sábado, janeiro 20, 2007

Clarice Lispector


"...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda."
"Faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."
"A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho."
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."
"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar."
"Silêncio. Preciso morrer. Já morri algumas vezes, há tempos que não. Às vezes é preciso, é preciso morrer para viver. Ando com saudade de Deus."
"Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive às vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu a angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida."
"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."
"Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim."
"Mas se eu gritasse uma só vez que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se eu der o grito de alarme de estar viva, em mudez e dureza me arrastarão pois arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é arrastado, o ser gritante."
Essas são frases extraídos das mais diversas obras de Clarice Lispector, a nossa escritora mais compromissada com o psicológico dos seus personagens. Não dá para permanecer incólume aos seus livros, continuar a ser o mesmo depois dessa experiência mágica de uma mulher que conseguiu atingir um patamar não alcançável por nós, pobres mortais, pela angustiante busca de nós mesmos, de quem realmente somos e de que função ocupamos. Creio firmemente que quem a leu e não modificou em nada sua vida simplesmente não entendeu sua obra ou não teve capacidade de absorver suas mensagens muitas vezes cifradas.
Clarice não era aquela escritora convencional, onde suas histórias tinham sempre um predeterminado começo, meio e fim. Muitas de suas personagens não possuíam nome tinham muito menos enredo. Eles apenas divagavam, e desses pensamentos surgiram fragmentos maravilhosos, dos mais ricos de nossa literatura e no meu caso capaz de me provocar as lágrimas. Não consigo exprimir o que sinto ao lê-la, apesar de ainda ser um iniciante em suas obras. Ali não são somente palavras aleatórias que combinadas formam frases. São gotas de sangue misturadas ao papel, que pode conter ainda resquícios viscerais, produto da mais imensa dor da busca que não consegue se desvencilhar de nós mesmos quando a desprezamos.
Eu digo ás vezes que acredito na arte transformadora, que choca, te sacode, faz refletir. Gosto de um livro, um filme, uma peça, uma tela ou qualquer outra manifestação artística que modifique em algo a minha vida, não me deixe sair do lugar da mesma maneira que entrei. E isso Clarice faz com maestria e propriedade, porque ela sabia que seu legado iria permanecer nas futuras gerações.
Clarice é um tapa na cara, a dor do bisturi que corta sem anestesia, mas que depois disso te consola, alivia como o colo da mãe quando éramos crianças. Me refiro a aliviar no sentido de que ela conseguiu exprimir o meu grito naquelas palavras. O grito contido que nunca foi dado por medo, pudor, ou mesmo motivos desconhecidos. Em Clarice não há certezas absolutas. Só há questionamentos, o vazio, a escuridão, a sensibilidade. Ela te acaricia e nos mostra que há beleza também na melancolia, que escrever é realmente difícil, as lágrimas e as gotas de sangue podem ser vertidas, mas que só a palavra salva e ela deve ser dita, a todo custo, mesmo que o preço a ser pago por ela seja grande.
Todos somos um pouco Macabéa, uma de suas personagens mais conhecidas, a moça alagoana que vem tentar a sorte no Rio de Janeiro ganhando menos de um salário mínino e vivendo em uma pensão fétida no centro da cidade. A moça que vivia pouco para não chegar ao final com saldo negativo e tinha aquele olhar e curiosidade estranho das pessoas que não sabem a que vieram, nem ao menos se realmente tem noção de que estão nesse mundo.
Digo isso porque eu sei tudo que tiver de experenciar pra poder hoje escrever esse texto, mesmo que mal e porcamente. Pois somente a palavra me faz estar aqui hoje. Precisei me abster do que sou para conseguir escrever as palavras certas. Antes dela, eu não imaginava que um escritor pudesse exprimir tão bem o obscuro da alma que a crueza do dia-a-dia não deixa aflorar, e muitos vivem se se dar conta disso. Eu não consegui passar incólume por Clarice. Acredito que ninguém consiga. As cicatrizes que ela vai deixando em mim surgem indefinidamente, sem que eu saiba ao menos como foram adquiridas. Só sei que elas fazem parte de mim mesmo que eu não as peça para existirem: elas apenas são.

2 comentários:

Anônimo disse...

Caramba seria uma tarefa de titã acrescentar algo sobre Clarice Lispector depois do que você escreveu maestro das letras meu amigo Ed...
Aplausos a ti,amei o texto.
beijos

denise disse...

pow eu coloquei sim meu nome...
isso é um complo contra euzinha desse blog doido
hahahahahaha
assinado:
denise