sábado, agosto 12, 2006

Carcará



















Carcará
(João do Vale e José Cândido - trecho inicial: Missa Agrária, de Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri)
(Glória a Deus Senhor nas altura
E viva eu de amargura
Nas terra do meu senhor)
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome

Carcará
Mais coragem do que homem
Carcará
Pega, mata e come

Carcará
Lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião

Carcará
Quando vê roça queimada
Sai voando, cantando,

Carcará
Vai fazer sua caçada
Carcará come inté cobra queimada
Mas quando chega o tempo da invernada
No sertão não tem mais roça queimada

Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Carcará é malvado, é valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andá
Ele puxa no bico inté matá
1950. Mais de dois milhões de nordestinos viviam fora de seus Estados natais. 10% da população do Ceará emigrou. 13% do Piauí; l5% da Bahia; 17% de Alagoas.

Carcará
Pega, mata e come!

Essa música foi interpretada por Nara Leão pela primeira vez no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, em 64, logo depois do Golpe Militar. Nara Leão era uma das musas da Bossa Nova e havia se revoltado com o movimento por este ser formado essencialmente por jovens da Zona Sul carioca das classes mais abastadas, que cantavam músicas exaltando o mar, o sol, as belas mulheres cariocas, se esquecendo do restante da realidade. Que aliás era bem diversa da cantada pelos seus intérpretes. Apesar disso, a Bossa Nova foi um grande sucesso e levou a música brasileira ao exterior, como por exemplo a famosa canção "Garota de Ipanema", que exaltou Helô Pinheiro ao cargo de musa e consagrou o nosso Poetinha, Vinícius de Moraes, falecido em 80.
Nara Leão foi substituída no ano seguinte por Maria Bethânia, que havia acabado de chegar à cidade vinda de sua terra natal, Santo Amaro da Purificação, na Bahia. Maria Bethânia deu uma interpretação mais vigorosa dessa música, que se utiliza do pássaro cárcara; encontrado em abundância no sertão nordestino; fazendo uma analogia entre o animal e o sofrimento do povo do Nordeste em busca de uma vida melhor.
Não irei me aprofundar sobre o Teatro Opinião porque a minha intenção é falar o que senti ao ouvir essa música, e também porque me falta conhecimento, fora que, mesmo sendo um assunto recente, não existe muito material disponível para se falar sobre esse que foi uma das primeiras reações à ditadura militar, ainda na era pré AI-5, ou seja, havia uma certa liberdade para se contestar o regime.
Por mais que se fale que não, existe um preconceito muito grande em relação aos moradores que vivem no território brasileiro acima do estado de Minas Gerais (falando geograficamente pela minha ótica de cidadão nascido e criado no estado de São Paulo). Algumas partes do estado se referem a eles como Ceará, Paraíba ou baiano, generalizando uma população muito grande que provém de áreas muito diferentes do nosso Nordeste.
Desses 42 anos pra cá, desde que essa música começou a ser veiculada, a situação dos retirantes não se alterou tanto assim, se bem que de uns anos pra cá a migração tem diminuído consideravelmente, até porque São Paulo não tem mais aquele dinamismo econômico encontrado até a década de 80 e muitas indústrias se mudaram da região. Mas o que importa mesmo é refletir sobre a condição desse povo, que mora em uma região do país extremamente esquecida pelos nossos governantes e que tem índices sócioeconômicos alarmantes. DOm Pedro II já falava nas secas que assolavam o Nordeste no século XIX, e realmente pouquíssima coisa foi feita para reverter a situação de um povo forte, que não se rende às condições da natureza e sempre tem a esperança de que esse vai chover e eles vão poder ter um pouco mais de conforto.
É impressionante como em pleno século XXI ainda não se tenha utilizado formas de se servir da tecnologia em benefício daquela população, mesmo pela simples perfuração de poços ou outras medidas mais custosas, mesmo assim extremamente necessárias. Ou melhor, a grande explicação para isso está nos nossos governantes, pois, por mais que se diga que não, o coronelismo político ainda é fortíssimo na região, principalmente no interior desses estados. Deputados, senadores, governadores e tantos mais nomes pomposos para designar homens e mulheres que estão na alta esfera do poder teoricamente para ajudar o povo que o elegeu a estar lá. Mas o que se vê são que eles se utilizam dos recursos do povo em benefício próprio, aumentando ainda mais o fosso que separa a pequena classe social que detém um grande percentual da riqueza do nosso país da grande massa despossuída. Em contrapartida, a seca ainda destrói a vida de milhares de nordestinos diariamente.
Estamos em época de eleições. Sei que uma andorinha só não faz verão, mas espero que cada um de nós cumpra realmente seu papel como cidadão e não encare mais essa ida às urnas pensando "do que adianta, nada muda mesmo", pois, pensando dessa forma, estaremos perpetuando a desgraça desse população (e a nossa também, é claro) e fazendo com que essa elite continue no poder minando os nossos recursos e condenando os nordestinos ao contínuo ciclo de miséria. Que não nos esqueçamos dos Antônio Carlos Magalhães, José Sarney, Fernando Collor de Melo e muitos outros que há muitos anos comandam seus estados e não permitem que a população desses locais tenha esperança de melhores dias.

4 comentários:

Denise disse...

Nossa Ed,gosto muito dos seu textos,são fluidos,facil de ler,sem deixar sua marca registrada que é a escrita bem elaborada e refinada.
É uma grande verdade o que escreve,desde o seculo passado se falava nisso,nosso nordeste e sua seca distribuiçãos de renda mal feita,e o que foi feito até hoje para sanar o drama da população então?
É...o carcará ainda continua a voar no nosso sertão...
é uma belissima canção,gosto mais na voz da Bethânia,ela conseguiu dar enfase a letra e a dor que a musica exprime.
Parabens Ed sou sua fã incondicional.
Denise

Vivi disse...

Concordo com a De seus textos são uma delicia ...e essa musica é simplismente maravilhosa ..
me contento em ser a fã numero 2
beijão...

José Alves de Freitas disse...

Eu até lê esse texto achava que ele era uma forma de protesto ao militares da ditadura, porém o autor deixa claro que resume no sofrimento dos nordestinos. Porém também já lí que a letra Carcará, era sim um protesto contra os militares e que o pássaro cacaRÁ, SERIA JUSTAMENTE O PRESIDENTE MILITAR, ENTÃO QUEM PODERÁ ESCLARECER, ERA PROTESTO AO REGIME DE DITADURA OU A FOME DOS NORDESTINOS.Após lê fiquei na dúvida.

Anônimo disse...

Show, excelente texto !!!