segunda-feira, janeiro 15, 2007

Senhor, vamos estar encaminhando sua solicitação para o setor de diagnósticos


Bom, estou há 8 dias sem colocar um cigarro na boca, e espero parar de uma vez com meu companheiro de longas madrugadas que era meu amigo branco e magro. Não prometo que nunca mais colocarei um cigarro na boca, muito menos que me tornarei um anti-tabagista ferrenho e que a partir de agora irei empunhar a bandeira contra o cigarro em todos os locais em que for. Curioso como esse pequeno objeto foi visto de forma diversa no decorrer da história. Até vinte anos atrás, aproximadamente, o cigarro ainda era visto de forma normal e não se era penitenciado por acender um em local público e perto de não-fumantes, por mais que estes não gostassem da fumaça e do cheiro. O mercado de trabalho ainda não os recriminava e a pessoa não deixava de ser um bom profissional se contivesse dentro da sua pasta um maço de Carlton e soltasse uma longa baforada durante o expediente.
Atualmente a coisa mudou de figura. Impressionante como a pós-modernidade, com seu culto exacerbado do corpo e bons exemplos dentro das corporações mudaram a forma como o cigarro passou a ser visto. Eu mesmo já deixei de ser arrumar trabalho por responder afirmativamente quando indagado sobre tendências ao uso do tabaco. Claro que na hora pensei em omitir esse mau hábito, mas o tipo da coisa que mais me desagrada é mentir sabendo que vou me contradizer na hora mais inesperada. E o cigarro não dá pra esconder, o hálito e o cheiro são sentidos por alguns metros de distância.
As indústrias de cigarro até mesmo patrocinavam campeonatos esportivos, provavelmente todos se lembram da logomarca do Marlboro na Fórmula 1. Propagandas do produto eram expostas nas revistas de grande circulação. As novelas não se rogavam em mostrar invariavelmente alguns de seus personagens com cigarros entre seus dedos, sem que isso denotasse falta de caráter. As fotos de Coco Chanel com seu inseparável cigarro ou das grandes atrizes de Hollywood nos anos 40 e 50 fumando eram símbolos de uma era. Um dos ícones do movimento feminista a partir dos anos 60 era ele mesmo. Com ele a mulher provava que era igual ao homem. As mulheres passaram então a tragar seu cigarro tranquilamente pelas ruas sem medo de represálias, sem olhares de desaprovação das senhoras detentoras da moral e dos bons costumes.
Hoje o fumante é execrado, mal-visto e é alvo de preconceitos da parcela da população que não atura seu vício que custa aos cofres do governo alguns milhões de reais em tratamento às doenças provocadas pelo tabagismo ou mesmo pelos programas de combate a ele. Os valores morais dos brasileiros mudaram muito ultimamente. Esqueceu-se que o cigarro, da mesma forma que realmente provoca tantos males à sociedade e especialmente aos que aspiram a sua fumaça, é também uma mera vítima de uma época que glamourizou o vício.
Fumar realmente é uma fonte de prazer, quem fuma ou já fumou sabe como relaxa acender um cigarro pra escapar daquela situação frustrante. Somente quem vivenciou essa experiência sabe como incorporamos esse hábito ao nosso cotidiano, e como é complicado desvencilhar-se dele de forma tão abrupta. E a tendência de restrição ao fumo é mundial. Nos Estados Unidos, principalmente em Nova York, é sempre necessário pedir permissão para acender um cigarro e estar preparado para ouvir um não do tamanho das saudosas Torres Gêmeas. Grande parte dos países da Europa aumentou substancialmente os impostos sobre o produto, visando diminuir seu consumo. Mas ainda existem povos que têm no tabagismo marca registrada, sendo que os gregos e chineses são conhecidos mundialmente por serem "chaminés ambulantes".
De qualquer forma, sou favorável ao livre arbítrio. Nesses poucos dias, percebi que as minhas roupas pararam de feder e as minhas mãos nunca mais ficaram impregnadas por aquele cheiro horrível. Eu nunca mais acendi um cigarro quando fiquei ansioso ou preocupado. Andei engordando um pouco, pois a grande maioria das pessoas que largam o vício percebe que a balança da farmácia se torna tão ou mais inimiga do que o carnê do IPVA. Ando irritadiço, fico andando de um lado para outro, tento me desabituar à existência do cigarro no meu dia a dia.
É o preço a se pagar pelo vício que adquiri nos meus 18 anos, quando, ainda garoto e sem vivência de vida, passei por uma fase complexa em que queria experimentar tudo que me havia sido negado até então por uma criação castradora e que me negava as descobertas adolescentes. Se realmente essa tentativa surtir em êxito, precisarei achar um novo amigo que tantas e tantas vezes me acompanhou no ponto do ônibus. Pois os cigarros fumados esperando a condução foram sempre os melhores. Mas os coitados tinham vida curta e mal tinham a glória de serem saboreados. Em grande parte das vezes, ao acendê-lo, o meu ônibus passava pelo ponto.
Aquele cigarro aceso na calçada é emblemático. É a existência se esvaindo naquele espaço de tempo da luta entre o fogo e o esquecimento desse simples objeto. As cinzas se acumulam, o fogo teima em continuar a queimar, o cigarro vai terminando. Pois é, enquanto há cigarro, há vida. Alguém passou apressado e pisou em cima dos restos de vida. Acabou-se o que era amargo.

4 comentários:

O Sanatório Geral disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
O Sanatório Geral disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
O Sanatório Geral disse...

Xará, vc consegue fazer poesia até ao falar de um vício mortífero como esse... Acredito que vc conheça minha opinião sobre isso. Realmente, no passado, o consumo de cigarro é símbolo de status e elegância. Após algumas décadas, não achamos mais tão elegante assim e ainda por cima, temos consciência de todo o mal que ele faz à saúde. E é por isso mesmo que não me sinto no direito de criticar os usuários de cigarro, bebida ou qualquer outra droga; justamente porque todo mundo tem noção do que acontece com nosso organismo. Porém, na minha opinião, o álcool deveria ser tão ou mais criticado pela imprensa do que o fumo; afinal, uma família não se destrói porque um de seus membros é fumante, mas é impossível que exista paz e harmonia em uma casa onde haja um alcoólatra.

denise disse...

Dou a maior força a você para continuar sua luta contra esse viciozinho miseravél,
verdade que já foi cult fumar,
foi simbolo de rebeldia e liberdade e tantas outras coisitas mas,
ainda percebo que o é em muitas cabeças,
aff aqui está uma fumante inveterada falando disso,
quem sabe um dia me canso desse amante e companheiro de todas as horas e me junto a ti nessa luta de titãs...
hehehehehehehee
bjão