quarta-feira, agosto 16, 2006

Revista Realidade (1966-1976)


Criada pela Editora Abril em 66 com a intenção de formular uma revista mensal com uma nova linguagem, surge a Realidade, que veio revolucionar o mercado editorial de então. Em um país de menos de 90 milhões de habitantes, aproximadamente 45% da população analfabeta e o Brasil somente ultrapassando a população morando nas áreas urbanas da rural em 70: pois mesmo com esse quadro a revista chegou a ter uma tiragem de aproximadamente 1 milhão de exemplares.
Formulada com base no new journalism,criação norte-americana que havia sido lançada mais ou menos na mesma época de lançamento da revista, ela tinha como intenção o "mergulho" do répórter na matéria a ser escrita, uma vivência real daquilo que estava sendo redigido, para uma maior fidelidade do conteúdo desta. Essa era uma das bases do new journalism, a profissionalização do jornalismo, que até então era feita de uma forma bastante arcaica e com a utilização de muitas fotos e novo planejamento gráfico, mas sem perder a qualidade do que seria veiculado.
Com equipe de alto gabarito, composta por repórteres e fotógrafos, dentre outros profissionais, como José Hamilton Ribeiro, Paulo Patarra, Nelson di Rago, Paulo Henrique Amorim, Cláudia Andujar, David Drew Zingg, Geraldo Mori (que veio a ser assassinado em circunstâncias misteriosas em 68 por motivos por algum tempo desconhecidos), e com a colaboração também da grande jornalista italiana Oriana Fallaci, encarregada pelas matérias polêmicas de conteúdo internacional. Oriana quase morreu ao cobrir uma passeata no México também em 68, onde foi baleada próxima à espinha e presa.
A revista circulava mensalmente e teve algumas matérias que entram para a nossa história pela sua riqueza de detalhes, sempre com o repórter vivenciando ativamente aquela realidade. Merece menção a edição de janeiro de 67, que tinha como tema "A Mulher Brasileira de Hoje". Essa revista foi apreendida pela Justiça, sendo acusada de atentado ao pudor pelo conteúdo altamente inovador para a época. Sendo assim, poucos exemplares desta se encontram disponíveis. A edição contava, dentre outras matérias, com uma entrevista com uma moça de 20 anos que era mãe solteira e se orgulhava de sua condição (o que naquela época era considerado absurdo, pois a mãe solteira era execrada pela sociedade e classificada como prostituta); três depoimentos de mulheres desquitadas e como eram suas vidas sob essa condição, não se esquecendo de citar que o divórcio só seria aprovado em 77 e que mulheres desquitadas também era pessimamente vistas pelos olhos da moral vigente no período; a história de uma mulher que há vinte anos comandava uma empresa de confecção de calças femininas em São Paulo, lembrando que naquela época não era ainda comum encontrar mulheres em cargos de alta chefia no país; e a entrevista com a atriz Ítala Nandi, que deu suas opiniões acerca do amor, do seu casamento que não deu certo, de sua vontade de ser mãe apesa de ser separada, da virgindade antes do matrimônio, dentre outras afirmãções consideradas bombásticas. Isso sem esquecer da matéria instrutiva contando aos leitores nos seus pormenores como funcionava o sistema reprodutor da mulher.
Também merece ser citada a edição especial de Agosto também de 67, que tinha por tema a juventude brasileira da época. Já naquela época, os jovens tinham acesso ao pensamento estrangeiro em voga nos anos 60, a contestação social. Era a época da minisaia, dos rapazes de cabelos compridos, da psicodelia, da Jovem Guarda, dos Festivais da Tv Record, das drogas como o LSD, dentre outras inovações. Questionários distribuídos juntamente com a revista do mês anterior e que foram enviados de volta pelos leitores dessa faixa etária nos mostram o quanto a sociedade estava em choque; sendo que, de um lado estavam os contestadores de menos de 30 anos; de outro ainda a velha sociedade patriarcal. E alguns repórteres foram viver como alguns desses jovens: um deles se encarregou de viver um jovem operário de uma fábrica na periferia paulista, outra foi trabalhar como bancária também em São Paulo, outro foi conhecer os sonhos e a realidade da juventude no interior do país e mais outro foi vivenciar o cotidiano do jovem camponês em uma cidade no interior baiano. Disso saíram matérias que infelizmente não se vêem mais na imprensa contemporânea.
Em dezembro de 68, veio o AI-5, que cerceava as liberdades da imprensa. Acabava assim o breve período de ouro da revista Realidade. Ela ainda se manteve na ativa até 76, quando, por não poder discutir abertamente os assuntos necessários ao Brasil, e com a concorrência de revistas como a Veja, lançada em 68, e a Isto É, também de 76, se viu obrigada a fechas as portas já com muito do seu prestígio esquecido.
A revista mesmo depois dessa época teve muitas matérias de ótima qualidade, e com certeza ainda poderia citar alguns outros exemplos. Mas de qualquer forma vale lembrar o quanto essa revista foi importante na construção de uma imprensa moderna e atuante, e que esse exemplo possa ser seguido sempre que possível pelos nossos veículos de comunicação atuais.

4 comentários:

Denise disse...

já te disse isso,mas nunca é pouco dizer,adimiro seu gosto pela memória do país.
O que você faz relembrando e trazendo temas como o desta revista a tona,é um resgate a identidade do povo brasileiro que com tal insistência tentam ofuscar.
Sou sua fã numero 1
Beijosss

Vivi disse...

Eita qto confete..
vc realmente é muito bom!
beijo as materias q me mandou são dessa revista neh??
beijinhos

J Alexandre Sartorelli disse...

A morte de Heath Ledger teve muito, muito mais repercursão que a de Paulo Patarra.
Esse é nosso país.

Anônimo disse...

Muito interessante o blog. Estou fazendo minha monografia em História cujo tema envolve música e censura durante Ditadura militar. Queria ter acesso a algumas reportagens sobre os festivais da canção. Se você puder me dizer onde fazer esta pesquisa ficaria muito grata. Este material foi digitalizado? Abçs, Sara (estudante de História da Uerj)