segunda-feira, outubro 11, 2010

Olhos baixos


Dessa vez mais escorou-se à parede em busca de algo que ali não havia mais. Ainda existiam marcas recentes de dedos na parede, somente isso. O resto era penumbra, móveis empoeirados e um cheiro latente de café fresco, que provavelmente emanava de algum imóvel próximo. E esse aroma despertou-me uma fome física, resultado de uma fome interior, de um saco sem fundo clamando por ser preenchido. Era uma fome que não se matava com pão ou algo do gênero, mas sim a fome pela ausência, pelo silêncio, oco, vazio e o que mais pudesse exprimir o que sentia-se flutuando pelo ar daquele lugar naquele instante. Era a emanação do que não se tinha mais, se algum dia porventura se viveu. Ou será que foi apenas fruto de uma imaginação sedenta pelo interdito?

O fato a ser constatado era que não havia nada ali além de um corpo transitando por entre uma mesa e cadeiras de madeira, com os olhos semicerrados vasculhando o chão em busca de algum sinal de retorno. Alguma sujeira que deveria ainda ser varrida, um pó necessitando ser aspirado, algum eletrodoméstico esquecido pelos armários, algum prato na pia que necessitava ser lavado, um sabonete aguardando o momento do seu uso, uma torneira que pingava, um teto que desabava, um gato que miava, alguma mão que apertasse a maçaneta. Se ainda houvesse algo a ser concretizado, não seria naquele instante que a faxina seria efetuada.

Sentou-se ao chão, ao mesmo tempo em que amaciava o acolchoado de uma poltrona próxima. Ao fundo, algumas crianças brincavam e lá fora a vida transcorria seu ritmo cotidiano, freneticamente mas ao mesmo tempo insurgindo torpor. E esse ronco no estômago cada vez mais dilacerante, pois ali não havia sopa alguma que fosse a ser sorvida, alimento algum que pudesse sanar a necessidade não somente física do palpável. Ali era o momento do não, do silêncio, da fixação e da dúvida, teimando em não se transformar em certeza: não poderia sê-lo mais famélico do que naquele instante, e o maná que ansiava poderia nunca mais tocar a campainha. Ou, quem sabe por acaso ou piedade das circunstâncias, a casa pudesse novamente ser arrumada?


4 comentários:

Gii disse...

adorei seu blog.. sempre por aqui..

forte abraço!

Janaina Cruz disse...

O desfile, de realidades e (in) realidades, na passarela de nosso existir, nos confunde, nos encoraja nos dá forças de seguir à diante.
Amei esse blog, hei de voltar mais vezes aqui.

cynthia disse...

Também apreciei, me deixei envolver pelas palavras desse texto misterioso e poético...

FabricioT.S.Brito disse...

Adorei seu blogger, depois dá uma olhadinha no meu. Aceito dicas rs
correefala.blogspot.com