segunda-feira, setembro 08, 2008

Eu não sei


Quando me comunico, inconscientemente dou um fragmento ao outro. Pedaços do corpo. Em graus variados do que está em questão, mas sempre assim um corpo. Corpo que se desfragmenta a cada palavra dita. Lançada. Vomitada. O que eu comunico muitas vezes escapula ao meu alcance. Mas eu me comunico. Tento. Apesar de, eu tento. Mesmo não sabendo as consequências do meu ato, eu o pratico. Inconsequente e de forma inesperada. Prefiro não pensar no que haverá de surgir com o que digo. Mesmo que sussurrando, apenas. Mas ainda assim, irresponsavelmente, eu digo. E mesmo que meu castigo seja cruel.
Ontem eu fumei no escuro e, olhando a brasa, me disse algo que não posso revelar. Há de se ter segredos consigo mesmo para que a vida continue misteriosa. Nem a eu mesmo hei de revelar o que foi dito na penumbra daquele quarto. Mas algo me foi comunicado, e assim o é diariamente. Me comunico comigo mesmo e com outro sem ao menos perceber. Acredito que viver também seja isso. E foi com a alegria de um garoto que eu me disse algo, saborendo as meias palavras e atento para que não fosse ouvido. Seria uma violentação suprema que descobrissem esse meu segredo. Era o meu eu mais profundo que falava com o meu corpo. Um corpo com seus mistérios.
Mistérios que vêm à tona sobretudo quando digo: "Não sei.". Porque não saber é perigoso até. E de alguma forma traz conforto a quem não sabe. Mas o que não se sabe? Não saberei te responder. É misterioso demais para minha compreensão. Por enquanto, eu te digo que não sei. É preciso coragem para esse autoenfrentamento e percepção de que não se sabe. Talvez nunca se saberá. Mas provavelmente muitos outros o sabem. Isso eu também não sei afirmar, é uma interrogação. Se você também não sabe me ensine ao menos como é isso porque ainda não estou acostumado a não saber.
Eu sinto que não sei, e, enquanto isso, o indevassável se torna mais e mais nebuloso. Porque o doloroso não é não saber, mas sim perceber que não se sabe. Aí mora o perigo. Quando descobri que eu não sabia não saber, não aceitei e fiquei indignado. Estupefato. Macambúzio. Esse direito eu acho que tenho. Já que o saber me foi negado, que ao menos eu aprenda a não saber para não fazer perguntas. Porque eu cismo em perguntar, mas para que saber se eu não saberei o que fazer com essa coisa que quem sabe eu saberia?

Um comentário:

Coruja disse...

Eu sei que nada sei, assim ja dizia o filosofo.
bjk