terça-feira, outubro 03, 2006

Geração perdida


Sou um apaixonado pelos anos 60. Essa década foi mágica e quem a viveu sabe disso muito melhor do que eu, que sou fruto dos anos 80, com sua moda considerada totalmente out para os dias de hoje, sucessivos planos econômicos, redemocratização e sucessivamente valores inflacionários astronômicos. Quem viveu entre 1 de janeiro de 60 e 31 de dezembro de 69 sabe que não se passou incólume por tudo que se vivenciou ali, e não se pôde ser 100% cidadão passivo da história, ali todos participaram e contribuíram de alguma forma para que nunca mais se esqueça o que foram esses anos maravilhosos e por que não dizer inesquecíveis. A construção de Brasília, a crescente industrialização do Brasil, o êxodo rural, a UNE, o CPC, as Ligas Camponesas, a contracultura, o movimento hippie, o rock psicodélico, o assassinato de ohn Kennedy, a morte de Marylin Monroe, Os Beattles, Mutantes, Bossa Nova, a chegada do homem à Lua, o Golpe de 64, os Movimentos Estudantis que pipocaram país afora principalmente entre 64 e 68, Mary Quant e a invenção da minisaia, os festivais de música da Record que revelaram grandes talentos como Elis Regina, Nara Leão, Quarteto em Cy, Geraldo Vandré, Chico Buarque e Caetano Veloso, dentre outros, o movimento pelo reconhecimento do negro nos Estados Unidos, a pílua anticoncepcional, os rapazes de cabelos compridos, as moças com suas saias muitos centímetros acima dos joelhos, a geração beatnik, a primavera de Praga, maio de 68 em Paris, a Jovem Guarda com sua Ternurinha e Erasmo Carlos, o Teatro Opinião com Maria Bethânia e depois Nara Leão cantando Carcará, o Teatro de Arena com suas peças de contestação ao golpe, a nossa primeira telenovela moderna (Beto Rockfeller), a invasão ao Teatro Roda-Viva e espancamento dos atores em pleno palco, o famoso congresso da já clandestina UNE em Ibiúna (SP), claro que em 68....Nossa, quanta coisa aconteceu nesse período, e como eu adoraria ter vivido isso tudo, e principalmente ter participado das manifestações estudantis que eram contrárias ao regime militar. Eu sinto saudades do que não vivi, como isso pode acontecer?
Hj eu assisti um documentário chamado Sol - Caminhando contra o vento, produzido pela cineasta Tetê Moraes, que até então me era desconhecida. Ele se baseia em um jornal esquerdista produzido em 67 pelos jovens intelectuais do Rio de Janeiro de então, e faziam parte da equipe pessoas tarimbadas como Fernando Gabeira, Henril, Ruy Castro, Ana Arruda, os próprios Chico Buarque e Caetano Veloso, e tantos outros que não sabia quem eram, e omito os nomes pq sou péssimo para guardar nomes na primeira vez em que ouço. Esse jornal tinha a proposta de reflexão e principalmente denúncia das mazelas sociais sem tanto formalismo, o compromisso ali era com a verdade nua e crua, seja ela qual fosse. Mas não posso deixar de mencionar a importância de todos eles no sucesso desse maravilhoso veículo da imprensa que infelizmente viveu somente de setembro de 67 à dezembro de 68, sendo extinguido aos poucos com o famigerado AI-5. Percebi que eram jovens idealistas, sonhadores, preocupados com os rumos que esse país tomava e principalmente mudar esse mesmo destino, sendo que o socialismo naquela época estava em voga, a União Soviética ampliava seus domínios a largos passos.
Foi uma geração que foi às ruas, não teve medo de doar seu único bem, a vida, em prol de um ideal. Muitos foram presos e torturados, outros exilados, alguns faleceram e outros tantos caíram no caminho do então ácido lisérgico (LCD), ou outras drogas mesmo; ou seja, o destino não foi bondoso com todos que participaram desse jornal.
Quando vi a imagem da invasão da Faculdade de Filosofia da USP, que ficava na rua Maria Antônia, em São Paulo, e vi aqueles jovens, rapazes e moças ainda, com seus vinte e poucos anos, apanhando de cassetete dos policiais e ainda assim firmes e fortes, eu pensei: a que ponto a nossa juventude chegou, que anestesia foi essa, provavelmente espalhada pelo ar, que amorteceu a famosa contestação da idade, a vontade de mudança, a esperança de dias melhores? Aonde está aquela famosa mocidade que não aceitava os padrões impostos? Não há mais nada a mudar, já está tudo pronto? Será que o sangue derramado há quase quarenta anos atrás redime a nossa omissão pelos escândalos petistas e o capitalismo selvagem que cada vez mais e mais aumenta o fosso entre os grandes concentradores de renda e a imensa massa despossuída? É momento de reflexão, mas muito séria, para os rumos que esse país e principalmente, antes de tudo, a nossa consciência está tomando. Não digo para ninguém de uma hora para outra se enfiar no meio do mato e virar reacionário. Eu falo da chama que esse os intelectuais desse jornal, mas de toda essa década nos legaram, e nós estamos colocando água, dia após dia, até que chegará o momento em que essa luz se apagará e todos nós ficaremos nas mais absolutas trevas. E esse dia está por vir. Aí todos nos guiaremos pelas paredes e vamos nos perguntar o que fizemos de errado. Mas a nossa consciência nos dirá o quanto fomos imbecis e passivos perante a realidade à nossa frente, e que por comodismo não nos preocupamos em observar. Mas aí já será tarde demais. A luz nunca mais voltará.

3 comentários:

Vivi disse...

HUm aqle filme q vc me chamou p ver.....hahah como sempre perfeito ..impressionate como vc é ligado a essa fase ....
bem é isso lindo lindo ..beijo

denise disse...

Estamos sim precisando de uma revolução como aquela,mais do que nunca...
mas onde foi parar esse sangue guerreiro
que um dia pairou sobre o país?
Sociedade cada vez mais alienada achando a vida de gado maravilhosa...
é uma grande pena e perca para nossa identidade,sinto dizer que não sou um pingo otimista qt a isso,pessoas aceita de bom grado ser vampirizadas,zumbizadas,alienadas,seja lá o nome que se de a isso,preferem isso a lutar seja lá de que forma for,
uns poucos reagem,mas são ofuscado por inumeros fatores que já conhecemos,e quem não conhece não vai ler isso aqui rsrsrsrsrsrsrs
é uma pena...
perca...

Priscila disse...

olá, gostei do blog.

linkei vc. ok?