quarta-feira, agosto 06, 2008

Jogo de palavras


Percebi que carrego dentro de mim força de tal devastação que se traveste de angústia e desamparo. Força que cambaleante se move, apesar dos pesares e do mistério de existir, me movendo em prol de uma vida menos cretina e mais frutífera. Sendo assim, sou lançado ao desafio diário e, mesmo perdendo quase diariamente e experimentando várias mortes, força-me a persistir, como se imbuísse da força de um tal tesouro que só eu poderei encontrar.

E com tal fome me alimento que tenho as mãos sujas por substância ainda desconhecida. Acredito que tal substância é a mistura do eu em contato com o outro que, sem se dar conta, forneceu-me a curiosidade e até mesmo a profanação e ousadia para penetração em território não permitido. E tenho a palavra, ou melhor dizendo, ela me tem, de tal forma estamos intrínsecos que já não sei mais onde o domínio de um perspassa o outro.

Apesar das quedas, traumas e do limo do poço, é nela que enfio as unhas em busca de salvação. Foi a única coisa que me restou e também o verdadeiro benefício por todas as coisas sentidas e vividas. É a palavra que vejo, sinto, toco e cheiro em todas as pequenas coisas, do amor que veio me nortear na hora mais inesperada e também na chva que observo cair durante a madrugada.

Peço que, se algo mais me for tomado, me deixem ao menos com ela. Pois com dor me desfaço de todo o resto, mas pela palavra que me salva do abismo me transformaria no homem forte que nunca fui. Sou egoísta, engulo-as todas e não as reparto nem com o mais faminto dos seres. Minha fome só se estanca quando eu enfio o dedo na garganta e vomito todo o frêmito do meu interior, para depois mastigá-la ainda mais voraz e servil.

Se necessário fosse trancar-lhes-ia no baú e só as deixaria sair com a expressão condição do trato que nos foi estabelecido de forma assertiva: se tu me deixares ainda periclitar pelo mundo dos homens, te alimento com minhas próprias entranhas.

Confesso que entrei em prejuízo nesse trato, mas sigo a ordem estabelecida. Apresento as minhas sobras em troca da sua soberania, beleza e mesmo vileza. Me perdoem os que não entendem o que expresso através desse texto, ou outros mesmo podem dizer que essa é uma relação de subserviência facilmente decifrável e explicada pela psicanálise, mas não existem mais aqui separados o homem e as letras; o que se observa é puro masoquismo: eu entrego o corpo à minha amante e dela recebo doses homeopáticas de existência. O corpo em troca de nesgas de vida. Ainda assim tem valido a pena.


sábado, julho 26, 2008

Produto descartável


Lembro-me que, há alguns anos atrás, principalmente durante a madrugada, a música que tocava no nosso inconsciente se retirava de cena e me vinha uma certeza à tona: nada do que estava sendo vivido me deixaria saudades. Mais precisamente, havia a falta de algo que se pudesse recordar. Mas o tempo passou e no meu interior essas sensações se arquivaram por si só. Permaneceram intactas, como se nunca houvessem existido, até uma fatídica noite em que me deparei com as tais verdades que me sacudiram novamente, mesmo que de forma suave.

Costumo andar por aí observando os rostos e suas expressões, me perguntando se algum deles, em algum momento se sentira deslocado e tão fora de propósito como eu. Confesso que sinto uma espécie de prazer masoquista na constatação da "nobreza" da minha alma, mesmo sabendo o quão sou reles e presunçoso por me oferecer tal alcunha.

Caiu-me nas mãos a constatação cretina e absurdamente real: como poderiam essas pessoas com quem divido a calçada se sentirem como eu? Essas pessoas efetivamente existem, não importando se por vias tortas, mas elas vivem e como vivem! Da maneira delas, isso não importa. Mas, se pudesse eu pegar um gravador e propor a qualquer uma delas que me contasse suas histórias de vida, tenho absoluta certeza que experimentaria ao menos imaginar situações que nem ao menos soubesse que existiam. Pessoas que amam, foram amadas, fazem amizades, inimizades, família, aparentados, situações vexatórias, momentos de glória, viagens, lágrimas, dores, trabalho, dinheiro, compromissos, afeto, crianças, velhos, objetos e animais de estimação, e tantas outras coisas que não consigo enumerar.

Mas o mais inquietante seria: a teia de relações humanas estabelecidas há tempos imemoriais, que faz com que uns se recordem e façam parte da vida dos outros. Simples assim. Cada qual com seus momentos de delicadeza, mas também outros de perturbação.

Sendo assim, fui obrigado a me retirar de tais estatísticas. Sempre estive à margem da vida e de seus desdobramentos, e mesmo quando estive inserido no tal contexto minha participação foi mínima, praticamente nula. Nem fui percebido por quem ali estava naquele instante, e mesmo quando um ou outro deu com as vistas por cima de mim, continuou sua rota como se eu fosse um objeto de decoração, que nada altera na esfera do ambiente. Algo que não desperta paixão nem ódio. Não desperta ao menos indiferença. Não desperta nada, somente ocupa espaço e não possui serventia alguma.

Mas seria imbecil culpabilizar quem quer que seja. Por esse fato, talvez nem a eu mesmo. Sou apagado demais e desprovido de quaisquer atrativos que façam com que as pessoas me olhem com inveja, desdém ou admiração. Passo inclusive pela arena, assumindo em voz baixa que adoraria fazer parte dessa miscelânea de sabores e sensações.

E o que faço eu com tal descoberta? Coloco-a no bolso e continuo, aparentemente, como antes. Mas ainda mais fragmentado.


sábado, julho 19, 2008

Um pedido...


Está um dia ensolarado, bonito, as pessoas vêm e vão sem se importar com essa claridade excessiva, preocupadas com seus afazeres e o cotidiano que nos enleia sem que nos demos conta disso. Me dá um beijo, me dá um abraço, me dá tua mão, me dá teu corpo, me dá teu coração. Me dá um cigarro. Me dá uma bebida, só ébrio digo-te as coisas límpidas que sóbrio gaguejo, mas não confesso por pudor. Me tira desse torpor. Me tira desse poço escuro e úmido. Leva-me embora desse lugar que me faz tão mal. Me ensina aquilo que nunca aprendi, a viver e amar sem me questionar sobre o porvir.
Este seco na minha garganta anda-me a corroer as entranhas. Perdoe-me por tantas queixas descabidas, por me maltratar tanto e não te dar o valor devido. Dá-me uma existência comum, banal até. Por ti jogaria velhas teorias na vala e reaprenderia todos os conceitos novos que até então andam arraigados na minha carne ainda putrefata. Nunca suspeitei que chegarias em uma tarde nublada e achasses tudo em tal desordem, o interior feito de caos. Não tive tempo de preparar-me à sua chegada, vieste tão de repente. Pisaste no lixo, sentiste o mofo da casa fechada há anos, as lâmpadas que não eram usadas há tempos incontáveis, minha aparência crua e abjeta, as roupas em desalinho, a barba crescida, as olheiras profundas e aquele olhar que te percebia incandescente.
Te recebi mudo, sem ao menos balbuciar o que quer que fosse. Vieste em boa hora, mesmo que a minha fome e sede te chamassem inconscientes há muitas semanas e meses. Mesmo o jardim anda descuidado, nem sentirá mais o perfume das flores que invadia os quartos ao abrir as janelas, logo pela manhã. Encontro-me faminto no corpo e no espírito. Perdia a cada dia os restos humanos que me equivaliam àqueles do lado de fora. Mas ainda há tempo de colocar tudo a seu contento, tenha um pouco mais de paciência. Não desista de mim ainda tão cedo. Eu não posso mais continuar aquilo que fui e ainda o sou.
Sei que me acomodei, mas quando me apercebi já era tarde. Tarde demais. Já é tarde, bem o sei, mas o que resta ainda pode ser transformado, reconstruído. A mudança será lenta, gradual, mas ela será feita, mesmo que a solidão, o escuro, o desespero e a angústia tentem me demover disso. Joga-me uma corda, deixe-me sair desse poço. É da tua mão que necessito hoje e do teu sorriso. Que seja doce, que seja doce, que seja doce por um tempo incontável, a cada anoitecer cada vez mais doce...

terça-feira, junho 17, 2008

Dia atípico


Naquele tempo as casas não possuíam garagem nem altos muros, mas tinham em profusão um grande jardim com muitas flores e plantas, que poderia ser visualizado entre as grades pelos passantes. Essas eram as casas da minha infância, quando brincava de bola de gude e pião despreocupadamente pelas ruas sem me preocupar com o vai-e-vem incessante dos carros nos dias atuais. Mas percebi que não mudou muita coisa nessas ruas. Como se o tempo tivesse congelado e apenas alguns aspectos houvessem adquirido nova roupagem.

Bati palmas em frente àquela residência e veio a mim uma senhora simpática, possivelmente ocupada com algum afazer doméstico, pois enxugava suas mãos em seu avental. Disse a ela que havia passado a infância e adolescência naquele lugar e gostaria de revê-lo, mesmo que por alguns intantes. Sem esperar uma proposta parecida naquele momento, ela hesitou por instantes, mas foi gentil e me deixou adentrar a casa, que, obviamente, aparentemente não havia mudado tanto assim no decorrer dos anos, somente os móveis que haviam sido modernizados, em contraste com a mobília antiga que me fez relembrar os bons anos que havia passado entre aquelas paredes cheias de histórias contra e a meu favor.


Posso afirmar categoricamente: "Sim, eu fui feliz nesse lugar, aonde nasci, cresci e passei por imensas transformações no corpo e na mente, e, principalmente, foi onde vivi inúmeras situações que repercutiram pelos meses e anos que vieram depois da minha saída dessa casa". Tateava as paredes à busca de lembranças e procurava recordar a disposição dos antigos móveis com a impressão de que aquele foi uma época sem volta, que meu retorno até ali só me serviria como forma de expiação dos meus erros passados.


Muita coisa me veio à mente naqueles instantes fatais, mesmo até o que fazia questão de apagar da memória, mas que surgia como que me esfregando nas faces quem sou, e principalmente o que fui outrora. Apenas tortura psicológica que praticava comigo mesmo, pois confesso que tenho grande prazer em me autoflagelar. Adoro isso nos momentos próprios, quando enfio a cabeça no travesseiro e revivo situações que me foram vergonhosas, mas que hoje não provocam mais do que risos contidos.


E assim fui percorrendo a cozinha, o quintal, a sala de estar, a sala de jantar, os quartos, o banheiro, a dependência de empregada, e claramente surgiam-se flashes das mais variadas situações, algumas extremamente enfadonhas, outras tão risíveis que, contando à senhora moradora da casa, era apenas uma alegoria enfadonha de um menino que subia nas árvores do quintal a catar alguma manga madura e que se estatelava ao chão ao se desequilibrar do galho.


Eis que o citytour chega ao fim, enervo-me do meu passado e procuro desesperadamente uma volta aos dias atuais, por mais maçantes que sejam. Despeço-me da senhora, respiro longamente e, quando fecho o portão que dá para a calçada, tenho a impressão de que deixo para trás um pedaço de mim que explicaria a meu analista o porquê de tantos anos sem alta.







segunda-feira, junho 09, 2008

Mamãe, eu quero ir para Hollywood!


Deste muito jovem Sweet Girl planejava altos vôos e sonhava com o estrelato. Frequentemente era flagrada com os vestidos maternos ajustados à seu então pequeno corpo e com enchimentos de algodão nos sapatos, dançando freneticamente os ritmos da moda. Quando era surpreendida em momento de estrelato solitário, colocava as mãos na cintura e repetia, galhofeiramente e sem medo de estupefacear os presentes:

-Ai, mami, sou ou não sou a mais mais do pedaço? Um dia serei muito famosa, mas muito mesmo.

E os meses e anos passavam, Sweet Girl sempre com a idéia fixa de que o estrelato estaria do outro lado da serra, apenas aguardando sua chegada a novas paisagens. Até que chega a era do rádio, e eis que a moça se torna macaca de auditório, entoando em alto e bom som: "Eu que deveria estar aí, suas barangas raquíticas, eu que quase fui Miss Suéter no Baile Municipal de Pasárgadaaaaaaaaaa!!!!!!". Invariavelmente era convidada gentilmente a se retirar pelos seguranças do local, não sem protestar muito durante sua saída e transformando o acontecimento em notícia dos jornais locais. Quando não podia se deslocar até as estações de rádio, punha-se em frente ao aparelho radiofônico e, enquanto ouvia cânticos de Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Francisco Alves e toda essa turma, colocava as mãos no coração e suspirava longamente, ansiando pelo dia em que estaria entre seus colegas de profissão. Vale ressaltar que Sweet Girl só arriscava-se a cantar no banheiro, enquanto sonhava que estava em uma banheira de espumas com sais, tendo a seu lado um mordomo a lhe servir prosecco e caviar iraniano.

Eis que Brasília é inaugurada, então a moça consegue uma maneira de se infiltrar entre os membros da comitiva presidencial e suas poses lânguidas são publicadas no extinto "O Cruzeiro", com o título "A Louca dos Candangos". Já nesse período tem como grande ídala Marylin Monroe. Quando saía às ruas, se embonecava toda, sapecando uma pintinha no canto da boca, colocava um bom batom grená nos lábios, vestia seu melhor espartilho tendo um vestido branco muito rodado como ornamento principal, um salto e ficava na frente da loja de eletrodomésticos, de preferência na parte de ventiladores, esperando que suas saias fossem arribadas pelo vento e ela fosse convidada para uma refilmagem de "O Pecado Mora ao Lado".

Isso sem esquecer de comentar que também idolatrava atrizes do porte de Audrey Hepburn, Claudia Cardinale, Sophia Loren, Gina Lollobrigida e algumas mais cujo nome me foge à mente, e cismava que ainda seria a musa inspiradora de Truffaut. Se bem que ela teria adorado de igual forma ser a musa de Ipanema, mesmo se em vez disso fosse a Representante Internacional das praias de Guarapari. Foi uma das pioneiras em usar o famoso duas-peças, em um tempo em que isso ainda era considerado artigo indecente para ser usado pelas moças de boa família.

Eis que vem a nós a Jovem Guarda com seu alucinante iéiéié. Sweet Girl não perde tempo e se torna cover da nossa Ternurinha, a Vanderléia. Com suas botas de cano longo e sua minissaia mostrando várias polegadas acima dos seus joelhos, a moça é fartamente convidada para festas de debutantes e despedidas de solteiros, complementando assim sua renda e ajudando nas despesas familiares. Mas Sweet Girl não desistia da fama e, temendo ser reconhecida nas ruas, costuma usar uma faixa nos cabelos, grandes óculos escuros, em voga naquela época, um bom sobretudo a despeito do clima desértico de Pasárgada e sapatos de bico quadrado. Uma perfeita dama dos anos 60.

Naquele tempo eclode o maio de 68 em Paris e consequentemente manifestações estudantis país afora, sendo que Sweet Girl não perde tempo e entra no clima de contracultura. Não que ela fosse reivindicadora muito menos estudante, mas sabia que isso lhe daria visibilidade e sua foto provavelmente seria estampada nos jornais, nem que fosse na seção policial.

Eis que mais um período da sua vida tem fim, e chegam os anos 80, o new age e over, e a moça não se roga a usar largas ombreiras e calças jeans de cós altíssimo. Estava abafando, e sabia que era admirada e mesmo seria um ícone de comportamento do momento, mas o tempo passa e Sweet Girl adquire outras prioridades na vida. Mas nunca se esquece de que um dia foi a mais mais do pedaço.

Estamos nos anos 2000, e, figurino by Barred´s e sapatos Stilletto, ela é toda picardia dirigindo loucamente pelas ruas de Pasárgada e retocando a maquiagem a cada parada no semáforo. Mas ela ainda não desistiu de ser famosa, e ela sabe que é grande. Mesmo que no seu inconsciente. Sweet Girl só quer um lugar ao sol, e isso todos nós queremos, mesmo que não percebamos nunca esse fato.


sexta-feira, maio 30, 2008

Não dou, não vendo, não empresto e nem arrendo!


Era uma moça sentada no banco da praça com o seu chocolate. Sorria magistralmente com as pernas hermeticamente juntas. Só não batia palmas de satisfação pelo fato de uma de suas mãos estar ocupada com o doce. Mas não se sabia mais aonde acabava o chocolate e começava a mulher propriamente dita, tão envoltos estavam ambos no mistério de existir, de ser. Enfim, ali estava o mistério da coisa. Os dois eram vida dependentes entre si para continuar subsistindo. Mas eis que à sua frente passam uma outra mulher, aparentemente mais velha, tendo em uma de suas mãos uma criança que supõe-se ser seu filho. O menino, meigamente, roça sua mãozinha na blusa de musseline de sua mãe, e propõe, inicialmente em voz baixa:

- Mãe, eu quero.

- O que você quer, meu filho?

- Eu quero o chocolate daquela moça ali, está vendo?

- Ah, meu filho, vamos embora, eu compro um doce para você perto de casa.

- Mas, mãe, eu quero aquele chocolate!

- Meu filho, aquele chocolate é da moça, pare de me perturbar e vamos andando.

- Ah, mas eu anseio ardentemente por aquele chocolate, outro não serve. Vamos logo, mamãe. - E empurrava sua paciente e amorosa mãe em direção ao seu nirvana terrestre.

- Oi, Boa Tarde!

A moça com olhar taciturno viu-se quebrada de seu mais recente encanto e responde mais por automatismo do que por educação:

- Boa tarde.

- Moça, esse é o meu filho. Sabe, passamos perto de você e ele encasquetou que quer um pedaço do seu doce. Eu disse a ele que compraria outro igual ao seu,mas essa peste é teimosa como o cão. Hoje o pau vai comer lá em casa. Ah, se vai!

-Eu não posso... - a moça ficou de tal forma absorta na proposta que mal conseguiu balbuciar tais palavras.

-Tá vendo, Helinho? Vamos embora, deixa a moça em paz. - dizia enquanto a criança olhava com olhar pedinchão o tal chocolate.

-Moça, me dá um pedaço, vai? Bem pequenininho, só uma lasquinha, vai, me dááaáááá.

A criança fez um muxoxo.

- Por favor, dê um pedaço só, criança não entende muito bem as coisas ainda. Mas hoje a cinta vai cantar, ah se vai, vai sim!

- Mas eu não posso mesmo....

- E por que não?

- Sabe, eu economizei muito para poder comprar esse chocolate. Está vendo como estou magrinha? Fiz um jejum de nordestino para poder comprar essa joça. Quando passo na rua a molecada fica assobiando: Olha a A-NO-RÉ-XIIIII-CAAAAAAA. Eu quero morrer com isso, mas assim é, fazer o que?

- E o que esse chocolate tem de tão especial assim?

- A senhora está vendo esse desenhinho amarelo no canto esquerdo superior da embalagem? Pois é, o cacau que contém aqui foi pisado pelos três dedos do pé esquerdo de uma senhora de 41 anos e cinco meses moradora do litoral da Costa do Marfim. E esse fator alterna enormemente a textura e o sabor desse chocolate. Encomendei-o a uma fábrica belga, que me fichou na Interpol e me investigou durante seis meses para saber se eu realmente sou uma compradora em potencial desse doce. E ainda assim tive meu passaporte confiscado e não poderei sair do Brasil durante três anos, pois temem que eu contrabandeie pedaços do chocolate para os espiões poloneses.

E o garoto berrava, berrava e berrava mais alto. Enquanto isso, juntava gente por perto acompanhando o desenrolar dos fatos. A mãe clamava aos céus para que aquele pesadelo acabasse e a moça só fazia cara de poucos amigos e explicava que isso não seria possível, que assim não podia. A turma do deixa-disso já havia até se dividido em dois partidos: as pessoas que gostariam de ver o circo pegar fogo, enquanto alguns outros clamavam pelas liberdades individuais e ameaçavam chamar os Direitos Humanos por estarem constrangendo a moça.

E o tempo passava lento e arrastado.

Resumo da história: a mãe e a jovem se atracaram, cada um defendendo seus interesses, e agora ambas estão na delegacia do bairro fazendo exame de corpo de delito e o garoto foi mandado para um orfanato, onde foi colocada na sua frente um prato de plástico imenso com muitos chocolates em suas formas variadas, sendo obrigado a degustá-las sobre o olhar cândido de freiras dominicanas.



sábado, maio 24, 2008

Aquele que coça a cabeça


Acho tão estranho quando alguém demonstra afeição por mim, por mais que no meu interior o que mais almeje é ser aceito pelas pessoas assim como sou, com meus medos e frustrações. Mas não me agrada quando tentam me convencer que a minha forma de ver a vida e seus enleios não é a forma mais correta de viver. Afinal de contas, como que se faz para viver? Se alguém souber essa resposta, por favor me forneça essas informações pois ando em busca do Teorema de Pitágoras há muito anos, sem respostas conclusivas, apenas reticências...

Essas coisas que aqui escrevo parecem por demais abstratas para a grande maioria das pessoas que, a este momento, a poucos quilômetros de onde estou, aproveitam esse dia de sol nas praias e na convivência social. Mas é a minha realidade mais íntima e discreta, que mesmo assim sendo, urde por se fazer aparecer e muitas vezes está estampada na minha cara. Cara de quem não sabe o que fazer, como e o que dizer nas horas mais apropriadas e, principalmente, cara e corpo de quem não sabe o que fazer com esses acessórios recebidos em uma caixa de presente com laço de fita muito jeitoso e chamativo.

E o pior de tudo é que tento não demonstrar o quão no fundo sou carente e só, mesmo usando do velho discurso de que adoro a solidão. Não estou utilizando da autocomiseração, e se assim pensares não poderei te demover dessa idéia, apenas contra-argumentar com palavras que no final das contas acabarão não convencendo nenhum de nós dois. Não sei o que fazer da liberdade que me foi concedida, que rumo tomar ou simplesmente continuar pelas curvas que a vida foi me levando inconscientemente da minha vontade.

Possuo uma espada de dois gumes nas mãos: tenho o livre-arbítrio e não sei o que fazer dele. Esse sol que invade a janela na qual estou próximo só me faz ter mais certeza de que todas as coisas hão de passar, não importando o que virá depois delas, muito menos se haverá uma continuação. Sim, mas sempre há um porvir, e depois outro, e mais outro. O ciclo é infindável e a verdade é que muitas coisas escapam ao nosso controle.

Enquanto isso, bocejo e divago a cabeça nas horas vagas e procuro não repetir esses mesmos atos quando tenho algo a fazer que me tire dessa letargia e me faça sentir um pouco mais produtivo do que ando me sentindo. Mas é instintivo: lá venho eu com o meu provável poder sobre mim e o mundo e o fato se espatifa ao meu redor sem que eu nada possa fazer para alterá-lo ou melhor, evitá-lo. Não saberia exemplificar o que digo, até porque não sei em que ponto uma tal situação se conclui e onde outra se inicia. Falta-me o discernimento da coisa. Falta-me saber como lidar da melhor maneira com a tal coisa. A coisa é, simplesmente, e escapula ao meu entendimento. Ela o é sem que eu a queira.

Enquanto isso, continuo sentado no banco da praça, com a mesma cara de paisagem costumeira, tentando esconder meus olhos dos raios ultra-violetas, mas é sempre a mesma visão embaçada entre a razão e a emoção. Somente mais um entre tantos outros com os quais cruzamos diariamente. Mas com a leve impressão de que mais só, infeliz, triste, solitário e algo o mais. Esse algo o mais também me assusta.

quinta-feira, maio 22, 2008

A Metamorfose


O espelho embaçado pelo vapor da água quente me inspirava a escrever alguma coisa que ao menos naquele instante demonstrasse a minha pretensa imortalidade. Mas as danadas teimam em se enfurnar em algum buraco escuro e quando necessito dessas moças elas mangam da minha pessoa debaixo das minhas fuças e fazem questão de ser malcriadas, ressurgindo das cinzas quando elas não são mais necessárias.

Sendo assim, só me restou fazer cara de bom tacho ou mesmo a minha famosa cara de paisagem, como se tivesse sido pego em alguma traquinagem devida que me renderia umas boas palmadas ou mesmo alguns minutos sentado no canto da parede refletindo sobre minha ação criminosa. Ou, como diria meu amigo Paulo, faria cara de bondade e tentaria convencer o interlocutor da licitude do fato.

Mas, enfim, eu não sabia o que haveria de ser escrito ali, apenas idéias desconexas que sozinhas não formavam sentença alguma. Se bem que, mesmo assim, meu instante criador se esvairia no instante em que desligasse aquele chuveiro e a temperatura por si só se ocupasse de destruir meu insante escritor. Mas sou teimoso e birrento e faço questão de não ser vencido pelas circunstâncias, mesmo quando estas me provam que são mais vigorosas do que aquele que vos escreve.

Tive a impressão de ter sido jogado em um imenso palco sem prévio ensaio, apenas uma folha em branco sem nada datilografado, sem que me fosse passado o que deveria falar, quando, onde, em que circunstâncias e como me portar em relação ao meu corpo. Mas assim fui e estou até agora. Aos trancos e barrancos, mas vou. Sou insistente por demais e cometo muitas gafes, mas uso de minhas faces bondosas e escapulo aos comentários alheios. Um dia, de tanto insistir, eu acho essas respostas. Aí ficarei impossível. Menos sorumbático e mais paciente. Menos metamorfosse. Mais pessoa. Não sei as consequências que advirão dessa descoberta. Mas me rendo ao desafio. Ai de mim, meus caros!

domingo, maio 04, 2008

O processo


Cabelos despenteados e muitos fios brancos, calvície proeminente, barba de alguns dias, All Star velho, roupas puídas, mãos nos bolsos e olhar desconsolado e baixo. Esse seria somente mais um desnorteado da sordidez urbana, mas me refiro a mim mesmo. Um resumo nada prolixo de um ser de estranheza agressiva. E invariavelmente um cigarro sendo fumado vorazmente. Muito mal humor quando não há cigarros a serem degustados. E idéias, muitas idéias. Imagina-se andando pelo centro de uma grande metrópole recitando Rimbaud em francês. Mas não conhece Rimbaud tampouco fala esse idioma. Um sádico. Estranho. Somente mais um rapaz não muito jovem que anda pela cidade em direção a algum lugar, como as outras pessoas com quem divide as calçadas. Mas geralmente não há lugar algum a ir, anda-se a esmo. Mas somente em lugares já conhecidos anteriormente. Esse moço não se aventura por locais aonde nunca esteve. E pensa, pensa e repensa. Se lhe perguntam acerca do que tanto divaga, não saberia responder. Sente-se privilegiado por ser tão apagado que não chama a atenção de ninguém. Assim, é anônimo, não lembrado e muito menos comentado. Se depara com sua imagem no vidro de uma vitrine qualquer, e apalpa abaixo dos olhos, onde se depara com algumas olheiras, e marcas de expressões na testa. Mais uma vez se pergunta se quem vê é ele mesmo ou apenas a imagem de quem não gostaria de ser. E sente que nasceu no corpo errado. Mas é o que possue no momento. Aliás, em todos os instantes. Foi-lhe dado um corpo sem ao menos ser questionado se sua vontade era respeitada. Não houve um prévio ensaio. Ele foi jogado nas ruas sem ao menos instruções de como se comportar perante as pessoas que o amedrontam e essas construções que lhe são estranhas e assustadoras. Sente-se um ordinário. Quando sente algo sobre si, pois observa muito mais aos outros e sente medo do julgamento que farão dele. Tem impulsos de sentar em qualquer lugar onde possa se sentir um pouco confortável, mas algo lhe diz a ilicitude do ato. Sabe que tem um local para morar e passa uma parte do dia ali, mas olha para aquelas pessoas e não sente nada por elas, apenas confusão. E tristeza. Mais uma vez sabe que não vive da forma que deseja e que aquelas pessoas as quais lhe disseram algum dia que são seus familiares não lhe inspiram nada mais do que um oco no fundo do estômago e no resto dos locais vazios do corpo. Aliás tampouco questiona como seria a vida ideal. Este rapaz não muito jovem não sabe viver. Ele na realidade nem sabe porque está vivo. Apenas segue a ordem das coisas, sem se revoltar concretamente com o presente que lhe foi dado sem embalagem muito menos um laço dourado. Em algumas circunstâncias é visto dialogando com uma pessoa qualquer, mas prestando-se atenção, atenta-se para o fato de que trata-se de um monólogo. Sua timidez o impede de falar mais do que parcas palavras que aliadas fornecem informações de pouca valia. Mas a verdade é que ele não sabe o que dizer, onde colocar as mãos muito menos para onde olhar enquanto conversa. Mas percebe-se que tem um sorriso infantil que exprime ainda um quê de meninice não perdida. Enquanto acende mais um cigarro, pessoas passam em seu redor e não se atentam que são extraordinárias, e que estar fora desse círculo ou mesmo roda denota um preço alto os quais poucos se dispõem a pagar. Na realidade, alguns pagam compulsoriamente, sem serem consultados sobre a vontade ou não de não participar dessa roda. Eles apenas imaginam como seria estar dentro dela. E nesses instantes a imaginação voa longe, tão longe. Como quando era criança e acreditava que a vida seria para todo sempre tão simples e singela. Mas os anos passaram impiedosamente, e com eles veio a insônia, o roxo abaixo dos olhos e as costas meio curvadas, como que para se esconder da vista de todos.

quarta-feira, abril 09, 2008

Papo sem pé nem cabeça


É estranho ter um corpo e não saber o que fazer dele. Braços, pernas, orelhas, órgãos, dedos que participam do conjunto mas destoam do resultado final. Tantos acessórios inutilizados pelo tempo e pelas sensações. Acessórios que são a raiz de sentir algo, mas o algo é o que há. Há algo e não o há ao mesmo tempo. Vida que corre no exterior desse algo. Algo que gostaria de ser inserido no contexto, mas que não o é por motivos desconhecidos a ele.

Imaginação que nasce dentro desse algo e não se consegue exteriorizar numa folha de papel. Até se exterioriza sim, mas tão fragmentada que no fim já não tem quase nada da gênese. Há de se plantar para que se possa colher algo, diz a sabedoria popular. Há de se ser suficientemente paciente para ver a planta frutificar. Ela tem a sua origem, que muitas vezes escapa ao seu conhecimento, dada a sua não-permissão do que se faz à sua revelia.

Há muitos ruídos lá fora, ônibus, carros, pedestres, enfim, a vida cotidiana que pulsa independente da minha participação nela. Mas esses ruídos não me atingem. Aqui dentro tudo coontinua tão amorfo quanto naquele tempo em que nem me havia apercebido dessa calmaria, desse porém, diria que letargia.

Calmaria ilusória, digo eu. Talvez até fazia tanto ou mais barulho do que lá fora, mas nesse caso se esgota por si só, não gerando nada e morrendo no nascedouro. E, a cada vez que esse ciclo infindo se repete, torno eu a ouvir o movimento, até mesmo musical, imaginando que logo eu estarei inserido no tal contexto.

Há vida lá foram, mas aqui também o há, oras bolas, digo para mim mesmo enquanto ando em círculos pelo espaço desprovido de obstáculos. Mas não sei dizer onde há mais vida, se aqui ou lá. Aliás, sei sim, mas não respondo a essa questão porque tenho medo da pergunta que ela vai originar, como se estivesse mexendo em algo secreto que não deve ser perturbado. Não gostaria de mexer com tal vespeiro. Não pretendo me expor às ferroadas. Muito menos às questões internas dessas ferroadas. Não sei se estou preparado para as consequências.

terça-feira, março 11, 2008

Que tédio...


Ando sem palavras ultimamente. As pessoas falam comigo sobre os assuntos mais adversos e só consigo responder afirmativamente com a cabeça ou então solto frases monossilábicas como: "Sim". "Pois é", “Quem sabe?”, “Concordo”, e por aí vai. Sou desinteressantíssimo, e só me dão trela porque ainda não perceberam que existem pessoas melhores com quem dialogar. E eu também não as aviso que não estou prestando atenção na conversa, que naquele momento estou com a cabeça longe, divagando acerca de assuntos que diferem completamente do que está sendo discorrido.


Ultimamente não, há muito tempo, posso até me arriscar a dizer que há alguns anos não tenho assunto. Até forço a situação e me arrisco a trocar meia dúzia de palavras com meu interlocutor, enquanto me seguro para não bocejar e não dizer que tudo é tão tedioso. Não quem está conversando comigo, mas eu mesmo. Sou o arquétipo do tédio. E não adianta tentar me convencer do contrário. Só eu sei da dor e delícia de ser quem sou eu. Um velho chato, com muitos cabelos brancos e calvície em profusão que anda com as mãos nos bolsos e pensa em voz alta andando pelas ruas da cidade, ou das cidades, não importa aonde. Procuro achar respostas para o acontecido na minha vida tediosa existência, e às vezes acho que a conseqüência e causa de tudo é minha essência extremamente enfadonha.


A única reação que provoco são bocejos ao dizer as convicções que considero geniosas. Na verdade, eu sempre penso que descobri o ovo de Colombo, mas o fato é que nem criatividade eu tenho para explicar as mesmas teorias sob um ponto de vista diferente, eu só copio as idéias alheias e as reproduzo modificando algumas vírgulas e palavras. Eu mesmo bocejo quando tenho meus estalos. Digo a eu mesmo: “Sossega, meu filho, nada do que você está dizendo é inovador, és um chato de galocha que procura chamar a atenção dos outros mas que sabe que és desinteressantíssimo, provocas sono e abreviam as despedidas quando te encontram casualmente pelas calçadas do município.”


Não mando mais ninguém às favas, já diria a sabedoria popular que a voz do povo é a voz de Deus. Ditos populares não são desejáveis a essa altura do campeonato, mas preciso ocupar meu tempo com alguma coisa e colocar algum texto, mesmo que seja esse lixo que você perdeu alguns minutos lendo. De qualquer forma, já tive dias melhores nesse blog. E pare de bocejar, você também. Ao menos finja que disse algo criativo.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Narcolepsia


Ultimamente tenho viajado bem mais do que o usual, conhecido lugares, pessoas, ambientes e situações antes inimagináveis ou então relegadas a um inconsciente muito profundo. Alguma probabilidade muito pequena de se concretizar. Mas, enfim, assim o foi. Não sei porque cargas d´água tinha a impressão de que quando viajo as fisionomias vão ser muito diferentes das que eu vejo cotidianamente nessa pequena esfera caiçara, onde não consumimos muito peixe, mas em compensação moramos em prédios tortos. Culpa da engenharia que não havia se dado conta do péssimo solo que possui meu nobre município de nascimento para comportar tais construções. Mas isso não vem ao caso agora.

Gosto muito de viajar, observar as cidades que vão se desenhando à beira da rodovia e pesquisar sobre ela, perceber suas mudanças e imaginar como seus habitantes se relacionam entre si, ou mesmo como vêem os viajantes que os avistam diariamente mas nada sabem sobre suas existências. Passei a acreditar que posso conhecer um pouco mais do homem somente observando o lugar onde mora. Algumas vezes dou a sorte de ver as pessoas andando pelas ruas próximas à rodovia, seja indo trabalhar, passear, trepar, vadiar, beber, falar da vida alheia, enfim,
nada mais corriqueiro do que se faz todo santo dia.

Aliás, o que se faz em todos os cantos desse mundo, não importando a forma muito menos o idioma em que se é feito. Mas se faz sim. Ah, se faz. Agora mesmo, enquanto escrevo essa sandice, tem gente fazendo algo. Mas fazendo o que? Ah, o inacreditável, o inimaginável, o santo e o profano, o mais puro e o deslavadamente descarado, e mesmo sendo mais comedidos, de luz apagados e sem ruídos.

Não importa se você vive em Uruguaiana ou em São Gabriel da Cachoeira, és homem ou mulher, partilha das mesmas ansiedades que eu, e, não vem ao caso se os fazes no 15º andar de um arranha-céu ou às margens de um riacho. Mas os praticar. E não estou me referindo abertamente a sexo, vis libertinos. Posso falar de cortar as unhas, escovar os dentes, se alimentar, ler, andar, trabalhar. Ou seja, o que bem quiseres. Só sei que fazes algo nesse instante, nem que seja coçar a cabeça e se perguntar o que leva um ébrio como eu a escrever tanta baboseira.

A resposta é mais simples do que imaginas. Eu só estava há alguns dias sem escrever nada nessa joça por pura falta de tempo e não sabia o que devia colocar. Pois aqui está, o trash em seu estado mais puro. Pode vomitar, se quiser. Eu deixo. Se também quiseres passar reto e não me dar um pão velho, também permito. Só não admito a omissão. Hunf para você também..

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Linha rompida


Construí uma linha fina, quase transparente, que me ligava às minhas utopias adquiridas recentemente e descontruídas a duras penas. Era tão pequena que só eu a enxergava e, na realidade, não tinha me apercebido que sua existência estava apenas no plano da imaginação. Ela não era real, mas simples fruto da minha por vezes rica criatividade.
No decorrer desse período, ela era minha mais fiel companheira e era guardada no meu bolso, sendo assim, a levava para todos os locais aonde me dirigia. Acordava comigo, a levava para passear, estava ao meu lado nos momentos das refeições nem sempre regradas pelo bom senso, participava de todos os meus afazeres, compartilhava das minhas leituras, das minhas músicas, das minhas idéias, trabalhava juntinho ao meu lado e me desaprovava sempre que me distraía e a colocava entre os meus dedos e a minha imaginação voava por planos psicodélicos. Enfim, ela estava no meu dia-a-dia, e me afeiçoei tanto a essa pequena coisa que não me via mais vivendo sem a sua própria existência.
Essa linha havia se tornado condição essencial do meu eu. Não poderia mais ser dissociado desta, e sem mim esta também deixaria de ter razão de ser, ou estar. Muitas vezes não nos damos conta de que nos apegamos a objetos ou fatos por si só tão mínimos que somente estes nada mais são do que um mero grão de areia da praia. Esta linha era meu elo de ligação com o mundo humano, e na verdade com meu próprio mundo.
E nossa convivência foi entremeada de períodos nebulosos. Por vezes discutíamos longamente, com direito a muitas lágrimas da minha parte e sorrisos nefastos da parte inversa. Ela me dizia que não passava de acessório para a verdade que eu não queria enxergar, e eu “tampava” meus ouvidos, a fim de não escutá-la. Este era mais uma prova da minha teimosia, defeito o qual tento me livrar mas muitas vezes é maior do que a minha força de vontade.
Mas, por poucas vezes, a acariciava e a agradecia imensamente por estar perto de mim e me fazer mais forte, se bem que a cada dia me tornava mais vulnerável à propulsão de sentimentos que eram tão sonoros quanto as palavras que não eram ditas. No caso citado havia muito, mas um desesperador silêncio. Silêncio mutilador.
Mas eis que chega o dia da sua libertação, nirvana, morte até. Mais para mim do que para a linha, que de tão fina e transparente nem poderia sofrer um processo de inanição. Até porque ela já havia nascido mirrada, e tão pequena que por muitas vezes tinha ímpetos de alimentá-la às colheradas para que ambos não morrêssemos de mãos dadas. Ela se foi, sem um gemido, sem uma palavra, um toque ou qualquer outro gesto. Apenas se libertou da minha presença egoísta. De repente me vi sem ela, e sem saber do que fazer, de como aproveitar sua ausência. Se foi sem me ensinar a viver sem ela. Bom, se há como viver sem ela. Preciso aprender, a duras penas e lições. A música de fundo continua tocando nos meus ouvidos. Mas agora sem a linha. Sem meu elo com dias melhores.

sábado, janeiro 05, 2008

Com a mão no coração


Pode-se dizer que tudo começou com um sim. Mas digo que um sim dito interiormente, sem grandes pretensões de ser ouvido por quem está a nosso lado, muito menos aquela afirmativa feita quando estamos falando em voz alta com a única pessoa que realmente lhe ouve em quaisquer circunstâncias: você mesmo. Mas inicialmente não trocaram palavras, era simplesmente um flerte praticado por duas pessoas que se interessam mutuamente baseado em questões físicas. Os olhos, o nariz, a boca, seios, braços, pernas, enfim,todas as características natas a qualquer ser humano.

Os dias se passaram e a paquera tímida continuava caminhando a passos lentos. Bom, não se pode dizer que em tal caso os passos fossem lentos, pois em poucos dias houve um tímido e casual:"Oi, tudo bom?", em que a resposta,logicamente, seria a tradicional: "Sim,tudo bem, e com você?". Detalhes desse colóquio não importam muito, até porque certas frases proferidas nesse âmago não interessam a nós, espectadores, mas somente aos participantes do sentimento que nasce sem que nos demos conta disso. Mas adianto que temos nesta história um final feliz, com direito a suspiros das senhoras leitoras das rádionovelas e de todos nós que, sim, sonhamos com um amor que nos faça perder o fôlego e o juízo.

Coração batendo mais forte à presença do ser amado, uma saudade inexplicável de quem se deseja e a necessidade física da pessoa por perto, pêlos do braço que se eriçam, defeitos que se transformam em qualidades ou são abruptamente miminizados,vontade de sair proclamando aos quatro ventos o nome do(a) felizardo(a), suspiros prolongados madrugada afora, apertos exagerados no travesseiro durante a noite, contas telefônicas a valores estratosféricos, os cinco sentidos que se tornam exageradamente aflorados; ou seja,tudo isso e tudo o mais a que se tem direito quando se ama. E obviamente sentiam isso com o decorrer do tempo, não se sabendo com qual intensidade. Mas suponhamos que sorriam desbragadamente,mesmo nos momentos mais estressantes do cotidiano. Botavam as mãozinhas no peito, próximo à região do coração,e pisavam nas nuvens, proferindo em voz baixa: "Aaaaaaaaiiii,como eu te amo!".

Mas, como em toda boa história amorosa, havia empecilhos. O moço ainda não estava totalmente livre de um relacionamento anterior. Leia-se que era casado. A moça, pelo visto, não possuía o mesmo problema, somente uma família tresloucada e uma tia que grita desesperadamente por motivos banais e provoca a ira dos ouvintes e vizinhos. De qualquer maneira, era um caso complicado, pois os dois queriam namorar e o rapaz tinha uma família, composta inclusive de um filho.

O relacionamento se mantém durante algum período sem que a moça saiba dessa condição de seu namorado. Mas,quando toma ciência do fato, exige uma decisão: "Ou eu ou sua família!". E assim foi feito. O rapaz abandona sua família em prol dela. Reitere-se que me refiro à minha prima Luciana, que bem merece esse sacrifício. Principalmente pelo fato dessa moça ser minha parenta exigia do rapaz uma atitude radical. Não que somente isso fosse o fio condutor do que se concretizaria a partir daquele instante, mas isso contou muito para o happy end aqui descrito.

Enfim, o rapaz se separa de sua esposa e assume publicamente um relacionamento com a minha prima, que já o era antes que ambos se conhecessem. Segundo informações fornecidas pela própria prima, no Natal cada um conheceu a respectiva família do ser amado, e não se teve notícias de pratos quebrados nem maiores incidentes. Sendo assim, já existe a aprovação dos familiares. Os dois se amam e suas famílias consentem com o namoro. E o sentimento cresce a cada dia mais, dado o caráter íntegro do rapaz e a protumberância física e intelectual dessa jovem moça.

No final das contas,o que importa é que o namoro esteja dando certo, e espero que assim se perpetue por longa data. Desejo sinceramente que o casal seja muito feliz e que me convide para a cerimônia religiosa. E que comemoremos em grande estilo,com direito amuito espumante, pois a champanhe está acima de nossas posses. E com longos suspiros das senhoras de São Gonçalo jogando arroz nos noivos dou por encerrado esse relato.

sábado, dezembro 29, 2007

Clarice + Eu


Enquanto passava a mão pelo cabelo recém-cortado, os pêlos do meu braço se arrepiavam, sentia o gosto salgado das lágrimas que cismavam em se desfazer na minha boca. Ao mesmo tempo, sentia como que seu olhar enigmático, confortante e desafiador. Foi uma experiência mediúnica. Sentia Clarice Lispector a meu redor, durante a apresentação teatral em que eram encenados dois contos de sua autoria.

No palco, três atrizes a representavam: Clarice jovem, com um livro que a absorvia e a mantinha entretida; uma outra Clarice, já madura, escrevendo alguma coisa em sua máquina de escrever e, finalmente, uma terceira Clarice, tão madura cronologicamente quanto a segunda, de turbante, cigarro na mão e pose altiva, que circulava pelo espaço proferindo seus pensamentos como que chicoteando o espectador. Algumas pessoas até riam de sua impetuosidade, mas para mim aquilo era um choque interno. Era eu vivendo nas suas palavras, ou a minha experiência de vida metamorfoseada no que ali era dito.

Minha paixão por ela é notória e não me esquivo de dizer que nunca me senti tão estapeado e retratado como quando tive meu primeiro contato com sua literatura. Infelizmente ela nos deixou há 30 anos, mas seu espólio permanece intocado em todo aquele que a sente. De forma visceral e crua, como um espelho que se quebra, jogando os cacos no nosso eu mais íntimo e indevassável. Despedaçando não o visível aos olhos, mas o que se sente no profundo, nos desnuda e provoca estupefação com as dúvidas que surgem abruptamente e cujas respostas não parecem ter solução.

Palavras me faltam para descrever nossa relação. Surge um vazio, um olhar, um toque e suas palavras, que rasgam internamente e provocam o nascimento de novos seres adormecidos dentro de mim. Simplesmente a sinto e a compreendo na sua busca de se solucionar como ser humano, vivendo uma espécie de vida dupla: aparentemente, uma senhora de ascendência ucraniana autora de grandes sucessos, mas dentro dela havia a necessidade de se expressar. Mas comunicar o que? Tampouco ela sabia. Mas suas tentativas foram imensamente válidas. E continuo sendo tocado sempre que a descubro.

Ah, bem lembrado. Na quarta-feira passada pensei muito em ti. Quando vi meu rosto refletido pelas lentes dos óculos escuros da Vivi (gostei muito de reencontrar você e o Guilherme, te desejo tudo de bom), me pus a ajeitar o cabelo, recordando de quando saí do banheiro com os cabelos molhados e despenteados. Você sorriu e tentava arrumá-los, dizendo: "Assim não, está muito pueril". Me deu um nó na garganta e tive a certeza de que algo mudou em mim, não sei se para melhor ou para pior. Não restou muita coisa, me sinto mais oco e duro, sem saber como continuar. Mas há de se insistir, mesmo sem fé alguma.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Ode ao cofrinho


Yes, nós temos bananas, café e palmeiras nessa terra tupiniquim alcunhada outrora como Brasil. Temos também derrières, ou mais vulgarmente falando, temos bundas e mais bundas, que se mostram lascivas e devassas pelo nosso imenso território, desde a badalada praia de Copacabana até mesmo em algum riacho pouco conhecido da nossa Amazônia. Podemos também falar dessa parte do corpo chamando-a meigamente de nádegas, ou região glútea. Sendo assim, podemos denominá-la da forma como melhor preferimos.

Mas atente para o fato de que o tema desse texto seja justamente essa parte do corpo tão afamada pela população masculina do nosso país. Não sou nenhum depravado. Bom, falando sinceramente, sou muito depravado nos momentos em que me convém e nos não convenientes também, mas não é isso que está em questão. O que se coloca na mesa é o cofrinho de Laura Villela.

Mas quem seria essa moça?, perguntam-me os leitores desse blog que desconhecem esse nome. Laura é uma moça ainda na mais tenra idade, com seus 20 anos completados há pouco, criada nas ladeiras e grotões de Santana, bairro da Zona Norte paulistana, que não se faz de rogada e exibe sua derrière por todos os locais aonde passa, sem a maior cerimônia. É assim mesmo: você apenas vê um pedaço de suas nádegas que insiste em pular da calça, sem que ao menos sua dona se dê conta de tal fato. E assim se sucede diariamente, ou ao menos nos momentos em que convivo com essa moça, que também é famosa pela sua cara de barraqueira e sinceridade, usando suas palavras amorosas a torto e a direito sem se preocupar com a expressão assustada da pessoa a quem dirige suas opiniões.

Mas creio que essa sua exposição exagerada seja apenas um sintoma físico de carência afetiva, ou simplesmente a metáfora de sua inadaptação ao sistema e revolta interior e exterior por algo que ainda desconheço. Preciso conversar mais com essa moça para saber os motivos de tal revolta, que se traduz em cofre exposto publicamente, na maior impudicície. Sem maiores preocupações com as consequências judiciais que tal fato venha a lhe provocar. Laura, você ainda poderá se ver nos tribunais por causa dessa sua mania desenfreada de expor sua intimidade assim, sem ao menos perguntar se os visualizadores concordam com isso.

Mas nada pode ser feito, ao menos momentaneamente, para impedir que Villela, como a chamo carinhosamente e também nos momentos de briga (nunca nos estapeamos, mas preciso dar veracidade ao texto), mostre assim desarvoradamente sua derrière. Só me resta verter lágrimas de sangue pelo seu costume nada condinzente com uma moça tão fina.

Em alguns momentos, inconscientemente, também exponho meu cofre em vias públicas, claro que sem me aperceber disto. Mas não vejo nisso mal algum, é apenas uma parte do meu corpo que se rebela contra a ditadura da vestimenta ocidental e se revolta automaticamente, alheia à vontade de seu dono de se mostrar.

Neste momento, moças, na sua maioria expõem suas nádegas nesse país tropical, nas praias, rios e mesmo na intimidade de suas residências. Mas isso não impede que também moços pratiquem tal ato, embora com menor frequência. Não pense que sou partidário desse ato, sou um rapaz de respeito.

Apenas constato os fatos e os transcrevo. Ou seja, mesmo que não queria, vejo bundas e mais bundas que se mostram sem que eu lhes peça. E isso nada tem de anormal. São apenas desejos incontidos que afloram, renascem ou mesmo morrem. Simples assim.


sexta-feira, novembro 23, 2007

Nu


Eis-me nu. Vestido com as roupas que o Senhor me deu. Sem nada a esconder as vergonhas e todo o resto. Exposto ao frio, ao calor, à chuva, ao sol, enfim, às intempéries da natureza. Conheceste agora tu que me vês assim, não somente a carne, mas sim os sentimentos que exponho como ferida em brasa e brado alto em praça pública. Aqui estou, na presença de todos, expondo aquilo que fui, quem sou e o que porventura serei um dia. Apenas nu, sem apetrechos alguns nas mãos, e estas nem ao menos a esconder o meu sexo. Mas por que estou nu?
Nu porque assim viemos, e assim voltaremos. Não nus somente com a roupa que reveste nosso podre corpo, mas nus de alma, de espírito, nus de flagelos e sentidos. Não se espante com essa visão, estou apenas nu, ou pelado, como quiser interpretar. Pelado sim, e que mal há nisso? Sim, estou cometendo um grave atentado ao pudor, bem o sei. Mas continuo nu enquanto não me cobrirem com alguma coisa que, além de me aquecer o corpo, possa me fazer compreender a alma dos homens, que, além de tudo, é nua de nexos.
Nu sou eu, nu é você, nu somos nós. Estamos todos nus diante do espetáculo que se apresenta durante as vinte e quatro horas do dia. Não sabemos o que fazer da nossa nudez. Muitas vezes nem nos damos conta da nossa nudez. Não a física, mas a nudez da alma. Nus ficamos quando não percebemos que não é a nudez que choca as pessoas, mas nosso caráter, ou a falta dele. Veste sua capa de sacripanta e pensas que com ela estarás acima do bem e do mal, do julgamento dos homens, e quem sabe do divino também? Há que atentar a todas as hipóteses, no momento em que se conta com o privilégio da roupa em uma terra de gente nua. Mas há o tempo. Ah, o tempo, esse destrói não somente os castelos de areia e molda as pedras das cavernas, mas também se encarrega de todas as torpezas nossas de cada dia.
Mas continuas tão ou mais nua do que antes. Há pureza e beleza na nudez, mas também há canalhice e sordidez. És canalha e sórdida, minha cara. Tens beleza e encantamento, brilho nos olhos que escondem, ou melhor, apenas ofuscam que está mais nua do que todos os outros. A nudez que fere quem te expôs a falta de vestimentas não somente com lascívia, mas teria oferecido a ti sua capa ou mesmo a vida para cobri-la nos momentos em que necessitasse.
A nudez que apagaste da sua lembrança e preferes expor como inexistente. Mas há a nudez, mesmo que feches os olhos e não se permita vê-la. Estás tão nua quanto todos os outros, que já não se assoberbam com o que tem diante dos seus olhos nos momentos mais improváveis do dia.
Nu já era antes de ti, e nu continuarei, provavelmente ainda mais despido, se é que isso pode ser possível. Há sol agora, e continuará havendo sol enquanto houver inocência e estupefação diante dos homens e todas as suas coisas. Estou nu principalmente por causa da minha ingenuidade. Cheguei a rasgar o restante dos trapos que usava para me despir diante de ti. Mas nem assim percebeste que havia ali mais que um encantamento, havia amor.
Sim, nu continuo e imediatamente nu me prostro diante de quem quiser visualizar a minha nudez. Não é vergonhoso ser visto nu pelos outros. Mesmo que eu não aceite a condição, eu ainda continuo nu por sua causa. Mesmo que a razão me diga para costurar as minhas vestes, nu continuo. Por você, sempre nu.

domingo, novembro 11, 2007

Sob efeito de narcóticos


Ao vê-la de longe, comecei a sorrir nevosamente, baixei os olhos e comecei a estralar meus dedos antes de os colocar em forma de concha entre as pernas. Somente eu enxergava essa claridade que me ofuscou a vista assim que se aproximou, e que provinha dessa mulher. Juntava-se à luminosidade que nascia dentro de mim e essa mescla de luzes me fazia cantar mentalmente uma música que me enchia de uma calma avassaladora, como seuma caixa de soníferos me fosse empurrada garganta abaixo. Havia me prometido ser enxuto com as palavras e as medir rigorosamente antes de proferi-las, sob pena de tê-la mais uma vez afastada dos meus olhos. Poderia me portar grosseiramente, se as situações assim apresentadas pedissem tal providência.

O lugar estava vazio, e só me dei conta de que ela havia sentado ao meu lado quando a garçonete colocou sobre as minhas mãos estendidas o cardápio. Não me recordo do que havia pedido para consumir, só me surgem vagas lembranças de que era alguma bebida quente com chocolate de gosto levemente amargo. Não comi nada por receio de me allimentar na sua frente, por medo de me sujar e provocar nela ainda uma pior impressão, como se deixando se saciar a minha fome provocasse nela uma espécie de transgressão de valores a meu respeito.

- Oi, o que você gostaria de falar comigo?

- Nada em especial, apenas senti sua falta. Gostaria de saber de você, como está seu trabalho, seus amigos, livros, discos e tudo o mais. Se não estiver pedindo muito, é claro, não quero ser invasivo, sei que você não gosta de se expor e tenho muito medo de perguntar algo que lhe ofenda. Já percebi que não permites que saibam de você mais do que julga necessário. Mas, olha, eu não te pedi para vir me encontrar porque queira saber da sua intimidade, me perdoe se pensar assim, não foi a minha intenção.

Percebi que havia falado muito além da conta e que as minhas pernas tremiam imensamente, procurava esconder isso dela e tinha a meu favor o fato de que meu tronco mantinha-se razoavelmente estabilizado, por mais que demonstrasse meu nervosismo ao segurar a xícara.

Havia ensaiado o que diria a ela desde que havíamos marcado tal encontro, mas na hora do desenrolar dos fatos geralmente profiro sentenças que nada correspondem ao que havia planejado anteriormente, sendo assim começo a gaguejar e me arrependo de ter sido tão impetuoso.

Mas era tarde, as letras haviam sido golfadas naquela mesa e qualquer deslize meu poderia custar um valor altíssimo para a minha atual condição emocional.

Felizmente sua paciência ainda não havia se esgotado e ela continuava a conversar normalmente comigo. Aliás, de forma convencional demais. Tinha desejo de sacudi-la e dizer: "Pare com esse teatrinho de fingir que nada está acontecendo e que você não percebeu! Tu sabes que me tens nas mãos e que pode me aniquilar com um leve toque entre seus dedos. Não vês quanto sofro por sua causa?". Mas se assim agisse ela simplesmente balançaria a cabeça, mudaria de assunto e internamente me odiaria ainda mais. A mim restaria acender mais um cigarro e lutar insistemente para que a fumaça não encubra ainda mais a minha visão em relação a ela.

E me dizia amigavelmente tudo o que supostamente havia perguntado. Mas na verdade vos digo que não estava muito entretido com as notícias e pormenores da sua vida, apenas buscava observar sua imagem, gestos e palavras, tentando reter o máximo possível na minha memória, para que aquele momento único não se perdesse nos dias seguintes em que sua presença haveria de ser apenas uma saudade alucinante que invadiria meus sentidos e se transformaria em dor física. Pensava da seguinte maneira: "Agora já não tem mais volta, darling, já estás dentro de mim, invadiste sem querer todos os meus recantos profundos e neles fizeste uma maravilhosa anarquia de sentimentos e sensações. Mesmo que eu tenha plena consciência de que para você nada significo, já moras aqui dentro, no grito contido e no silêncio abafado, nas madrugadas insones e nas tardes calorentas, nos momentos de lucidez e nas devaneios desvairados. E isso vai se perpetuar, mesmo que em episódios fragmentados, enquanto resistirmos nessa vidinha medíocre que nós dois temos. Me fizeste descobrir a paixão e o seu desespero, mesmo que tenha sido tão vítima quanto eu nesse emaranhado de vibrações."

E os minutos iam passando, ambos monossilábicos em alguns momentos, enquanto nos restantes havia muita coisa a ser compartilhada. Sentia-me imensamente contente por ser confidente destes detalhes dela que possivelmente poucos sabiam. E ainda um leve torpor invadia-nos, os dois muito polidos e sensatos.

Até que chega o momento da despedida: "Bom, tenho que ir, me desculpe, foi muito bom te rever, espero que fiques bem e te cuides". Agradeço de forma cortês, e me permito um ato de euforia sem o consumo de psicotrópicos. Agarro sua mão direita entre meus dedos, toco-o levemente e com meus dedos indicador e polegar acaricio suavemente sua palma, e digo, levantando meus olhos e sorrindo infantilmente: "Gosto tanto de ti...Sabes disso, não?"


terça-feira, novembro 06, 2007

Tapa com luva de pelica


Só fui me aperceber do acontecido mais ou menos uma hora após o fato consumado, como se estivesse numa espécie de anestesia que parou de fazer efeito neste prazo. Era como se a minha face ardesse em decorrência de um tapa bem dado e desferido juntamente com poucas palavras, que adentravam meu interior como um vento que destelhava casas e arrastava automóveis. Foi um belo final de tarde, com as nuvens em coloração que lembrava entre o rosa e o laranja, e abaixo a vegetação muito verde e alguns outdoors. No sentido contrário da estrada, muitos e muitos automóveis provocavam um pequeno congestionamento. E, ao meu redor, algumas pessoas que dividiam comigo aquele ônibus, cada qual com suas vidas para se preocupar e acontecimentos pitorescos de feriado para contar aos amigos e recordar com doces lembranças.

O ar condicionado gelava os pêlos do meu braço, e foi quando fechei a pequena abertura que fornece ar individual foi que tomei conta de que há alguns momentos havia experimentado mais uma vez a morte, como, aliás, já vivenciei em alguns momentos, alguns dos quais nem me dei conta, apesar do tempo decorrido. Nada de muito dramático nem que provoque estupefação nos presentes. Eu não desci ao solo nem foi necessário que chamassem uma junta médica para a minha pessoa. Em muitos momentos não consigo exprimir com palavras o que acontece, eu apenas sinto. O que sinto é maior do que aquilo que escrevo, como se houvesse algo velado que não pudesse ser revelado nem a eu ou simplesmente não consigo encaixar letras, que formam palavras, e consequentemente frases. Mas mesmo assim me proponho a tentar verbalizar a emoção, por mais que ela me faça de bobo e se esconda atrás do não-dito.

Mas sim, houve a morte de alguma forma na minha vida, a partir do momento em que me vi obrigado a modificar sentimentos por força das circunstâncias. Uma mudança imposta, onde não vi saída a não ser a transformação de algo em simplesmente nada, inexistência, negação, um grande baque. Uma imposição, não uma escolha. Eu me vi obrigado a modificar sem que me fosse perguntado se isso é bom ou ruim. Não pude escolher qual dos dois lados da moeda me era mais conveniente. Apenas escorreu sangue, suor e lágrimas. E estava morto. Ou mesmo amputado.

Mas é necessário sobreviver, mesmo na queda. A partir daquele momento percebi que precisava vivenciar aquela situação, pois sem ela continuaria sendo egoísta e não teria aberto os olhos a muitas coisas que ainda posso presenciar, esperando ser mais bem-sucedido nas próximas oportunidades. Não me cabe culpar nem a eu nem aos outros pelos fatos que acontecem sem a nossa permissão. Não somos consultados, apenas empurrados para o abismo ou mesmo o limbo. E ali permanecemos, vivendo nossa vida medíocre à espera de alguma novidade. De qualquer forma, sempre restam coisas boas, mesmo na dor. Naquele momento eu percebi que precisava morrer para poder continuar, por mais estranho que isso pareça. Me sinto oco, vazio, sem capacidade de reação, pois não me sobraram muitas convicções. Mas me sinto sujo, tentado a me esfregar com uma boa esponja tentando arrancar as nódoas que me fazem imundo. A sujeira que provoca ojeriza e repulsa. Essa imundície que foi o estopim da minha morte.

terça-feira, outubro 30, 2007

O pequeno bicudo


Gozado, esfriou de repente. Há horas atrás o sol estava tão forte que incomodava nossos olhos e nos fazia cerrar a vista, passarinho. Passarinho, você é a única coisa que me restou de tudo isso, de todos os sonhos, de todas as vezes em que pensei alto, de todas as vezes em que sorri, de todos os momentos em que chorei, de todas as noites que adentraram o meu ser e me permitiram ser mais lúcido e triste com as notícias que você me trazia, escritas naqueles papeizinhos que vinham em seu bico. Entoavas canções fúnebres e algumas de puro contentamento quando assim achavas lícito.

Olha, passarinho, está na hora de você voar, sabia? Vai procurar seus amigos bicudos, beber das águas puras dos rios que existem por aí, vai encontrares uma passarinha muito jeitosa e com ela terás lindos passarinhozinhos que entoarão seu canto de perpetuação, que alegrará os ouvidos de velhos e jovens, crianças e adolescentes, homens e mulheres, e mesmo entrar na alma de todos os seres viventes desse mundão de meu Deus.

Trazes boas novas a todos os homens, e mesmo a eu, que sou participante de todas as auroras e crepúsculos dessa praia. Veja bem, passarinho. Já te prendi tempo demais aqui na minha presença. Vês quantas pessoas estão sentadas nas suas cadeiras de praia, ou caminhando pela areia? Vai lá, passarinho.

Olha só, você está vendo aquele menino de cabelo preto, meio gordinho, com uma pá e um balde nas mãos? Ele está chorando, estou observando que ele fez um castelinho de areia muito bonito que a onda levou. Pousa no ombro dessa criança, ensina-o a construir os mais lindos castelos e esculturas, afaga os cabelos dele com seu bico, entoe para ele suas canções mais belas e puras, entra na vida dele e não o abandone mais. Fica com ele desde já. Olha só: esse menino está parando de chorar, está correndo ao encontro de sua mãe,e ele tem jeito de quem gosta muito de bichos. Eu acho que ele tem um labrados preto muito brincalhão que o recebe com muitas lambidas quando ele chega da escola, todo sujo e com fome. Tenho certeza de que ele fará uma gaiola muito bonita para você, e te dará de comer um alpiste bem gostoso, que te fará cantar, cantar e cantar com mais força e ímpeto.

Presta atenção: rodeia esse menino como quem não quer nada, eriça suas penas, faz uma pose bem bonita para ele gostar de você, passarinho. E entra naquele coraçãozinho puro e ingênuo de criança. Ajuda esse garoto com os deveres da escola, e quando ele estiver jogando videogame, você fica ao lado dele prestando atenção em todos os macetes do jogo, e o tempo vai passar, passarinho, vocês dois muito amigos e importantes na vida um do outro.

Esse garoto vai crescer, virar adolescente. Esteja ao lado dele no dia em que ele se apaixonar pela primeira vez, quando ele der seu primeiro beijo, quando tiver a sua primeira transa, quando ele passar no vestibular, quando ele aprender a dirigir, quando ele conseguir seu primeiro trabalho, quando ele estiver com sua primeira namorada, até que esse menino se transforme em homem e a vida por si só os levar para caminhos opostos, onde cada um já não caiba mais na vida um do outro.

Tente viver esses instantes, faça esse esforço, porque você já não é mais meu. Te deixo livre, voa muito alto agora, vá descobrir novas árvores, novas nuvens, novos alimentos, novas espécies de passarinhos que você nunca viu e provavelmente vai estranhar. Estou te pedindo para ficar ao lado daquele menino porque aquela criança sou eu, há alguns anos atrás. Uma criança que não sabia o que é viver, que se satisfazia em montar seu ferrorama na sala de casa e incomodar sua mãe pela bagunça. Uma criança que se fartava de balas na hora do recreio e escondia seu monte de chocolates na bolsa da mochila. O menino hoje já não existe dentro de eu, ele morreu quando descobriu que viver pode não ser a melhor forma de simplesmente existir. Esse homem em que me transformei só tem dentro de si uma coisa oca, dura e sem forma. Esse homem descobriu a vileza do amor que provoca repulsa e distância. Mas vai lá, passarinho, vai pousar em novas beiragens. Eu te deixo ir, mas não te permito voltar mais. Agora você está livre pelo mundo. Assim como eu era quando fui essa criança.