sábado, maio 24, 2008

Aquele que coça a cabeça


Acho tão estranho quando alguém demonstra afeição por mim, por mais que no meu interior o que mais almeje é ser aceito pelas pessoas assim como sou, com meus medos e frustrações. Mas não me agrada quando tentam me convencer que a minha forma de ver a vida e seus enleios não é a forma mais correta de viver. Afinal de contas, como que se faz para viver? Se alguém souber essa resposta, por favor me forneça essas informações pois ando em busca do Teorema de Pitágoras há muito anos, sem respostas conclusivas, apenas reticências...

Essas coisas que aqui escrevo parecem por demais abstratas para a grande maioria das pessoas que, a este momento, a poucos quilômetros de onde estou, aproveitam esse dia de sol nas praias e na convivência social. Mas é a minha realidade mais íntima e discreta, que mesmo assim sendo, urde por se fazer aparecer e muitas vezes está estampada na minha cara. Cara de quem não sabe o que fazer, como e o que dizer nas horas mais apropriadas e, principalmente, cara e corpo de quem não sabe o que fazer com esses acessórios recebidos em uma caixa de presente com laço de fita muito jeitoso e chamativo.

E o pior de tudo é que tento não demonstrar o quão no fundo sou carente e só, mesmo usando do velho discurso de que adoro a solidão. Não estou utilizando da autocomiseração, e se assim pensares não poderei te demover dessa idéia, apenas contra-argumentar com palavras que no final das contas acabarão não convencendo nenhum de nós dois. Não sei o que fazer da liberdade que me foi concedida, que rumo tomar ou simplesmente continuar pelas curvas que a vida foi me levando inconscientemente da minha vontade.

Possuo uma espada de dois gumes nas mãos: tenho o livre-arbítrio e não sei o que fazer dele. Esse sol que invade a janela na qual estou próximo só me faz ter mais certeza de que todas as coisas hão de passar, não importando o que virá depois delas, muito menos se haverá uma continuação. Sim, mas sempre há um porvir, e depois outro, e mais outro. O ciclo é infindável e a verdade é que muitas coisas escapam ao nosso controle.

Enquanto isso, bocejo e divago a cabeça nas horas vagas e procuro não repetir esses mesmos atos quando tenho algo a fazer que me tire dessa letargia e me faça sentir um pouco mais produtivo do que ando me sentindo. Mas é instintivo: lá venho eu com o meu provável poder sobre mim e o mundo e o fato se espatifa ao meu redor sem que eu nada possa fazer para alterá-lo ou melhor, evitá-lo. Não saberia exemplificar o que digo, até porque não sei em que ponto uma tal situação se conclui e onde outra se inicia. Falta-me o discernimento da coisa. Falta-me saber como lidar da melhor maneira com a tal coisa. A coisa é, simplesmente, e escapula ao meu entendimento. Ela o é sem que eu a queira.

Enquanto isso, continuo sentado no banco da praça, com a mesma cara de paisagem costumeira, tentando esconder meus olhos dos raios ultra-violetas, mas é sempre a mesma visão embaçada entre a razão e a emoção. Somente mais um entre tantos outros com os quais cruzamos diariamente. Mas com a leve impressão de que mais só, infeliz, triste, solitário e algo o mais. Esse algo o mais também me assusta.

quinta-feira, maio 22, 2008

A Metamorfose


O espelho embaçado pelo vapor da água quente me inspirava a escrever alguma coisa que ao menos naquele instante demonstrasse a minha pretensa imortalidade. Mas as danadas teimam em se enfurnar em algum buraco escuro e quando necessito dessas moças elas mangam da minha pessoa debaixo das minhas fuças e fazem questão de ser malcriadas, ressurgindo das cinzas quando elas não são mais necessárias.

Sendo assim, só me restou fazer cara de bom tacho ou mesmo a minha famosa cara de paisagem, como se tivesse sido pego em alguma traquinagem devida que me renderia umas boas palmadas ou mesmo alguns minutos sentado no canto da parede refletindo sobre minha ação criminosa. Ou, como diria meu amigo Paulo, faria cara de bondade e tentaria convencer o interlocutor da licitude do fato.

Mas, enfim, eu não sabia o que haveria de ser escrito ali, apenas idéias desconexas que sozinhas não formavam sentença alguma. Se bem que, mesmo assim, meu instante criador se esvairia no instante em que desligasse aquele chuveiro e a temperatura por si só se ocupasse de destruir meu insante escritor. Mas sou teimoso e birrento e faço questão de não ser vencido pelas circunstâncias, mesmo quando estas me provam que são mais vigorosas do que aquele que vos escreve.

Tive a impressão de ter sido jogado em um imenso palco sem prévio ensaio, apenas uma folha em branco sem nada datilografado, sem que me fosse passado o que deveria falar, quando, onde, em que circunstâncias e como me portar em relação ao meu corpo. Mas assim fui e estou até agora. Aos trancos e barrancos, mas vou. Sou insistente por demais e cometo muitas gafes, mas uso de minhas faces bondosas e escapulo aos comentários alheios. Um dia, de tanto insistir, eu acho essas respostas. Aí ficarei impossível. Menos sorumbático e mais paciente. Menos metamorfosse. Mais pessoa. Não sei as consequências que advirão dessa descoberta. Mas me rendo ao desafio. Ai de mim, meus caros!

domingo, maio 04, 2008

O processo


Cabelos despenteados e muitos fios brancos, calvície proeminente, barba de alguns dias, All Star velho, roupas puídas, mãos nos bolsos e olhar desconsolado e baixo. Esse seria somente mais um desnorteado da sordidez urbana, mas me refiro a mim mesmo. Um resumo nada prolixo de um ser de estranheza agressiva. E invariavelmente um cigarro sendo fumado vorazmente. Muito mal humor quando não há cigarros a serem degustados. E idéias, muitas idéias. Imagina-se andando pelo centro de uma grande metrópole recitando Rimbaud em francês. Mas não conhece Rimbaud tampouco fala esse idioma. Um sádico. Estranho. Somente mais um rapaz não muito jovem que anda pela cidade em direção a algum lugar, como as outras pessoas com quem divide as calçadas. Mas geralmente não há lugar algum a ir, anda-se a esmo. Mas somente em lugares já conhecidos anteriormente. Esse moço não se aventura por locais aonde nunca esteve. E pensa, pensa e repensa. Se lhe perguntam acerca do que tanto divaga, não saberia responder. Sente-se privilegiado por ser tão apagado que não chama a atenção de ninguém. Assim, é anônimo, não lembrado e muito menos comentado. Se depara com sua imagem no vidro de uma vitrine qualquer, e apalpa abaixo dos olhos, onde se depara com algumas olheiras, e marcas de expressões na testa. Mais uma vez se pergunta se quem vê é ele mesmo ou apenas a imagem de quem não gostaria de ser. E sente que nasceu no corpo errado. Mas é o que possue no momento. Aliás, em todos os instantes. Foi-lhe dado um corpo sem ao menos ser questionado se sua vontade era respeitada. Não houve um prévio ensaio. Ele foi jogado nas ruas sem ao menos instruções de como se comportar perante as pessoas que o amedrontam e essas construções que lhe são estranhas e assustadoras. Sente-se um ordinário. Quando sente algo sobre si, pois observa muito mais aos outros e sente medo do julgamento que farão dele. Tem impulsos de sentar em qualquer lugar onde possa se sentir um pouco confortável, mas algo lhe diz a ilicitude do ato. Sabe que tem um local para morar e passa uma parte do dia ali, mas olha para aquelas pessoas e não sente nada por elas, apenas confusão. E tristeza. Mais uma vez sabe que não vive da forma que deseja e que aquelas pessoas as quais lhe disseram algum dia que são seus familiares não lhe inspiram nada mais do que um oco no fundo do estômago e no resto dos locais vazios do corpo. Aliás tampouco questiona como seria a vida ideal. Este rapaz não muito jovem não sabe viver. Ele na realidade nem sabe porque está vivo. Apenas segue a ordem das coisas, sem se revoltar concretamente com o presente que lhe foi dado sem embalagem muito menos um laço dourado. Em algumas circunstâncias é visto dialogando com uma pessoa qualquer, mas prestando-se atenção, atenta-se para o fato de que trata-se de um monólogo. Sua timidez o impede de falar mais do que parcas palavras que aliadas fornecem informações de pouca valia. Mas a verdade é que ele não sabe o que dizer, onde colocar as mãos muito menos para onde olhar enquanto conversa. Mas percebe-se que tem um sorriso infantil que exprime ainda um quê de meninice não perdida. Enquanto acende mais um cigarro, pessoas passam em seu redor e não se atentam que são extraordinárias, e que estar fora desse círculo ou mesmo roda denota um preço alto os quais poucos se dispõem a pagar. Na realidade, alguns pagam compulsoriamente, sem serem consultados sobre a vontade ou não de não participar dessa roda. Eles apenas imaginam como seria estar dentro dela. E nesses instantes a imaginação voa longe, tão longe. Como quando era criança e acreditava que a vida seria para todo sempre tão simples e singela. Mas os anos passaram impiedosamente, e com eles veio a insônia, o roxo abaixo dos olhos e as costas meio curvadas, como que para se esconder da vista de todos.

quarta-feira, abril 09, 2008

Papo sem pé nem cabeça


É estranho ter um corpo e não saber o que fazer dele. Braços, pernas, orelhas, órgãos, dedos que participam do conjunto mas destoam do resultado final. Tantos acessórios inutilizados pelo tempo e pelas sensações. Acessórios que são a raiz de sentir algo, mas o algo é o que há. Há algo e não o há ao mesmo tempo. Vida que corre no exterior desse algo. Algo que gostaria de ser inserido no contexto, mas que não o é por motivos desconhecidos a ele.

Imaginação que nasce dentro desse algo e não se consegue exteriorizar numa folha de papel. Até se exterioriza sim, mas tão fragmentada que no fim já não tem quase nada da gênese. Há de se plantar para que se possa colher algo, diz a sabedoria popular. Há de se ser suficientemente paciente para ver a planta frutificar. Ela tem a sua origem, que muitas vezes escapa ao seu conhecimento, dada a sua não-permissão do que se faz à sua revelia.

Há muitos ruídos lá fora, ônibus, carros, pedestres, enfim, a vida cotidiana que pulsa independente da minha participação nela. Mas esses ruídos não me atingem. Aqui dentro tudo coontinua tão amorfo quanto naquele tempo em que nem me havia apercebido dessa calmaria, desse porém, diria que letargia.

Calmaria ilusória, digo eu. Talvez até fazia tanto ou mais barulho do que lá fora, mas nesse caso se esgota por si só, não gerando nada e morrendo no nascedouro. E, a cada vez que esse ciclo infindo se repete, torno eu a ouvir o movimento, até mesmo musical, imaginando que logo eu estarei inserido no tal contexto.

Há vida lá foram, mas aqui também o há, oras bolas, digo para mim mesmo enquanto ando em círculos pelo espaço desprovido de obstáculos. Mas não sei dizer onde há mais vida, se aqui ou lá. Aliás, sei sim, mas não respondo a essa questão porque tenho medo da pergunta que ela vai originar, como se estivesse mexendo em algo secreto que não deve ser perturbado. Não gostaria de mexer com tal vespeiro. Não pretendo me expor às ferroadas. Muito menos às questões internas dessas ferroadas. Não sei se estou preparado para as consequências.

terça-feira, março 11, 2008

Que tédio...


Ando sem palavras ultimamente. As pessoas falam comigo sobre os assuntos mais adversos e só consigo responder afirmativamente com a cabeça ou então solto frases monossilábicas como: "Sim". "Pois é", “Quem sabe?”, “Concordo”, e por aí vai. Sou desinteressantíssimo, e só me dão trela porque ainda não perceberam que existem pessoas melhores com quem dialogar. E eu também não as aviso que não estou prestando atenção na conversa, que naquele momento estou com a cabeça longe, divagando acerca de assuntos que diferem completamente do que está sendo discorrido.


Ultimamente não, há muito tempo, posso até me arriscar a dizer que há alguns anos não tenho assunto. Até forço a situação e me arrisco a trocar meia dúzia de palavras com meu interlocutor, enquanto me seguro para não bocejar e não dizer que tudo é tão tedioso. Não quem está conversando comigo, mas eu mesmo. Sou o arquétipo do tédio. E não adianta tentar me convencer do contrário. Só eu sei da dor e delícia de ser quem sou eu. Um velho chato, com muitos cabelos brancos e calvície em profusão que anda com as mãos nos bolsos e pensa em voz alta andando pelas ruas da cidade, ou das cidades, não importa aonde. Procuro achar respostas para o acontecido na minha vida tediosa existência, e às vezes acho que a conseqüência e causa de tudo é minha essência extremamente enfadonha.


A única reação que provoco são bocejos ao dizer as convicções que considero geniosas. Na verdade, eu sempre penso que descobri o ovo de Colombo, mas o fato é que nem criatividade eu tenho para explicar as mesmas teorias sob um ponto de vista diferente, eu só copio as idéias alheias e as reproduzo modificando algumas vírgulas e palavras. Eu mesmo bocejo quando tenho meus estalos. Digo a eu mesmo: “Sossega, meu filho, nada do que você está dizendo é inovador, és um chato de galocha que procura chamar a atenção dos outros mas que sabe que és desinteressantíssimo, provocas sono e abreviam as despedidas quando te encontram casualmente pelas calçadas do município.”


Não mando mais ninguém às favas, já diria a sabedoria popular que a voz do povo é a voz de Deus. Ditos populares não são desejáveis a essa altura do campeonato, mas preciso ocupar meu tempo com alguma coisa e colocar algum texto, mesmo que seja esse lixo que você perdeu alguns minutos lendo. De qualquer forma, já tive dias melhores nesse blog. E pare de bocejar, você também. Ao menos finja que disse algo criativo.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Narcolepsia


Ultimamente tenho viajado bem mais do que o usual, conhecido lugares, pessoas, ambientes e situações antes inimagináveis ou então relegadas a um inconsciente muito profundo. Alguma probabilidade muito pequena de se concretizar. Mas, enfim, assim o foi. Não sei porque cargas d´água tinha a impressão de que quando viajo as fisionomias vão ser muito diferentes das que eu vejo cotidianamente nessa pequena esfera caiçara, onde não consumimos muito peixe, mas em compensação moramos em prédios tortos. Culpa da engenharia que não havia se dado conta do péssimo solo que possui meu nobre município de nascimento para comportar tais construções. Mas isso não vem ao caso agora.

Gosto muito de viajar, observar as cidades que vão se desenhando à beira da rodovia e pesquisar sobre ela, perceber suas mudanças e imaginar como seus habitantes se relacionam entre si, ou mesmo como vêem os viajantes que os avistam diariamente mas nada sabem sobre suas existências. Passei a acreditar que posso conhecer um pouco mais do homem somente observando o lugar onde mora. Algumas vezes dou a sorte de ver as pessoas andando pelas ruas próximas à rodovia, seja indo trabalhar, passear, trepar, vadiar, beber, falar da vida alheia, enfim,
nada mais corriqueiro do que se faz todo santo dia.

Aliás, o que se faz em todos os cantos desse mundo, não importando a forma muito menos o idioma em que se é feito. Mas se faz sim. Ah, se faz. Agora mesmo, enquanto escrevo essa sandice, tem gente fazendo algo. Mas fazendo o que? Ah, o inacreditável, o inimaginável, o santo e o profano, o mais puro e o deslavadamente descarado, e mesmo sendo mais comedidos, de luz apagados e sem ruídos.

Não importa se você vive em Uruguaiana ou em São Gabriel da Cachoeira, és homem ou mulher, partilha das mesmas ansiedades que eu, e, não vem ao caso se os fazes no 15º andar de um arranha-céu ou às margens de um riacho. Mas os praticar. E não estou me referindo abertamente a sexo, vis libertinos. Posso falar de cortar as unhas, escovar os dentes, se alimentar, ler, andar, trabalhar. Ou seja, o que bem quiseres. Só sei que fazes algo nesse instante, nem que seja coçar a cabeça e se perguntar o que leva um ébrio como eu a escrever tanta baboseira.

A resposta é mais simples do que imaginas. Eu só estava há alguns dias sem escrever nada nessa joça por pura falta de tempo e não sabia o que devia colocar. Pois aqui está, o trash em seu estado mais puro. Pode vomitar, se quiser. Eu deixo. Se também quiseres passar reto e não me dar um pão velho, também permito. Só não admito a omissão. Hunf para você também..

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Linha rompida


Construí uma linha fina, quase transparente, que me ligava às minhas utopias adquiridas recentemente e descontruídas a duras penas. Era tão pequena que só eu a enxergava e, na realidade, não tinha me apercebido que sua existência estava apenas no plano da imaginação. Ela não era real, mas simples fruto da minha por vezes rica criatividade.
No decorrer desse período, ela era minha mais fiel companheira e era guardada no meu bolso, sendo assim, a levava para todos os locais aonde me dirigia. Acordava comigo, a levava para passear, estava ao meu lado nos momentos das refeições nem sempre regradas pelo bom senso, participava de todos os meus afazeres, compartilhava das minhas leituras, das minhas músicas, das minhas idéias, trabalhava juntinho ao meu lado e me desaprovava sempre que me distraía e a colocava entre os meus dedos e a minha imaginação voava por planos psicodélicos. Enfim, ela estava no meu dia-a-dia, e me afeiçoei tanto a essa pequena coisa que não me via mais vivendo sem a sua própria existência.
Essa linha havia se tornado condição essencial do meu eu. Não poderia mais ser dissociado desta, e sem mim esta também deixaria de ter razão de ser, ou estar. Muitas vezes não nos damos conta de que nos apegamos a objetos ou fatos por si só tão mínimos que somente estes nada mais são do que um mero grão de areia da praia. Esta linha era meu elo de ligação com o mundo humano, e na verdade com meu próprio mundo.
E nossa convivência foi entremeada de períodos nebulosos. Por vezes discutíamos longamente, com direito a muitas lágrimas da minha parte e sorrisos nefastos da parte inversa. Ela me dizia que não passava de acessório para a verdade que eu não queria enxergar, e eu “tampava” meus ouvidos, a fim de não escutá-la. Este era mais uma prova da minha teimosia, defeito o qual tento me livrar mas muitas vezes é maior do que a minha força de vontade.
Mas, por poucas vezes, a acariciava e a agradecia imensamente por estar perto de mim e me fazer mais forte, se bem que a cada dia me tornava mais vulnerável à propulsão de sentimentos que eram tão sonoros quanto as palavras que não eram ditas. No caso citado havia muito, mas um desesperador silêncio. Silêncio mutilador.
Mas eis que chega o dia da sua libertação, nirvana, morte até. Mais para mim do que para a linha, que de tão fina e transparente nem poderia sofrer um processo de inanição. Até porque ela já havia nascido mirrada, e tão pequena que por muitas vezes tinha ímpetos de alimentá-la às colheradas para que ambos não morrêssemos de mãos dadas. Ela se foi, sem um gemido, sem uma palavra, um toque ou qualquer outro gesto. Apenas se libertou da minha presença egoísta. De repente me vi sem ela, e sem saber do que fazer, de como aproveitar sua ausência. Se foi sem me ensinar a viver sem ela. Bom, se há como viver sem ela. Preciso aprender, a duras penas e lições. A música de fundo continua tocando nos meus ouvidos. Mas agora sem a linha. Sem meu elo com dias melhores.

sábado, janeiro 05, 2008

Com a mão no coração


Pode-se dizer que tudo começou com um sim. Mas digo que um sim dito interiormente, sem grandes pretensões de ser ouvido por quem está a nosso lado, muito menos aquela afirmativa feita quando estamos falando em voz alta com a única pessoa que realmente lhe ouve em quaisquer circunstâncias: você mesmo. Mas inicialmente não trocaram palavras, era simplesmente um flerte praticado por duas pessoas que se interessam mutuamente baseado em questões físicas. Os olhos, o nariz, a boca, seios, braços, pernas, enfim,todas as características natas a qualquer ser humano.

Os dias se passaram e a paquera tímida continuava caminhando a passos lentos. Bom, não se pode dizer que em tal caso os passos fossem lentos, pois em poucos dias houve um tímido e casual:"Oi, tudo bom?", em que a resposta,logicamente, seria a tradicional: "Sim,tudo bem, e com você?". Detalhes desse colóquio não importam muito, até porque certas frases proferidas nesse âmago não interessam a nós, espectadores, mas somente aos participantes do sentimento que nasce sem que nos demos conta disso. Mas adianto que temos nesta história um final feliz, com direito a suspiros das senhoras leitoras das rádionovelas e de todos nós que, sim, sonhamos com um amor que nos faça perder o fôlego e o juízo.

Coração batendo mais forte à presença do ser amado, uma saudade inexplicável de quem se deseja e a necessidade física da pessoa por perto, pêlos do braço que se eriçam, defeitos que se transformam em qualidades ou são abruptamente miminizados,vontade de sair proclamando aos quatro ventos o nome do(a) felizardo(a), suspiros prolongados madrugada afora, apertos exagerados no travesseiro durante a noite, contas telefônicas a valores estratosféricos, os cinco sentidos que se tornam exageradamente aflorados; ou seja,tudo isso e tudo o mais a que se tem direito quando se ama. E obviamente sentiam isso com o decorrer do tempo, não se sabendo com qual intensidade. Mas suponhamos que sorriam desbragadamente,mesmo nos momentos mais estressantes do cotidiano. Botavam as mãozinhas no peito, próximo à região do coração,e pisavam nas nuvens, proferindo em voz baixa: "Aaaaaaaaiiii,como eu te amo!".

Mas, como em toda boa história amorosa, havia empecilhos. O moço ainda não estava totalmente livre de um relacionamento anterior. Leia-se que era casado. A moça, pelo visto, não possuía o mesmo problema, somente uma família tresloucada e uma tia que grita desesperadamente por motivos banais e provoca a ira dos ouvintes e vizinhos. De qualquer maneira, era um caso complicado, pois os dois queriam namorar e o rapaz tinha uma família, composta inclusive de um filho.

O relacionamento se mantém durante algum período sem que a moça saiba dessa condição de seu namorado. Mas,quando toma ciência do fato, exige uma decisão: "Ou eu ou sua família!". E assim foi feito. O rapaz abandona sua família em prol dela. Reitere-se que me refiro à minha prima Luciana, que bem merece esse sacrifício. Principalmente pelo fato dessa moça ser minha parenta exigia do rapaz uma atitude radical. Não que somente isso fosse o fio condutor do que se concretizaria a partir daquele instante, mas isso contou muito para o happy end aqui descrito.

Enfim, o rapaz se separa de sua esposa e assume publicamente um relacionamento com a minha prima, que já o era antes que ambos se conhecessem. Segundo informações fornecidas pela própria prima, no Natal cada um conheceu a respectiva família do ser amado, e não se teve notícias de pratos quebrados nem maiores incidentes. Sendo assim, já existe a aprovação dos familiares. Os dois se amam e suas famílias consentem com o namoro. E o sentimento cresce a cada dia mais, dado o caráter íntegro do rapaz e a protumberância física e intelectual dessa jovem moça.

No final das contas,o que importa é que o namoro esteja dando certo, e espero que assim se perpetue por longa data. Desejo sinceramente que o casal seja muito feliz e que me convide para a cerimônia religiosa. E que comemoremos em grande estilo,com direito amuito espumante, pois a champanhe está acima de nossas posses. E com longos suspiros das senhoras de São Gonçalo jogando arroz nos noivos dou por encerrado esse relato.

sábado, dezembro 29, 2007

Clarice + Eu


Enquanto passava a mão pelo cabelo recém-cortado, os pêlos do meu braço se arrepiavam, sentia o gosto salgado das lágrimas que cismavam em se desfazer na minha boca. Ao mesmo tempo, sentia como que seu olhar enigmático, confortante e desafiador. Foi uma experiência mediúnica. Sentia Clarice Lispector a meu redor, durante a apresentação teatral em que eram encenados dois contos de sua autoria.

No palco, três atrizes a representavam: Clarice jovem, com um livro que a absorvia e a mantinha entretida; uma outra Clarice, já madura, escrevendo alguma coisa em sua máquina de escrever e, finalmente, uma terceira Clarice, tão madura cronologicamente quanto a segunda, de turbante, cigarro na mão e pose altiva, que circulava pelo espaço proferindo seus pensamentos como que chicoteando o espectador. Algumas pessoas até riam de sua impetuosidade, mas para mim aquilo era um choque interno. Era eu vivendo nas suas palavras, ou a minha experiência de vida metamorfoseada no que ali era dito.

Minha paixão por ela é notória e não me esquivo de dizer que nunca me senti tão estapeado e retratado como quando tive meu primeiro contato com sua literatura. Infelizmente ela nos deixou há 30 anos, mas seu espólio permanece intocado em todo aquele que a sente. De forma visceral e crua, como um espelho que se quebra, jogando os cacos no nosso eu mais íntimo e indevassável. Despedaçando não o visível aos olhos, mas o que se sente no profundo, nos desnuda e provoca estupefação com as dúvidas que surgem abruptamente e cujas respostas não parecem ter solução.

Palavras me faltam para descrever nossa relação. Surge um vazio, um olhar, um toque e suas palavras, que rasgam internamente e provocam o nascimento de novos seres adormecidos dentro de mim. Simplesmente a sinto e a compreendo na sua busca de se solucionar como ser humano, vivendo uma espécie de vida dupla: aparentemente, uma senhora de ascendência ucraniana autora de grandes sucessos, mas dentro dela havia a necessidade de se expressar. Mas comunicar o que? Tampouco ela sabia. Mas suas tentativas foram imensamente válidas. E continuo sendo tocado sempre que a descubro.

Ah, bem lembrado. Na quarta-feira passada pensei muito em ti. Quando vi meu rosto refletido pelas lentes dos óculos escuros da Vivi (gostei muito de reencontrar você e o Guilherme, te desejo tudo de bom), me pus a ajeitar o cabelo, recordando de quando saí do banheiro com os cabelos molhados e despenteados. Você sorriu e tentava arrumá-los, dizendo: "Assim não, está muito pueril". Me deu um nó na garganta e tive a certeza de que algo mudou em mim, não sei se para melhor ou para pior. Não restou muita coisa, me sinto mais oco e duro, sem saber como continuar. Mas há de se insistir, mesmo sem fé alguma.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Ode ao cofrinho


Yes, nós temos bananas, café e palmeiras nessa terra tupiniquim alcunhada outrora como Brasil. Temos também derrières, ou mais vulgarmente falando, temos bundas e mais bundas, que se mostram lascivas e devassas pelo nosso imenso território, desde a badalada praia de Copacabana até mesmo em algum riacho pouco conhecido da nossa Amazônia. Podemos também falar dessa parte do corpo chamando-a meigamente de nádegas, ou região glútea. Sendo assim, podemos denominá-la da forma como melhor preferimos.

Mas atente para o fato de que o tema desse texto seja justamente essa parte do corpo tão afamada pela população masculina do nosso país. Não sou nenhum depravado. Bom, falando sinceramente, sou muito depravado nos momentos em que me convém e nos não convenientes também, mas não é isso que está em questão. O que se coloca na mesa é o cofrinho de Laura Villela.

Mas quem seria essa moça?, perguntam-me os leitores desse blog que desconhecem esse nome. Laura é uma moça ainda na mais tenra idade, com seus 20 anos completados há pouco, criada nas ladeiras e grotões de Santana, bairro da Zona Norte paulistana, que não se faz de rogada e exibe sua derrière por todos os locais aonde passa, sem a maior cerimônia. É assim mesmo: você apenas vê um pedaço de suas nádegas que insiste em pular da calça, sem que ao menos sua dona se dê conta de tal fato. E assim se sucede diariamente, ou ao menos nos momentos em que convivo com essa moça, que também é famosa pela sua cara de barraqueira e sinceridade, usando suas palavras amorosas a torto e a direito sem se preocupar com a expressão assustada da pessoa a quem dirige suas opiniões.

Mas creio que essa sua exposição exagerada seja apenas um sintoma físico de carência afetiva, ou simplesmente a metáfora de sua inadaptação ao sistema e revolta interior e exterior por algo que ainda desconheço. Preciso conversar mais com essa moça para saber os motivos de tal revolta, que se traduz em cofre exposto publicamente, na maior impudicície. Sem maiores preocupações com as consequências judiciais que tal fato venha a lhe provocar. Laura, você ainda poderá se ver nos tribunais por causa dessa sua mania desenfreada de expor sua intimidade assim, sem ao menos perguntar se os visualizadores concordam com isso.

Mas nada pode ser feito, ao menos momentaneamente, para impedir que Villela, como a chamo carinhosamente e também nos momentos de briga (nunca nos estapeamos, mas preciso dar veracidade ao texto), mostre assim desarvoradamente sua derrière. Só me resta verter lágrimas de sangue pelo seu costume nada condinzente com uma moça tão fina.

Em alguns momentos, inconscientemente, também exponho meu cofre em vias públicas, claro que sem me aperceber disto. Mas não vejo nisso mal algum, é apenas uma parte do meu corpo que se rebela contra a ditadura da vestimenta ocidental e se revolta automaticamente, alheia à vontade de seu dono de se mostrar.

Neste momento, moças, na sua maioria expõem suas nádegas nesse país tropical, nas praias, rios e mesmo na intimidade de suas residências. Mas isso não impede que também moços pratiquem tal ato, embora com menor frequência. Não pense que sou partidário desse ato, sou um rapaz de respeito.

Apenas constato os fatos e os transcrevo. Ou seja, mesmo que não queria, vejo bundas e mais bundas que se mostram sem que eu lhes peça. E isso nada tem de anormal. São apenas desejos incontidos que afloram, renascem ou mesmo morrem. Simples assim.


sexta-feira, novembro 23, 2007

Nu


Eis-me nu. Vestido com as roupas que o Senhor me deu. Sem nada a esconder as vergonhas e todo o resto. Exposto ao frio, ao calor, à chuva, ao sol, enfim, às intempéries da natureza. Conheceste agora tu que me vês assim, não somente a carne, mas sim os sentimentos que exponho como ferida em brasa e brado alto em praça pública. Aqui estou, na presença de todos, expondo aquilo que fui, quem sou e o que porventura serei um dia. Apenas nu, sem apetrechos alguns nas mãos, e estas nem ao menos a esconder o meu sexo. Mas por que estou nu?
Nu porque assim viemos, e assim voltaremos. Não nus somente com a roupa que reveste nosso podre corpo, mas nus de alma, de espírito, nus de flagelos e sentidos. Não se espante com essa visão, estou apenas nu, ou pelado, como quiser interpretar. Pelado sim, e que mal há nisso? Sim, estou cometendo um grave atentado ao pudor, bem o sei. Mas continuo nu enquanto não me cobrirem com alguma coisa que, além de me aquecer o corpo, possa me fazer compreender a alma dos homens, que, além de tudo, é nua de nexos.
Nu sou eu, nu é você, nu somos nós. Estamos todos nus diante do espetáculo que se apresenta durante as vinte e quatro horas do dia. Não sabemos o que fazer da nossa nudez. Muitas vezes nem nos damos conta da nossa nudez. Não a física, mas a nudez da alma. Nus ficamos quando não percebemos que não é a nudez que choca as pessoas, mas nosso caráter, ou a falta dele. Veste sua capa de sacripanta e pensas que com ela estarás acima do bem e do mal, do julgamento dos homens, e quem sabe do divino também? Há que atentar a todas as hipóteses, no momento em que se conta com o privilégio da roupa em uma terra de gente nua. Mas há o tempo. Ah, o tempo, esse destrói não somente os castelos de areia e molda as pedras das cavernas, mas também se encarrega de todas as torpezas nossas de cada dia.
Mas continuas tão ou mais nua do que antes. Há pureza e beleza na nudez, mas também há canalhice e sordidez. És canalha e sórdida, minha cara. Tens beleza e encantamento, brilho nos olhos que escondem, ou melhor, apenas ofuscam que está mais nua do que todos os outros. A nudez que fere quem te expôs a falta de vestimentas não somente com lascívia, mas teria oferecido a ti sua capa ou mesmo a vida para cobri-la nos momentos em que necessitasse.
A nudez que apagaste da sua lembrança e preferes expor como inexistente. Mas há a nudez, mesmo que feches os olhos e não se permita vê-la. Estás tão nua quanto todos os outros, que já não se assoberbam com o que tem diante dos seus olhos nos momentos mais improváveis do dia.
Nu já era antes de ti, e nu continuarei, provavelmente ainda mais despido, se é que isso pode ser possível. Há sol agora, e continuará havendo sol enquanto houver inocência e estupefação diante dos homens e todas as suas coisas. Estou nu principalmente por causa da minha ingenuidade. Cheguei a rasgar o restante dos trapos que usava para me despir diante de ti. Mas nem assim percebeste que havia ali mais que um encantamento, havia amor.
Sim, nu continuo e imediatamente nu me prostro diante de quem quiser visualizar a minha nudez. Não é vergonhoso ser visto nu pelos outros. Mesmo que eu não aceite a condição, eu ainda continuo nu por sua causa. Mesmo que a razão me diga para costurar as minhas vestes, nu continuo. Por você, sempre nu.

domingo, novembro 11, 2007

Sob efeito de narcóticos


Ao vê-la de longe, comecei a sorrir nevosamente, baixei os olhos e comecei a estralar meus dedos antes de os colocar em forma de concha entre as pernas. Somente eu enxergava essa claridade que me ofuscou a vista assim que se aproximou, e que provinha dessa mulher. Juntava-se à luminosidade que nascia dentro de mim e essa mescla de luzes me fazia cantar mentalmente uma música que me enchia de uma calma avassaladora, como seuma caixa de soníferos me fosse empurrada garganta abaixo. Havia me prometido ser enxuto com as palavras e as medir rigorosamente antes de proferi-las, sob pena de tê-la mais uma vez afastada dos meus olhos. Poderia me portar grosseiramente, se as situações assim apresentadas pedissem tal providência.

O lugar estava vazio, e só me dei conta de que ela havia sentado ao meu lado quando a garçonete colocou sobre as minhas mãos estendidas o cardápio. Não me recordo do que havia pedido para consumir, só me surgem vagas lembranças de que era alguma bebida quente com chocolate de gosto levemente amargo. Não comi nada por receio de me allimentar na sua frente, por medo de me sujar e provocar nela ainda uma pior impressão, como se deixando se saciar a minha fome provocasse nela uma espécie de transgressão de valores a meu respeito.

- Oi, o que você gostaria de falar comigo?

- Nada em especial, apenas senti sua falta. Gostaria de saber de você, como está seu trabalho, seus amigos, livros, discos e tudo o mais. Se não estiver pedindo muito, é claro, não quero ser invasivo, sei que você não gosta de se expor e tenho muito medo de perguntar algo que lhe ofenda. Já percebi que não permites que saibam de você mais do que julga necessário. Mas, olha, eu não te pedi para vir me encontrar porque queira saber da sua intimidade, me perdoe se pensar assim, não foi a minha intenção.

Percebi que havia falado muito além da conta e que as minhas pernas tremiam imensamente, procurava esconder isso dela e tinha a meu favor o fato de que meu tronco mantinha-se razoavelmente estabilizado, por mais que demonstrasse meu nervosismo ao segurar a xícara.

Havia ensaiado o que diria a ela desde que havíamos marcado tal encontro, mas na hora do desenrolar dos fatos geralmente profiro sentenças que nada correspondem ao que havia planejado anteriormente, sendo assim começo a gaguejar e me arrependo de ter sido tão impetuoso.

Mas era tarde, as letras haviam sido golfadas naquela mesa e qualquer deslize meu poderia custar um valor altíssimo para a minha atual condição emocional.

Felizmente sua paciência ainda não havia se esgotado e ela continuava a conversar normalmente comigo. Aliás, de forma convencional demais. Tinha desejo de sacudi-la e dizer: "Pare com esse teatrinho de fingir que nada está acontecendo e que você não percebeu! Tu sabes que me tens nas mãos e que pode me aniquilar com um leve toque entre seus dedos. Não vês quanto sofro por sua causa?". Mas se assim agisse ela simplesmente balançaria a cabeça, mudaria de assunto e internamente me odiaria ainda mais. A mim restaria acender mais um cigarro e lutar insistemente para que a fumaça não encubra ainda mais a minha visão em relação a ela.

E me dizia amigavelmente tudo o que supostamente havia perguntado. Mas na verdade vos digo que não estava muito entretido com as notícias e pormenores da sua vida, apenas buscava observar sua imagem, gestos e palavras, tentando reter o máximo possível na minha memória, para que aquele momento único não se perdesse nos dias seguintes em que sua presença haveria de ser apenas uma saudade alucinante que invadiria meus sentidos e se transformaria em dor física. Pensava da seguinte maneira: "Agora já não tem mais volta, darling, já estás dentro de mim, invadiste sem querer todos os meus recantos profundos e neles fizeste uma maravilhosa anarquia de sentimentos e sensações. Mesmo que eu tenha plena consciência de que para você nada significo, já moras aqui dentro, no grito contido e no silêncio abafado, nas madrugadas insones e nas tardes calorentas, nos momentos de lucidez e nas devaneios desvairados. E isso vai se perpetuar, mesmo que em episódios fragmentados, enquanto resistirmos nessa vidinha medíocre que nós dois temos. Me fizeste descobrir a paixão e o seu desespero, mesmo que tenha sido tão vítima quanto eu nesse emaranhado de vibrações."

E os minutos iam passando, ambos monossilábicos em alguns momentos, enquanto nos restantes havia muita coisa a ser compartilhada. Sentia-me imensamente contente por ser confidente destes detalhes dela que possivelmente poucos sabiam. E ainda um leve torpor invadia-nos, os dois muito polidos e sensatos.

Até que chega o momento da despedida: "Bom, tenho que ir, me desculpe, foi muito bom te rever, espero que fiques bem e te cuides". Agradeço de forma cortês, e me permito um ato de euforia sem o consumo de psicotrópicos. Agarro sua mão direita entre meus dedos, toco-o levemente e com meus dedos indicador e polegar acaricio suavemente sua palma, e digo, levantando meus olhos e sorrindo infantilmente: "Gosto tanto de ti...Sabes disso, não?"


terça-feira, novembro 06, 2007

Tapa com luva de pelica


Só fui me aperceber do acontecido mais ou menos uma hora após o fato consumado, como se estivesse numa espécie de anestesia que parou de fazer efeito neste prazo. Era como se a minha face ardesse em decorrência de um tapa bem dado e desferido juntamente com poucas palavras, que adentravam meu interior como um vento que destelhava casas e arrastava automóveis. Foi um belo final de tarde, com as nuvens em coloração que lembrava entre o rosa e o laranja, e abaixo a vegetação muito verde e alguns outdoors. No sentido contrário da estrada, muitos e muitos automóveis provocavam um pequeno congestionamento. E, ao meu redor, algumas pessoas que dividiam comigo aquele ônibus, cada qual com suas vidas para se preocupar e acontecimentos pitorescos de feriado para contar aos amigos e recordar com doces lembranças.

O ar condicionado gelava os pêlos do meu braço, e foi quando fechei a pequena abertura que fornece ar individual foi que tomei conta de que há alguns momentos havia experimentado mais uma vez a morte, como, aliás, já vivenciei em alguns momentos, alguns dos quais nem me dei conta, apesar do tempo decorrido. Nada de muito dramático nem que provoque estupefação nos presentes. Eu não desci ao solo nem foi necessário que chamassem uma junta médica para a minha pessoa. Em muitos momentos não consigo exprimir com palavras o que acontece, eu apenas sinto. O que sinto é maior do que aquilo que escrevo, como se houvesse algo velado que não pudesse ser revelado nem a eu ou simplesmente não consigo encaixar letras, que formam palavras, e consequentemente frases. Mas mesmo assim me proponho a tentar verbalizar a emoção, por mais que ela me faça de bobo e se esconda atrás do não-dito.

Mas sim, houve a morte de alguma forma na minha vida, a partir do momento em que me vi obrigado a modificar sentimentos por força das circunstâncias. Uma mudança imposta, onde não vi saída a não ser a transformação de algo em simplesmente nada, inexistência, negação, um grande baque. Uma imposição, não uma escolha. Eu me vi obrigado a modificar sem que me fosse perguntado se isso é bom ou ruim. Não pude escolher qual dos dois lados da moeda me era mais conveniente. Apenas escorreu sangue, suor e lágrimas. E estava morto. Ou mesmo amputado.

Mas é necessário sobreviver, mesmo na queda. A partir daquele momento percebi que precisava vivenciar aquela situação, pois sem ela continuaria sendo egoísta e não teria aberto os olhos a muitas coisas que ainda posso presenciar, esperando ser mais bem-sucedido nas próximas oportunidades. Não me cabe culpar nem a eu nem aos outros pelos fatos que acontecem sem a nossa permissão. Não somos consultados, apenas empurrados para o abismo ou mesmo o limbo. E ali permanecemos, vivendo nossa vida medíocre à espera de alguma novidade. De qualquer forma, sempre restam coisas boas, mesmo na dor. Naquele momento eu percebi que precisava morrer para poder continuar, por mais estranho que isso pareça. Me sinto oco, vazio, sem capacidade de reação, pois não me sobraram muitas convicções. Mas me sinto sujo, tentado a me esfregar com uma boa esponja tentando arrancar as nódoas que me fazem imundo. A sujeira que provoca ojeriza e repulsa. Essa imundície que foi o estopim da minha morte.

terça-feira, outubro 30, 2007

O pequeno bicudo


Gozado, esfriou de repente. Há horas atrás o sol estava tão forte que incomodava nossos olhos e nos fazia cerrar a vista, passarinho. Passarinho, você é a única coisa que me restou de tudo isso, de todos os sonhos, de todas as vezes em que pensei alto, de todas as vezes em que sorri, de todos os momentos em que chorei, de todas as noites que adentraram o meu ser e me permitiram ser mais lúcido e triste com as notícias que você me trazia, escritas naqueles papeizinhos que vinham em seu bico. Entoavas canções fúnebres e algumas de puro contentamento quando assim achavas lícito.

Olha, passarinho, está na hora de você voar, sabia? Vai procurar seus amigos bicudos, beber das águas puras dos rios que existem por aí, vai encontrares uma passarinha muito jeitosa e com ela terás lindos passarinhozinhos que entoarão seu canto de perpetuação, que alegrará os ouvidos de velhos e jovens, crianças e adolescentes, homens e mulheres, e mesmo entrar na alma de todos os seres viventes desse mundão de meu Deus.

Trazes boas novas a todos os homens, e mesmo a eu, que sou participante de todas as auroras e crepúsculos dessa praia. Veja bem, passarinho. Já te prendi tempo demais aqui na minha presença. Vês quantas pessoas estão sentadas nas suas cadeiras de praia, ou caminhando pela areia? Vai lá, passarinho.

Olha só, você está vendo aquele menino de cabelo preto, meio gordinho, com uma pá e um balde nas mãos? Ele está chorando, estou observando que ele fez um castelinho de areia muito bonito que a onda levou. Pousa no ombro dessa criança, ensina-o a construir os mais lindos castelos e esculturas, afaga os cabelos dele com seu bico, entoe para ele suas canções mais belas e puras, entra na vida dele e não o abandone mais. Fica com ele desde já. Olha só: esse menino está parando de chorar, está correndo ao encontro de sua mãe,e ele tem jeito de quem gosta muito de bichos. Eu acho que ele tem um labrados preto muito brincalhão que o recebe com muitas lambidas quando ele chega da escola, todo sujo e com fome. Tenho certeza de que ele fará uma gaiola muito bonita para você, e te dará de comer um alpiste bem gostoso, que te fará cantar, cantar e cantar com mais força e ímpeto.

Presta atenção: rodeia esse menino como quem não quer nada, eriça suas penas, faz uma pose bem bonita para ele gostar de você, passarinho. E entra naquele coraçãozinho puro e ingênuo de criança. Ajuda esse garoto com os deveres da escola, e quando ele estiver jogando videogame, você fica ao lado dele prestando atenção em todos os macetes do jogo, e o tempo vai passar, passarinho, vocês dois muito amigos e importantes na vida um do outro.

Esse garoto vai crescer, virar adolescente. Esteja ao lado dele no dia em que ele se apaixonar pela primeira vez, quando ele der seu primeiro beijo, quando tiver a sua primeira transa, quando ele passar no vestibular, quando ele aprender a dirigir, quando ele conseguir seu primeiro trabalho, quando ele estiver com sua primeira namorada, até que esse menino se transforme em homem e a vida por si só os levar para caminhos opostos, onde cada um já não caiba mais na vida um do outro.

Tente viver esses instantes, faça esse esforço, porque você já não é mais meu. Te deixo livre, voa muito alto agora, vá descobrir novas árvores, novas nuvens, novos alimentos, novas espécies de passarinhos que você nunca viu e provavelmente vai estranhar. Estou te pedindo para ficar ao lado daquele menino porque aquela criança sou eu, há alguns anos atrás. Uma criança que não sabia o que é viver, que se satisfazia em montar seu ferrorama na sala de casa e incomodar sua mãe pela bagunça. Uma criança que se fartava de balas na hora do recreio e escondia seu monte de chocolates na bolsa da mochila. O menino hoje já não existe dentro de eu, ele morreu quando descobriu que viver pode não ser a melhor forma de simplesmente existir. Esse homem em que me transformei só tem dentro de si uma coisa oca, dura e sem forma. Esse homem descobriu a vileza do amor que provoca repulsa e distância. Mas vai lá, passarinho, vai pousar em novas beiragens. Eu te deixo ir, mas não te permito voltar mais. Agora você está livre pelo mundo. Assim como eu era quando fui essa criança.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Somente um devaneio


Movia-se a passos lentos para não acordá-la. Mal conseguia acreditar que, após tanto tempo sem vê-la, estava ali, imóvel, encolhida, dormindo lindamente como uma imagem barroca que não conseguimos traduzir seu olhar, apenas admirá-la e levantar aos mãos para o alto pela beleza do que se vê. Sentia-se trêmulo e esgotado, tentava afagar seus cabelos, sobrancelhas, olhos, orelhas, bochechas, mas, ao encostar nela, se repreendia pois não queria despertá-la do seu sono. Apenas esfregava suas mãos levemente nas dela e sorria, como uma criança que ganhara o brinquedo tão anseado por um ano inteiro.
Então apenas contornava essas partes do corpo com as mãos, desejando a possuir mais uma vez naquele instante, ao mesmo tempo em que as lágrimas lhe escorriam pelos olhos, e se sentia o mais satisfeito dos homens pela singeleza do que via. Era madrugada alta, apenas um barulho de carros indo e vindo, a prazos não contabilizados, e um cachorro desesperado que latia e fazia um eco que lhe percorria a espinha e provocava calafrios. O barulho de grossas gotas de chuva fazia um grande barulho no telhado, e receava que isso viesse a interromper o descanso daquela mulher e quebrar, como uma espécie de cristal que se partiria em mil pedaços, o encanto daquele momento, que por seu desejo se tornaria eterno.
Ah, como era deliciosamente santa e profana sua presença naquele quarto pobremente mobiliado. Ainda conseguia ouvir seus risos estrondosos ecoando pelas dependências da casa, seus passos macios arranhando o azulejo, seus olhos atentos a cada detalhe e arrumando aquela bagunça típica de pessoas desorganizadas, suas roupas cuidadosamente dobradas e colocadas em cima de uma cadeira. Reinava o mais absoluto silêncio naquela casa, mas no íntimo daquele moço vozes, e vozes, e mais vozes lhe davam uma espécie de ímpeto misturada com alegria e tristeza. Alegria pois ela, naquele momento, pertencia a ele, e tristeza pois ela partiria e não se sabia se a veria novamente, impelida pelos compromissos cotidianos que o relegavam a segundo plano.
Pôs as mãos nos bolsos e saiu a vislumbrar a tempestade que caía lá fora. Em alguns instantes as gotas de água molhavam seu rosto, cabelos e corpo, e sentia-se como numa espécie de catarse, ainda não conseguindo acreditar no que havia vivido minutos atrás. Sem se aperceber, colocou seus braços em perpendicular em relação ao corpo, pronunciando palavras ininteligíveis a qualquer curioso, mas percebia-se que fazia uma espécie de oração,na qual balbuciou: "Amém! Amém!!!!"Não se sabia mais se toda aquela água no seu rosto era somente fruto da chuva ou da felicidade que o invadia. Chovia muito. Alguns minutos depois, amanheceu, e ele voltou para dentro de casa embalar o sono daquela que lhe povoava os sonhos mais íntimos.

terça-feira, outubro 23, 2007

Alicerces Rompidos


Tenho me sentido muito só ultimamente, apesar de ter convivido, mesmo que de forma forçosa, com algumas pessoas ao meu redor. Não que estar só seja uma novidade para eu, e nem que isso se constitua um drama. Mas, de qualquer forma, tem sido uma solidão diferente, tenho tido necessidade de contar aos outros o que me angustia e em certa medida me transforma no ser cotidiano que não entende a si mesmo e vê na palavra uma forma de salvação. Antes, em alguns momentos do dia, principalmente naqueles mais silenciosos, me deparava com uma espécie de finalização de algo que não conseguia entender o que seria, muito menos hoje. Mas alguma coisa me fazia sentir como se houvesse um limiar entre eu e o que estava ocorrendo mundo afora; no mundo exterior, havia pessoas chorando, amando, sofrendo, sorrindo, vivendo, cuidando dos seus afazeres, trabalhando, estudando; enfim, vivendo, e eu me sentia à margem de tudo isso, como se eu pertencesse a uma espécime diferente de seres humanos, onde certos tipos de sentimentos eram velados ou mesmo censurados. Como se houvesse uma grande mão que me impedia de viver intensamente certas situações que para os outros são usuais, mas para mim se transformavam em acontecimentos extraordinários. Se eu os vivesse adquiria certa experiência de vida que me transformaria profundamente.

Tenho vontade de dizer, não sei bem o que, o tema pode se soltar por si só no momento propício em que o meu desespero encontra um interlocutor que se solidariza com a minha angústia e apenas ouve o que digo, sem emitir opiniões. Apenas o uso como ferramenta do meu alívio por dividir esse fardo com ele. Mas esse ele não existe, e mesmo que exista tenho receio de falar certas coisas que me afastem dele, porque há pormenores que não podem nem devem ser ditos. Mas não consigo fazer uma distinção do que pode ser de domínio público e do que apenas pertence ao meu íntimo discreto. Só depois que o digo percebo que seria melhor que eu houvesse me abstraído de contar certas coisas.

Nada de extremamente grave, nada punível pelas leis dos homens. A minha vida não é assim tão recheada de acontecimentos extraordinários que possam embasbacar o ouvinte. Tenho uma existência rude e medíocre, que não interessa à grande maioria das pessoas. De qualquer forma gostaria de ser ouvido, compreendido e acariciado, tenho necessidade de que me deixam deitar a cabeça no seu colo e me ouvir divagar, imaginar, sentir, confabular. Nada que uma pessoa carente não sinta necessidade. Muitas vezes uso uma armadura me intitulando auto-suficiente e partidário da solidão, mas em certos momentos sei o quanto me custa esse discurso no qual eu mesmo me vejo desacreditando em algumas situações. Gostaria de que alguém me dissesse algo que me fizesse sair do marasmo, me fornecesse uma lanterna que me tirasse desse túnel em que entrei mas não consigo visualizar saída. As pessoas passam por mim e nem se apercebem que eu as olho pedindo ajuda, atenção, afeto. Não costumo ser tão piegas. Mas tem momentos em que saber que o tempo está passando e a solidão é a sua única companhia consegue desestabilizar o mais equilibrado dos seres. Não que a solidão seja tão ruim assim. Ela é muito benéfica em muitas situações. Mas em outras esse silêncio cortante e constrangedor é uma espécie de maldição devastadora que engole todos que estão pelo seu trajeto. Enfim, acho que já disse o que me afligia. Ah, não posso continuar me enganando. Há ainda muita coisa a ser dita que não consta aqui. Talvez porque nem eu mesmo sei o que efetivamente quero. Só tenho a certeza absoluta de que preciso de alguém que me ouça e me compreenda. Só assim tenho alguma esperança.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Vira o disco, cara!


Tenho ímpetos de esmurrar a parede ou me vejo dialogando com um ser imaginário que , ao ser questionado, me responde as palavras mais doces e ao mesmo tempo secas, cortantes, letras que juntas esfacelam meus sonhos e me colocam a par da realidade das coisas, tal e qual devem ser. Acho que enlouqueci, ou ao menos tenho galgado mais um degrau no limiar da minha sanidade mental. Já não se pode considerar que fosse o mais são dos seres, mas agora tenho conversado em voz alta comigo mesmo, imaginando que ao meu lado existe alguém que na realidade não se importa muito com o que faço ou como deixo de proceder. Tenho inclusive feito expressões faciais dignas de um colóquio realmente existente. Antes que você ligue para o serviço de saúde mental de seu município, saiba que ainda assim não estou de todo senil.

Sinto-me esbofeteado pela realidade das coisas, pelo que necessito ver com os olhos da razão mas não consigo ver pelo meu lado emotivo, que tenta mascarar a realidade e me dá tapinhas camaradas nas costas e diz que tudo entrará nos eixos em seu tempo pertinente. Quem me conhece sabe que não sou adepto de caminhadas na praia muito menos a frequento, mesmo morando em uma cidade litorânea. Mas confesso que de vez em quando me acalma sentar em um dos bancos da orla e observar as pessoas, os carros, os grandes edifícios e principalmente o mar, com os navios ao fundo que ficam lá à deriva esperando seu momento de aportar no cais da cidade.

Pois bem, na semana passada estava eu a passear pela praia no final da tarde, precisamente às 17:45, e vislumbrei uma bela cena mesmo para os desavisados que não conseguem enxergar coisa alguma que não os próprios interesses. O tempo estava ensolarado naquele dia, com algumas nuvens, e o sol estava se pondo lentamente entre essas mesmas nuvens, mas ao mesmo tempo o dia ainda estava perfeitamente claro e quase límpido, e, como uma espécie de papel de parede, os prédios e a Ilha Porchat. Simplesmente maravilhosa essa cena. Lembrei-me que disseste um dia que gostaria de vir até aqui andar pelos jardins da praia e senti que possivelmente terias gostado de ver a aurora do dia, que gostavas de divagar olhando para o mar. Senti saudades daquilo que nem mesmo vivi. Estou me tornando patético, podem confabular à vontade entre si durante o café da tarde, eu não me importo, sou um bom idiota que coloca aqui essas coisas piegas e desprovidas de racionalismo.

Não tenho mais chorado, aliás até me sinto oco, como se estivesse numa espécie de letargia provocada pelo consumo excessivo de calmantes. As pessoas falam comigo e eu faço uma expressão de: "Desculpe, não consigo contatenar pensamentos, dirija-se ao próximo guichê". Tenho sido inconveniente e falado somente no mesmo assunto com as pessoas e, na falta delas, tenho repetido frases desconcertantes a mim mesmo sentado no sofá. Tenho procurado um só rosto e suas características nas pessoas com as quais cruzo vida afora. Tenho tentado me ocupar com atividades que me façam tentar desviar o pensamento, mas a mágica se reformula nos momentos impróprios, e confesso que tenho passado a mão pelo colchão durante a noite e sentido falta de alguém que a essa hora está no limiar de sua vigília. Essas horas eu penso: "Puta merda, o que está acontecendo comigo?". Eu viro para o outro lado e tento dormir. E no dia seguinte tudo recomeça.

segunda-feira, outubro 08, 2007

O Putrefato


Essa história de amor-próprio é uma grande conversa para boi dormir. Ah, as pessoas dizem que para amar devemos nos amar primeiro para depois amar os outros. Eu me odeio e te amo. Paradoxal isso, não? Pois é assim que as coisas andam funcionando comigo ultimamente. Eu sei que não te mereço,aliás, digo isso sem parecer pedante nem que me achem como esses cantores comerciais que tocam essas músicas que fazem sucesso durante uma temporada e depois somem da mídia. Você tem qualidades que qualquer homem gostaria de ter e me são inalcançáveis, devido à minha mediocridade e rudeza perto de você. Me responda: se nem posso despertar em você amor, como mereço que sinta algo por mim divergente ao desprezo que me tens em conta? Foi somente sexo, o desejo da carne que nos uniu por aqueles instantes, tudo o mais se resume a invenções fantasiosas de uma criatividade auto-destrutiva. É, teves tanto carinho para comigo naquele instante que me achei a mais contente das criaturas.

Olho para as minhas mãos e lembro que havias dito que gostara delas, embora não tenha dado motivos para tal comentário. Vejo a garrafa de café na mesa da cozinha e me recordo que adoras café,e quando em frente a alguma livraria me vem à mente aquela estante repleta de livros que tens na sua casa, denotando assim o quão tem cultura, e eu,apenas um pseudo-intelectual que adora frases feitas, mas que na sua presença não conseguia balbuciar mais do que meia dúzia de palavras por me achar um perfeito canastrão. Tenho a esperança de que irei te encontrar na próxima esquina que cruzar, a despeito da imensa distância física que nos separa, para sua sorte.

No entanto, também olho para meu "nariz saliente" (palavras suas) e para meus cabelos brancos que crescem incessantemente, sem ao menos pedir licença ao dono da cabeça, e só consigo me recordar que me dizias isso sem a intenção de ofender, apenas comentando e sorrindo. Ah, como esses sorrisos não me saem da memória. Como vives dentro de mim, mesmo que tentes te assassinar a golpes de foice!

E pensar que foi graças a esse blog que você me mandou um recado pelo Orkut, dizendo que gostaria de conversar comigo pelo MSN, há um ano e meio atrás, mais ou menos. Desculpe-me, naquele momento não havias chamado tanto a minha antenção para que me fizesse guardar essa data que hoje me é tão cara. Ali um grito contido havia ameaçado se propagar como a velocidade da luz.

No último sábado fez um mês que lhe conheci. Passaste por mim uma vez, com seu fone de ouvido,e não ouviste quando gritei seu nome. Na segunda vez, os olhares se cruzaram, e algum sentimento inexplicável florescia naquele instante. Sei que não compartilhas desse meu pensamento, mas deixe que o diga a você, mesmo que aches tudo isso algo jocoso e indigno de comentários da sua parte. Estou sendo egoísta e não penso no seu constrangimento, se porventura seu olhos caírem sobre esse texto algum dia. Mas tenha certeza que tenho me anulado grandemente em seu favor. Provavelmente nunca mais te verei. Isso me dói muito, porque a saudade que tenho de você é inversamente proporcional ao meu tão propalado amor-próprio. Sei que nem lembras mais que eu existo,que meu nome e rosto serão apagados de sua memória em breve,se é que já não foram. Mas, como dito acima, eu realmente não mereceria sentimento contrário de sua parte, és grande demais para minha pequenez.

Que coisa ridícula estou escrevendo! Você deve estar achando tudo isso o texto mais escroto já publicado desde a criação da Internet,nos idos dos anos 60. Mas eu sou escroto mesmo.E esse escroto te ama. O que se há de fazer a não ser você fingir que não me conheceu e eu a olhar para a parede e me sentir o mais pulha dos homens?

Ah, imaginem a cena. Há alguns dias, passei em uma rua em que tinham dois rapazes fazendo malabares, aliás, moços bem talentosos,e me lembro que parei alguns segundos para ficar observando seu intento em arrecadar algumas moedas dos motoristas. Dei um sorriso meia-boca e continuei meu caminho. Enfim, o que isso tem a ver com a história mal-sucedida que acaba de ser narrada? Nada, seus bestas.Foi só para encher lingüiça.

quarta-feira, outubro 03, 2007

O moço calado




Tinha olhos, boca, nariz, ouvidos e um quê no olhar que a muitos poderia não significar nada, apenas mais um transeunte na multidão, mas que interiormente tinha significados diversos que nem seu dono poderia expressar. E se comunicava com o mundo através dele. Pelos seus olhos vivos tudo via e ouvia, podria até mesmo perceber cheiros com exatidão do que com o próprio olfato. Pouco falava, mesmo entabulando um diálogo suas respsotas e indagações nada mais eram do que frases formuladas de poucas palavras, o que soaria retardo mental por parte dos desvisados e insensíveis. Mas sentia muito mais do que falava. As palavras que balbuciava eram atos desesperados de tentar se expresar com os homens e suas coisas.


Sentia dores internas que nenhum urologista, clínico geral ou cardiopata poderia diagnoisticar. Era uma dor na alma por se achar tão a vácuo nesse mundo, e sentia isso quando não sabia onde enfiar as mãos ou quando estava andando a esmo pelas ruas e lhe pediam alguma informação que não sabia fornecer, e mesmo quando as sabia tal dor não cessava. Quando isso acontecia fitava seu interlocutor com olhos pidões, como que tentando se desculpar pela sua ignorância.


Ficava horas e horas a fio olhando para a parede e nesses momentos se imaginava nas mais divertidas situações, como quando, por exemplo, se via andando de peito estufado pelas grandes avenidas e recebia comentários elogiosos das moçoilas desacompanhadas; e quando isso se passava em sua mente fértil davas risinhos contidos e piscava os olhos como nos seus tempos de garoto levado que brincava de esconde-esconde na rua, mas que na verdade não sabia que haveria de se perder um dia. Não sabia se porventura seria encontrado.


Às vezes sorria sem motivo aparente, lhe vinham à mente lampejos de alegria por motivo não conhecido pelas pessoas que o avistavam naquele momento, e obviamente nem pelo chorão. Mas surgia um sorriso no canto dos lábios, acompanhado de uma lágrima órfã que teimava em cair de seu olho direito, que, assim como vinha, evaporava pelo ar. Nesses instantes olhava um ponto qualquer e sonhava que haveria de ser um homem grande, rico e feliz por realizar seus desejos ainda contidos pela falta de oportunidades em concretizá-la.


Esse homem ia e vinha calmamente, e nada tinha de especial, porque fisicamente era como os demais, pois tinha estatura média, olhos e cabelos escuros, corpo proporcional, ou seja, não diferia do padrão estético vigente. Não amava ninguém e também não era amado, aliás, poucos se lembravam de sua existência, pois era pessoa não dada a momentos de afeição e também porque provavelmente não havia nele nada que o pudesse ligar a quaisquer pessoas.


Com os vizinhos não passava do formal "Bom dia, como vai?", com seus colegas de trabalho também só dialogava o essencial para o andamento de suas funções, com seus poucos amigos também ouvia mais do que dizia e na sua família era visto como estranho, pois, nas confraternizações, ficava sentado no seu canto predileto e de nada participava, entretanto a tudo assistia como a uma criança que se vê na vitrine observando as últimas novidades de uma marca de brinquedos. Suas tias diziam que não batia muito bem da cachola, e quando lhe dirigiam a palavra corava suas faces de forma escancarada, sendo que suas respostas saíam em meio a gasguejos entremados de sílabas.


Esse homem provavelmente está nesse momento em qualquer de nossas cidades, e mesmo nas zonas rurais. Ele não tem nome, estado civil, pais conhecidos muito menos do que se vangloriar. Esse homem é tímido demais para se rotular com qualquer alcunha. Provavelmente a maioria das mulheres que o virem o desdenharão, pois nada tem de atrativos físicos, sendo até sedentários demais. Ele diz que tem vergonha de frequentar ambientes onde o culto ao corpo é tão escancarado.


Certo dia um conhecido seu que não via há muitos anos o encontro pelo mais puro acaso e ficaram conversando durante alguns minutos, em cada qual fez um breve resumo de suas vidas durante aquele tempo de ausência mútua. Mas na hora em que esse homem foi indagado sobre os grandes aconrtecimentos de sua existência, engasgou, deu aquela famosa corada e nada conseguia dizer. Por que isso? Oras, porque na vida desse homem nunca acontecia nada de extraordinariamente novo. O aspecto mais emocionante de sua vida é ir sozinho ao cinema, muito de vez erm quando, munido com seu saco de pipoca doce, imaginar que viverá algum dia aquelas histórias bem melosas de amor.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Psicologia de um apaixonado


A você, reconhecível na multidão e com nome completo, CPF e RG; a você, que me conquistou com o seu olhar, seu cheiro, sua pele, seu toque, sua boca, seus braços, pernas, costas e sexo. E mais uma vez a você, que tem um rosto tão lindo e não se deu conta disso, com um sorriso por vezes sarcástico, seus olhos pequenos e essa boca tão bem desenhada. É com você mesmo que estou falando, não adianta aumentar o volume da música do MP3 e ficar olhando para os lados. Você sente e sabe que falo de você.

Aliás, sou eu quem não consigo olhar nos seus olhos sem medo que encontrarei neles,desviando o olhar com receio de me entregar e sofrer ainda mais, pelo que sinto. Eu tive tanto de me controlar, o meu desejo era de te abraçar e te beijar, tentar perpetuar ainda mais a sua presença em mim, por mais que os períodos de ausência sejam demasiado longos. Sei que essa situação lhe é desconfortável, mas por favor tente não dizer nada agora, só me ouça. A você, que revelou um eu não existente, mas ausente. Alguém que eu não supunha existir e se revelou em hora totalmente inesperada.

A você, que por alguns momentos foge da minha memória e quando retorna traz em si lembranças imensamente mais fortes do que as deixadas anteriormente. A você, que me trouxe um quê de vida e a esperança de que ainda podemos acreditar nos homens. Ah, é você sim, que chegou na surdina, saiu sem tentar deixar rastros mas deixou a casa silenciosa, vazia, monótona e com as suas marcas pelos cômodos, como se fossem pinturas abstratas que somente seu autor pode explicar.

Palavras me faltam para lhe descrever, só sinto sua presença não sólida me rodeando e reclamando dos meus cigarros. Aliás, cigarros que acendo um atrás do outro por não saber como me portar perante você, e também para não acariciar seu rosto e me sentir culpado por estragar a nossa amizade, que percebi ser muito maior do que o amor que tenho por você. Pois é, eu te amo. E você não me ama. A noite ainda será longa, esse silêncio me perturba e conforta ao mesmo tempo. Preciso ficar sozinho, mas ao mesmo tempo estou ansioso pelo dia em que lhe verei novamente, mesmo que não faça idéia de quando será isso. Vou acender mais um cigarro e tentar dormir, é só o que me resta nesse instante.

Você deve estar achando tudo isso uma tragicomédia e pensar que eu daria um bom autor de livros românticos para mocinhas ingênuas. Mas atire a primeira pedra quem quando ama não dá a cara para bater?