terça-feira, novembro 06, 2007

Tapa com luva de pelica


Só fui me aperceber do acontecido mais ou menos uma hora após o fato consumado, como se estivesse numa espécie de anestesia que parou de fazer efeito neste prazo. Era como se a minha face ardesse em decorrência de um tapa bem dado e desferido juntamente com poucas palavras, que adentravam meu interior como um vento que destelhava casas e arrastava automóveis. Foi um belo final de tarde, com as nuvens em coloração que lembrava entre o rosa e o laranja, e abaixo a vegetação muito verde e alguns outdoors. No sentido contrário da estrada, muitos e muitos automóveis provocavam um pequeno congestionamento. E, ao meu redor, algumas pessoas que dividiam comigo aquele ônibus, cada qual com suas vidas para se preocupar e acontecimentos pitorescos de feriado para contar aos amigos e recordar com doces lembranças.

O ar condicionado gelava os pêlos do meu braço, e foi quando fechei a pequena abertura que fornece ar individual foi que tomei conta de que há alguns momentos havia experimentado mais uma vez a morte, como, aliás, já vivenciei em alguns momentos, alguns dos quais nem me dei conta, apesar do tempo decorrido. Nada de muito dramático nem que provoque estupefação nos presentes. Eu não desci ao solo nem foi necessário que chamassem uma junta médica para a minha pessoa. Em muitos momentos não consigo exprimir com palavras o que acontece, eu apenas sinto. O que sinto é maior do que aquilo que escrevo, como se houvesse algo velado que não pudesse ser revelado nem a eu ou simplesmente não consigo encaixar letras, que formam palavras, e consequentemente frases. Mas mesmo assim me proponho a tentar verbalizar a emoção, por mais que ela me faça de bobo e se esconda atrás do não-dito.

Mas sim, houve a morte de alguma forma na minha vida, a partir do momento em que me vi obrigado a modificar sentimentos por força das circunstâncias. Uma mudança imposta, onde não vi saída a não ser a transformação de algo em simplesmente nada, inexistência, negação, um grande baque. Uma imposição, não uma escolha. Eu me vi obrigado a modificar sem que me fosse perguntado se isso é bom ou ruim. Não pude escolher qual dos dois lados da moeda me era mais conveniente. Apenas escorreu sangue, suor e lágrimas. E estava morto. Ou mesmo amputado.

Mas é necessário sobreviver, mesmo na queda. A partir daquele momento percebi que precisava vivenciar aquela situação, pois sem ela continuaria sendo egoísta e não teria aberto os olhos a muitas coisas que ainda posso presenciar, esperando ser mais bem-sucedido nas próximas oportunidades. Não me cabe culpar nem a eu nem aos outros pelos fatos que acontecem sem a nossa permissão. Não somos consultados, apenas empurrados para o abismo ou mesmo o limbo. E ali permanecemos, vivendo nossa vida medíocre à espera de alguma novidade. De qualquer forma, sempre restam coisas boas, mesmo na dor. Naquele momento eu percebi que precisava morrer para poder continuar, por mais estranho que isso pareça. Me sinto oco, vazio, sem capacidade de reação, pois não me sobraram muitas convicções. Mas me sinto sujo, tentado a me esfregar com uma boa esponja tentando arrancar as nódoas que me fazem imundo. A sujeira que provoca ojeriza e repulsa. Essa imundície que foi o estopim da minha morte.

Um comentário:

denise disse...

Estava passando aqui por perto e resolvi entrar, e não é que tinha um post novo,
que gostosa surpresa,
amei.
beijão