sábado, julho 19, 2008

Um pedido...


Está um dia ensolarado, bonito, as pessoas vêm e vão sem se importar com essa claridade excessiva, preocupadas com seus afazeres e o cotidiano que nos enleia sem que nos demos conta disso. Me dá um beijo, me dá um abraço, me dá tua mão, me dá teu corpo, me dá teu coração. Me dá um cigarro. Me dá uma bebida, só ébrio digo-te as coisas límpidas que sóbrio gaguejo, mas não confesso por pudor. Me tira desse torpor. Me tira desse poço escuro e úmido. Leva-me embora desse lugar que me faz tão mal. Me ensina aquilo que nunca aprendi, a viver e amar sem me questionar sobre o porvir.
Este seco na minha garganta anda-me a corroer as entranhas. Perdoe-me por tantas queixas descabidas, por me maltratar tanto e não te dar o valor devido. Dá-me uma existência comum, banal até. Por ti jogaria velhas teorias na vala e reaprenderia todos os conceitos novos que até então andam arraigados na minha carne ainda putrefata. Nunca suspeitei que chegarias em uma tarde nublada e achasses tudo em tal desordem, o interior feito de caos. Não tive tempo de preparar-me à sua chegada, vieste tão de repente. Pisaste no lixo, sentiste o mofo da casa fechada há anos, as lâmpadas que não eram usadas há tempos incontáveis, minha aparência crua e abjeta, as roupas em desalinho, a barba crescida, as olheiras profundas e aquele olhar que te percebia incandescente.
Te recebi mudo, sem ao menos balbuciar o que quer que fosse. Vieste em boa hora, mesmo que a minha fome e sede te chamassem inconscientes há muitas semanas e meses. Mesmo o jardim anda descuidado, nem sentirá mais o perfume das flores que invadia os quartos ao abrir as janelas, logo pela manhã. Encontro-me faminto no corpo e no espírito. Perdia a cada dia os restos humanos que me equivaliam àqueles do lado de fora. Mas ainda há tempo de colocar tudo a seu contento, tenha um pouco mais de paciência. Não desista de mim ainda tão cedo. Eu não posso mais continuar aquilo que fui e ainda o sou.
Sei que me acomodei, mas quando me apercebi já era tarde. Tarde demais. Já é tarde, bem o sei, mas o que resta ainda pode ser transformado, reconstruído. A mudança será lenta, gradual, mas ela será feita, mesmo que a solidão, o escuro, o desespero e a angústia tentem me demover disso. Joga-me uma corda, deixe-me sair desse poço. É da tua mão que necessito hoje e do teu sorriso. Que seja doce, que seja doce, que seja doce por um tempo incontável, a cada anoitecer cada vez mais doce...

3 comentários:

Luciano disse...

A poesia impressa no texto é de
grande impacto.
Ed cria uma atmosfera de amor
urbano e visceral.

coruja cinzenta disse...

Poesia pura...
concordo com seu leitor ai de cima, antes mesmo de ver esse comentário pensei com os meus botões:
Nossa que poema lindo.
Te gosto muito meu querido
bjãoooo

Priscila disse...

Ed...Ed...

Vc diz as coisas q toda mulher gostaria de ouvir...

Beijocas