que desenrolar as teias de aranha que envolvem o ser humano e caracterizá-lo como matéria viva é tarefa das mais ricas, mas, ainda que assim seja, considero-me despreparado para descrever a personagem que tenho à mente de forma que consiga englobar um mundo que ele contenha dentro de si. Mas assim assumo o risco, por minha conta e risco. Que falte algo, pois algumas coisas sempre haverão de ser omitidas. E que eu ainda assim saiba usar as palavras corretas de acordo com aquilo que sinto e ajo.

Certas pessoas não são dignas de nota e, mesmo que o sejam, não nos forneceriam subsídios para nada mais do que uma anotação esquecida no bloco de notas guardada em alguma gaveta perdida pelo apartamento. Há tempos não sei notícias do moço descrito acima muito menos o que estará fazendo da vida, mas mentalmente e periodicamente, acrescento anotações mentais acerca dele. Sobre o caráter, a inteligência, a ironia fina e principalmente pela característica mais importante tudo: a sabedoria em um recinto de cretinos.

Não posso deixar passar a inteligência em um tempo em que o cérebro foi relegado a material de segunda linha e cada vez mais defenestrado pela sociedade em geral. Pensar está se tornando material de luxo e quem o faz cotidianamente é cada vez mais encarado como extraterrestre. Pois são os seres intergalácticos que me importam, eles que eu quero sentados no chão da sala formulando as teorias mais descabidas entre uma garrafa de cerveja e outra. E com boa música de fundo, obviamente. Eu quero ser instigado até meu cerne, eu quero pensar no novo sempre, ser alargado nem a fórceps. Pessoas que me fazem bocejar são cansativas. Eu quero que não me façam dormir, pois fechar os olhos me traria a sensação de tempo perdido e não aproveitado. Não aprendido. Não vivido e nem sentido. E com o Rodrigo eu tenho tudo isso, no pouco tempo que tivemos de convivência.

Pessoas banais eu encontro sentadas no banco da praça, mas pessoas instigantes eu sou obrigado a amarrar no pé da mesa e só deixar saírem da minha vida quando eu tiver sugado o máximo possível. E que eu ainda ultrapasse esse máximo.

Esse rapaz é o Rodrigo.

Ele é meu amigo.

Feliz Aniversário, rapaz. Tudo de bom pra você hoje e para todo o sempre. Ainda viverei para te ver entronizado no mesmo patamar de Melhem Adas, Milton Santos e Aziz Ab´Saber.


quinta-feira, julho 30, 2009

Hoje é dia de Rock´n Roll

Música para chorar de saudade, medo, dor, angústia, desespero, infelicidade, consolo pelo que se passou, pelo que não foi e pelo que provavelmente não será. Hoje ouço essa música porque inconscientemente lembrei de ti quando a ouvi, sabe-se lá por quais motivos. Eu só sei que hoje eu preciso de um bom e velho rock para afogar as mágoas. Nem que eu me reinvente e amanhã esteja cantarolando alguma outra coisa que venha a exorcizar meus demônios. Que eu te reencontre ao som de Yo La Tengo, que eu me despeça de você mais uma vez sob esse mesmo som, que no próximo verão eu tenha outro tesão, amor, satisfação, bem querer ou paixão. E que hoje eu me seja incompleto ouvindo essa canção.

Ps: Esse clipe não tem animação alguma, mas somente a música de fundo.


terça-feira, julho 28, 2009

Sobre a Frustração


Com o olhar perdido imaginando como seria diferente o branco da parede com outras cores e com uma das mãos apalpando o aparelho telefônico, lembrei de mim mesmo. Chovia lá fora e baldes escoravam a água que jorrava do grande quarto que eu me sou. Paredes riscadas, pisos quebradiços, infiltrações na parede e mofo aparente. Nele eu me escoro, me amoldo, eu me acomodo. Sinto frio com a camiseta molhada ajustada ao corpo. Meus dedos das mãos esfregam o corpo em busca de calor, imaginário que seja. Estou nesse quarto e faço parte dele, de tal modo mesclado que confundo-me com ele. Eu quero o sol, preciso de algum calor. Há pouco tempo, havia saído de lá e o tempo abriu, mesmo que nublado.
Folhas caídas na calçada úmida me remetiam a tempos em que olhava para os lados e o parco movimento das ruas me amainava. De forma torta eu era livre e disso ainda não tinha consciência. Se bem que nunca experimentei a liberdade plena, mas esse detalhe é irrelevante. Meu estar ali não modificaria absolutamente a ordem das coisas. Fechava os olhos desejando outras calçadas que não aquela, sentir algumas outras texturas. Nostalgia de um passado distante, presente incerto e futuro duvidoso.

Voltei ao quarto sem luz a partir do momento em que me percebi novamente solitário. Ironicamente choveu, sendo que em meu quarto poças denunciavam a volta da umidade, meus cabelos emudeciam com as gotas que denunciavam a fragilidade da estrutura na qual eu me apoiava. Ontem choveu no meu futuro. Ai de mim se não abrisse o guarda-chuva como forma de me proteger da água que cismava em me tocar a pele.


A umidade nos ossos em certo momentos havia se tornado intolerável, mas necessária. Quando saí da casa durante o amanhecer, fechei automaticamente muitas portas e apaguei várias luzes. Sentei no chão e olhei a esmo para o nada. O nada simboliza o hoje em que fui posto. De alguma maneira exemplificado como o copo vazio esperando o líquido que faça valer seu sentido. Dois objetos inanimados com funções limitadas em sua essência. Se existir alguma essência em ambos.


Esfregaria os olhos e sairi desse estado de semiletargia, levantaria do chão e andaria junto ao gramado cujo branco ocupas. Sentaria e te olharia. Não choveria mais. Um dia eu consigo. Nasço no dia em que te provocar necessidade. Aliás, nem devo te extasiar a tal ponto. A sensação nascerá sem que se dê conta. Como a erva daninha crescendo a meio a heras.