sábado, outubro 21, 2006

Ah, o amor...

-Amor, corta aqui esse tomate pra mim porque senão essa janta não vai sair! - gritou Lilian da cozinha.
Marcelo ouviu, mas não respondeu devido aos seus devaneios, enquanto observava com seus olhos vivos a mobília da sala.
Era um casal jovem ainda, com menos de cinco anos de relacionamento. Dois anos de namoro, sem o tradicional noivado nem relação formal, com papel assinado. Eles apenas decidiram um dia que queriam viver juntos, e assim foi. A relação já durava aproximadamente três anos.
Ele estava às voltas com pensamentos confusos, em que mesclava sua adolescência com o trabalho exaustivo do escritório, que consumia praticamente todo o dia e ainda fazia com que acabasse trazendo as preocupações profissionais para o recesso do lar. Apesar de tudo, se considerava um felizardo. Gostava da mulher, tinha a sua casa, um trabalho com rendimentos razoáveis, um simpático cachorro beagle de singelo nome, Asdrúbal, mas lhe faltava um filho. Estava entre os planos do casal uma criança assim que a situação econômica se aprumasse.
Ambos eram muito diferentes, tinham visões sobre aspectos da vida muito diversas, o que fazia com que muitas vezes suas opiniões se chocassem, a ponto de haver sérias brigas. Não se pode negar que ambos fizeram muitas concessões para viver esse amor. Lilian havia desistido de seus sonhos de morar no exterior, trabalhar em outros países com design e principalmente estudar sobre o tema, poder juntar uma quantia considerável e voltar ao Brasil para montar sua esperada empresada especializada em móveis contemporâneos. Já Marcelo era um grande notívago, adorava sair com seus amigos pela noite e sua fama de "pegador" era não só comentada como afirmada pelos seus amigos de juventude. Com o casamentos, ambos deixaram de lado algumas particularidades suas para o bom convívio do casal.
Aparentemente nem tudo estava às mil maravilhas. A relação havia caído na rotina, ela adorava discutir a relação, enquanto Marcelo não se importava com isso e achava chatérrimo discutir coisas tão abstratas quanto falar de ciúmes. Não havia mais o cinema de final de semana, jantares com os amigos, festas com o pessoal da faculdade, noitadas no motel, compras a dois no supermercado, relações sexuais diárias, muito menos aquele costumeiro "Eu te amo" ao acordar e antes de dormir.
Mas nenhum dos dois tinha a coragem de assumir que a relação estava degringolando, que se nada fosse feito ela fatalmente terminaria dentro de algum tempo. E assim os dias e meses foram passados, os casal se evitando, praticamente não havia mais diálogo, se reduzindo a simples estranhos convivendo sob o mesmo teto.
Até que um dia, Lilian tomou sua atitude: estava em casa em um domingo à tarde, quando Marcelo havia ido visitar sua mãe. Olhou para todos os cantos, não se reconheceu ali; aliás; nem sabia o motivo pelo qual adentrou ali um dia. Arrumou suas roupas, seus pertences, e deixou um singelo bilhete escrito no espelho do banheiro: Me desculpe, mas não dá mais, preciso da minha liberdade e descobrir afinal de contas o que quero da vida. Desse dia em diante, eles só se viram na hora da partilha dos móveis e cada seguiu sua vida, como se nada um dia houvesse acontecido entre eles. Sem brigas nem ressentimentos, apenas lembranças.
Fazia um calor infernal do lado de fora e as pessoas sorriam como se a felicidade fosse um bem comum.

domingo, outubro 15, 2006

Aborto


Falar nesse tema é sempre complicado, pois a maioria das pessoas vê o assunto sob uma ótica do atavismo religioso e não reflete bem sobre o que realmente é o aborto, suas causas, consequências e possíveis desdobramentos na sociedade, mas é sempre pertinente que se cutuque na ferida e falemos sobre o que se tenta varrer para debaixo do tapete. É o tipo da coisa a qual buscamos ter opinião neutra, a menos que vivamos a própria na carne ou ao menos algum conhecido próximo, sendo assim fomos agentes da nossa própria história, tendo propriedade pra discorrer sobre ele.
Pois bem, no Brasil o aborto só é permitido em casos de risco para a mãe ou o feto e em situações que envolvam estupro, e mesmo assim pode acontecer de este nem vir a se concretizar devido à morosidade da nossa maravilhosa justiça, que só tem o nome mesmo, há muito tempo ela deixou de servir aos interesses da população e beneficia somente à nossa querida e afamada elite, que compra juízes, promotores e quem mais puder e o dinheiro permitir.
Os mais puritanos dizem que é pecado, só Deus tem o dom de dar e tirar a vida. Pois bem, Papai Noel existe e vêm trazer presentes para as crianças comportadas todo 25 de dezembro. Sejamos mais objetivos e menos fantasiadores. Pessoalmente sou favorável ao aborto em quaisquer condições pelo simples fato de que a mulher é dona do seu corpo, sendo assim deve usá-lo da maneira que melhor lhe convier. Essa é uma das características da dita democracia, e no nosso país esse direito que seria devido a elas não vêm sendo cumprido, ao menos sob as asas da lei. Países mais avançados na questão sexual, como Holanda e Suécia, possuem clínicas especializadas nisso que são mantidas pelo Estado. Clínicas de aborto existem aos montes nesse imenso território, mas somente as mulheres das classes mais favorecidas têm poder aquisitivo para bancar o alto preço cobrado por esses profissionais. As mais necessitadas recorrem mesmo às curiosas, que cobram preços mais acessíveis. Em contrapartida parcela considerável morre ou fica com graves sequelas em consequência da falta de higiene praticada por essas mulheres.
Sim, os métodos contraceptivos estão à disposição das mulheres nos postos de saúde e hospitais, mas o melhor método mesmo é a abstinência sexual. Quem não quer ter filhos, que não transe, é o mais seguro. Mas o desejo da carne fala mais alto, não há método 100% à prova de falhas, e nesses casos, elas assumem uma gravidez indesejada, sendo que em alguns casos elas não possuem as mínimas condições psicológicas muito menos financeiras para dar à luz a essa criança, sendo assim estaremos sendo perversos e perpetuando mais um ciclo de miséria na nossa nação, com crianças subnutridas e futuros homens e mulheres à margem da sociedade, sobrevivendo miseravelmente, inchando as nossas periferias, aumentando os índices de criminalidade, superlotando ainda mais nosso sistema carcerário e sobrevivendo de Bolsa-Família (olha o Lula lá de novo, peço encarecidamente: tirem esse canalha do poder, varram essa corja maldita do Palácio do Planalto). A taxa de natalidade entre as mais carentes é aproximadamente 3 vezes maior do que as mulheres em boa situação financeira. Isso é fato!
Falando assim posso parecer preconceituoso, mas não é essa a intenção. Falo dessa maneira porque acho urgentemente que se revejam os conceitos e o tema seja encarado como problema de saúde pública. Se bem que legalizar o aborto acarretaria uma reformulação do sistema de saúde pública, com infra-estrutura adequada às mulheres que desejam passar por essa intervenção e até psicólogos para tratar dessas mulheres, entre outros aspectos nos quais sou leigo. Mas, como tudo no Brasil, o buraco é mais embaixo, não se pode mexer em uma simples parede sem tocar no alicerce, e essa discussão ainda rende assunto para muitos debates.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Eu + Tu + Ele/ELa + Nós + Vós + Eles/Elas = Eu


Pois é, viver sozinho, incomunicável e isolado de tudo e todos é praticamente impossível, ao menos em 100% dos casos. Impressionante como seres sociais, que dependemos do outro nas grandes e também nas pequenas coisas, não conseguimos subsistir unicamente com nosso próprio auxílio. Vivemos em uma intrincada rede social que tanto pode abranger nossos parentes mais próximos como aquelas pessoas que vemos nas ruas e provavelmente nunca mais tornaremos a botar os olhos. Seríssimo isso; ou seja; não dá pra fundar uma comunidade alternativa e a partir de então se autodenominar um remanescente hippie, vestindo longas batas, queimando incenso, sobrevivendo do artesanato e rejeitando quaisquer valores da socieade de consumo. Não existe nada tão a padrões que fuja de todas as teorias sociais percebidas até então. Pois para que possamos obter tais produtos precisamos desse tão maldito capitalismo, que abominamos muitas vezes mas que nos vemos reféns ao ver aquela roupa na vitrine da loja em promoção, 5 vezes no cartão. Olha que tentação, cabe no meu orçamento, deixa eu fazer as contas de cabeça pra saber quanto pagarei por mês.
Ao mesmo tempo em que podemos estar no meio da multidão, estaremos sozinhos, nus, desarmados em meio à massa em que todos deixam de ser únicos e passam a fazer parte do coletivo, do todo, como uma célula em um grande corpo denominado sociedade. É o meu papel nela vender a minha mão-de-obra em uma jornada de trabalho que não é a que eu gostaria, desempenharei uma função ou várias que não são aquelas às quais almejei, e receberei um salário aquém as minhas expectativas. Enfim, nesse ambiente de trabalho (ou seria tortura?), vou me defrontar com muitas pessoas, e delas não posso escapar. Estão no meu subconsciente assim como meus mais íntimos segredos aos quais não compartilho nem comigo mesmo. Mas nem por isso deixaremos de ser solitários, temerosos, queixosos, indagativos, questionadores do que somos e do papel que representamos nessa imensa teia social. Quantas vezes penso em pessoas que conheci em algum momento da vida e nem me lembro mais seu rosto, o que fazem atualmente nem sei se ao menos estão vivas. O que faz com que pensemos nas coisas mais absurdas nos momentos mais impróprios?
Posso dizer em qualquer momento, gritar em praça público ou apenas sussurrar a mim mesmo: deixem-me só, esqueçam da minha existência, eu não estou nem nunca estive nesse mundo, estou pegando um avião (olha o capitalismo de novo, eu trabalhando pra pagar aquela passagem da TAM em prestações) e irei morar no Nepal, virei budista e fiz voto de pobreza, dentre outros, o voto de pobreza compulsório já fiz há muitos anos. Mas não adianta, eu existo, e isso já me marca, faz com que em algum momento o meu vizinho de infância se lembre por minutos do meu nome, do meu rosto, do que brincávamos, ou qualquer outra coisa. Ou pode acontecer o reverso, eu posso lembrar da minha professora da 1ª série, da bronca na aula de Português, do modo como ela me fazia pegar no lápis, etc e etc. Fica por sua conta imaginar o que porventura lembraria eu dessa professora.
Ou seja, não consigo me desvencilhar dessa imensa teia social que me marca desde o nascimento. Se eu quisesse não poder compartilhar de nada disso, bastaria que eu não houvesse sido concebido, mas isso foge à minha alçada. Então, só me resta lamentar e recordar. Vai uma bebidinha aí?

terça-feira, outubro 03, 2006

Geração perdida


Sou um apaixonado pelos anos 60. Essa década foi mágica e quem a viveu sabe disso muito melhor do que eu, que sou fruto dos anos 80, com sua moda considerada totalmente out para os dias de hoje, sucessivos planos econômicos, redemocratização e sucessivamente valores inflacionários astronômicos. Quem viveu entre 1 de janeiro de 60 e 31 de dezembro de 69 sabe que não se passou incólume por tudo que se vivenciou ali, e não se pôde ser 100% cidadão passivo da história, ali todos participaram e contribuíram de alguma forma para que nunca mais se esqueça o que foram esses anos maravilhosos e por que não dizer inesquecíveis. A construção de Brasília, a crescente industrialização do Brasil, o êxodo rural, a UNE, o CPC, as Ligas Camponesas, a contracultura, o movimento hippie, o rock psicodélico, o assassinato de ohn Kennedy, a morte de Marylin Monroe, Os Beattles, Mutantes, Bossa Nova, a chegada do homem à Lua, o Golpe de 64, os Movimentos Estudantis que pipocaram país afora principalmente entre 64 e 68, Mary Quant e a invenção da minisaia, os festivais de música da Record que revelaram grandes talentos como Elis Regina, Nara Leão, Quarteto em Cy, Geraldo Vandré, Chico Buarque e Caetano Veloso, dentre outros, o movimento pelo reconhecimento do negro nos Estados Unidos, a pílua anticoncepcional, os rapazes de cabelos compridos, as moças com suas saias muitos centímetros acima dos joelhos, a geração beatnik, a primavera de Praga, maio de 68 em Paris, a Jovem Guarda com sua Ternurinha e Erasmo Carlos, o Teatro Opinião com Maria Bethânia e depois Nara Leão cantando Carcará, o Teatro de Arena com suas peças de contestação ao golpe, a nossa primeira telenovela moderna (Beto Rockfeller), a invasão ao Teatro Roda-Viva e espancamento dos atores em pleno palco, o famoso congresso da já clandestina UNE em Ibiúna (SP), claro que em 68....Nossa, quanta coisa aconteceu nesse período, e como eu adoraria ter vivido isso tudo, e principalmente ter participado das manifestações estudantis que eram contrárias ao regime militar. Eu sinto saudades do que não vivi, como isso pode acontecer?
Hj eu assisti um documentário chamado Sol - Caminhando contra o vento, produzido pela cineasta Tetê Moraes, que até então me era desconhecida. Ele se baseia em um jornal esquerdista produzido em 67 pelos jovens intelectuais do Rio de Janeiro de então, e faziam parte da equipe pessoas tarimbadas como Fernando Gabeira, Henril, Ruy Castro, Ana Arruda, os próprios Chico Buarque e Caetano Veloso, e tantos outros que não sabia quem eram, e omito os nomes pq sou péssimo para guardar nomes na primeira vez em que ouço. Esse jornal tinha a proposta de reflexão e principalmente denúncia das mazelas sociais sem tanto formalismo, o compromisso ali era com a verdade nua e crua, seja ela qual fosse. Mas não posso deixar de mencionar a importância de todos eles no sucesso desse maravilhoso veículo da imprensa que infelizmente viveu somente de setembro de 67 à dezembro de 68, sendo extinguido aos poucos com o famigerado AI-5. Percebi que eram jovens idealistas, sonhadores, preocupados com os rumos que esse país tomava e principalmente mudar esse mesmo destino, sendo que o socialismo naquela época estava em voga, a União Soviética ampliava seus domínios a largos passos.
Foi uma geração que foi às ruas, não teve medo de doar seu único bem, a vida, em prol de um ideal. Muitos foram presos e torturados, outros exilados, alguns faleceram e outros tantos caíram no caminho do então ácido lisérgico (LCD), ou outras drogas mesmo; ou seja, o destino não foi bondoso com todos que participaram desse jornal.
Quando vi a imagem da invasão da Faculdade de Filosofia da USP, que ficava na rua Maria Antônia, em São Paulo, e vi aqueles jovens, rapazes e moças ainda, com seus vinte e poucos anos, apanhando de cassetete dos policiais e ainda assim firmes e fortes, eu pensei: a que ponto a nossa juventude chegou, que anestesia foi essa, provavelmente espalhada pelo ar, que amorteceu a famosa contestação da idade, a vontade de mudança, a esperança de dias melhores? Aonde está aquela famosa mocidade que não aceitava os padrões impostos? Não há mais nada a mudar, já está tudo pronto? Será que o sangue derramado há quase quarenta anos atrás redime a nossa omissão pelos escândalos petistas e o capitalismo selvagem que cada vez mais e mais aumenta o fosso entre os grandes concentradores de renda e a imensa massa despossuída? É momento de reflexão, mas muito séria, para os rumos que esse país e principalmente, antes de tudo, a nossa consciência está tomando. Não digo para ninguém de uma hora para outra se enfiar no meio do mato e virar reacionário. Eu falo da chama que esse os intelectuais desse jornal, mas de toda essa década nos legaram, e nós estamos colocando água, dia após dia, até que chegará o momento em que essa luz se apagará e todos nós ficaremos nas mais absolutas trevas. E esse dia está por vir. Aí todos nos guiaremos pelas paredes e vamos nos perguntar o que fizemos de errado. Mas a nossa consciência nos dirá o quanto fomos imbecis e passivos perante a realidade à nossa frente, e que por comodismo não nos preocupamos em observar. Mas aí já será tarde demais. A luz nunca mais voltará.

quinta-feira, setembro 28, 2006

E agora, José?


José, João, Quinzinho, Amadeu, Madalena, Helena e tantos outros vêem diariamente seus sonhos interrompidos por uma realidade muito mais forte do que ideologias ou simples devaneios de uma noite de verão. Como eu era feliz no tempo em que nem imaginava no que ou em quem me transformaria futuramente, aliás, no que me transformei que nem sei explicar? Sou alguém, venci, perdi, me transformei, ou continuo o mesmo de cinco anos atrás? Como posso ou poderiam me definir? Sei que muitos me vêem como um vagabundo, acomodado, um folgado que não corre atrás de nada e espera que as coisas caiam do céu, e confesso que não tenho feito muito para mostrar-lhes o inverso. Também não sinto orgulho da minha condição, especialmente do meu fracasso, e mesmo do que poderia dizer acerca de eu mesmo, se fosse questionado hoje, neste momento. Imagino todos me apontando com o dedo e me lançando questionamentos que eu realmente não sei responder. Não sei sanar as dúvidas que me vêm à cabeça, quanto menos responder aos demais.
Aliás, alguma coisa eu poderia responder, por mais que eles não entendam o que quero expressar. Durante anos eu alimentei e criei um monstro que me aprisionou, sendo que ele me dominou e não consigo mais me livrar. Esse monstro se autodenomina sonho. Sabe o homem do saco, aquele que levava as crianças que não queriam comer na hora das refeições? Pois é, esse mesmo monstro ou homem me levou a uma dimensão surreal, fora desse mundo visível, e lá me criou, me alimentou da forma mais materna possível, me inculcou ideais que por fim foram a razão da minha existência. Mas abruptamente esse mesmo ser me lançou de novo à esfera terrestre, sem ao menos me deixar seu telefone, endereço ou algo com o qual poderíamos manter contato, nem mesmo o e-mail o canalha teve a pachorra de me escrever.
Aquele era meu mundo, e todas as noites ele me contava histórias de uma existência racional, em que todos os meus devaneios de adolescência se tornariam realidade. Por fim, eu vivi anos a fio com essa doce ilusão de que seria simples, fácil e cristalino como água, eu iria alcançar meus objetivos e finalmente viver uma existência mais real e de acordo com meus sonhos de adolescência.
Mas nada disso aconteceu, e hoje eu me vejo literalmente em um mato sem cachorro, como diz aquela popular expressão. Tenho duas saídas: traio a minha essência e passo a viver em desacordo com as minhas convicções, passando a viver uma identidade falsa e tentando me deslocar do passado ou simplesmente jogo tudo para o alto e tento dar o único fim possível ao meu caso?

sábado, setembro 16, 2006

Leila Diniz


" Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo".
Proferindo essa sentença nos dias atuais, essa frase até que soa banal, mas isso foi dito em 69, ano em que a moral e os bons costumes ainda eram vigentes. Uma mulher que falava coisas dessa estirpe não poderia ser considerada bom exemplo para a socieade. Mas Leila Diniz não queria se preocupar em ser modelo para alguém, ela apenas era e fazia o que achava conveniente sem se preocupar com as convenções sociais. Ela podia romper tabus, ela era Leila Diniz.
Leila nasceu no Rio de Janeiro, em março de 45, e se formou professora primária, sendo então lembrada por ser uma das primeiras moças que se preocupava com a integração dos alunos, sejam elas de quaisquer raça, credo, sexo ou mesmo se fossem deficientes de quaisquer espécie. Ela não aceitava a segregação que era imposta até então, em que os alunos considerados "diferentes" não poderiam conviver com as crianças ditas normais, e algumas vezes brigou com mães de alunos que eram favoráveis a essa prática. Por esses e outros motivos ela se desligou da profissão, e, aos 17 anos, já estava casada com o famoso cineasta Domingos de Oliveira, que lançou recentemente o filme Feminices. Vale lembrar que esta é uma obra realizada com parcos recursos, e mesmo assim diz a crítica que esse é um bom filme, que busca retratar a mulher sob sua própria ótica.
Em 65 ela se separa de Domingos e desde então começa sua carreira no teatro, cinema e televisão. Fez muitas novelas na então nascente Globo, e também na extinta Tupi e Excelsior. Fez tanto papéis de grande expressão, como coadjuvantes e participações especiais. Em 66 filma Todas as Mulheres do Mundo, sendo dirigida já pelo seu ex-marido, e que foi uma das grandes obras-primas da década, servindo como retrato histórico por causa da documentação da Zona Sul carioca de então, já então às voltas com os intelectuais e a agitação predominante nesse bairro da cidade.
Um dos seus grandes sucessos foi a novela Anastácia, da novelista Glória Magadan. Em 67, a teledramaturgia moderna ainda não existia, sendo assim as telenovelas ainda se passavam na Idade Média e seu enredo era melodramático. Mas Leila não era uma mulher preconceituosa. Ela dizia que não importava se era Shakespeare, ou Glória Magadan, o importante era que ela trabalhasse.
E assim o tempo vai correndo, Leila sempre polemizando, sendo uma mulher à frente do seu tempo, sem muitas preocupações com o que diziam sobre seu comportamento de mulher libertina. Ela é um dos grandes ícones dos anos 60 e 70, pela sua atitude ousada e inovadora, e também por ser uma das precursoras do Feminismo, em uma época em que, apesar das transformações sociais, o papel da mulher continuava sendo a de subalterna perante o homem. Eram tempos ainda muito complicados, a mulher ainda entrava no mercado de trabalho e o casamento ainda era almejado pelas moças de boa família, que viam nisso o seu grande propósito.
Eu particularmente só a vi em filmes uma vez (apesar de ser famosa, as obras das quais participou são pouco divulgadas). Foi no filme Edu Coração de Ouro, de 67, em que ela fazia o papel de uma estudante normalista vendedora de catálogo de perfumes, e conhece a personagem de Paulo José no ônibus. Bom, nem é necessário dizer que os dois acabaram indo para a cama, nessa época até os beijos eram muito contidos no cinema, quanto menos uma cena de sexo de uma mulher solteira.
Em 69 concede a famosa entrevista ao então jornal alternativo O Pasquim, proferindo seus pensamentos sobre a vida e principalmente sobre o sexo. Seus palavrões foram substituídos por asteriscos, e a matéria saiu com muitos desses símbolos, pois, em cada frase, ao menos um palavrão ela falava. Ali saíram muitas dos seus famosos ditos que mostravam a forma de pensar e agir de uma mulher avançada. Essa entrevista deu origem à lei que cerceava ainda mais os direitos da imprensa; ela não teve seu contrato renovado pela Rede Globo por motivos "morais" e foi perseguida pela ditadura, tendo de se esconder durante um tempo. Ao voltar, se tornou jurada de Flávio Cavalcante.
Em 71, ela se casa com o cineasta moçambicano Ruy Guerra e pouco tempo depois engravida de sua única filha, Janaína. É famosa a sua foto na praia de biquíni e grávida. Isso era ousado, pois uma mulher na sua condição em condições normais não exporia sua barriga em público. Mas estamos falando de Leila Diniz...
Infelizmente Leila morreu cedo. No ano seguinte, aos 27 anos, ao voltar do Festival de Cinema de Nova Délhi, na Índia, o avião em que estava explodiu no ar. Mas o legado que ela nos deixa de ousar sempre permanece em nós, e inconscientemente nos servimos dele em muitos momentos, principalmente quando questionamos e principalmente divergimos da moral imposta. Salve Leila!

sábado, setembro 09, 2006

Pagu


“Pagú tem uns olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-coco quando passa.
Coração pega a bater.

Eh Pagú eh!
Dói porque é bom de fazer doer (...)”
(Raul Bopp)
São Paulo, 1927. Praça em frente à Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Lá vem uma moça com os lábios pintados de roxo, cabelos desgrenhados, roupas extravagantes para a época e fumando. Ela ouve insultos dos estudantes da faculdade, e responde à altura. Ela quebra as convenções sociais, e não se importa, ela quer mesmo é chocar. Eis Pagu.
Patrícia Rehder Galvão nasce em São João da Boa Vista em 1910, e aos três anos se muda para a Paulicéia desvairada, onde cresce em uma cidade efervescente, em pleno desenvolvimento por causa da imigração em massa, da industrialização crescente e do café que brotava no interior do estado. Com quinze anos, passa a escreve no jornal Brás, usando o codinome de Patsy, e, aos 18 anos, se junta aos modernistas, ficando muito amiga do famoso casal Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, os "Tarsiwald". No ano seguinte passa a colaborar na Revista de Antropofagia, já estando então inserida no meio intelectual da São Paulo ainda provinciana, apesar do rebuliço causado pela Semana de Arte Moderna de 22, que veio a revolucionar a arte que se fazia até então. O Modernismo propunha uma "deglutição" dos valores culturais predominantemente estrangeiros até então em voga, para a criação de uma cultura genuinamente brasileira.
No ano seguinte engravida de Oswald, e, para manter as aparências, se casa com o pintor Waldemar Belisário, mas eles nunca tiveram vida conjugal. Em 5 de janeiro de 1930, ela se casa com Oswald em uma cerimônia realizada no jazigo da família dele, e em setembro nasce Rudá. Mudam-se para a Ilha das Palmas, em razão dos grandes problemas financeiros de Oswald por conta do crack da Bolsa de Nova Iorque. Pagu viaja à Argentina, conhece Luis Carlos Prestes, e fica encantada com os ideais socialistas. O casal então se filia ao Partido Comunista, e fundam o jornal O Homem do Povo, onde Pagu criticava de forma ferrenha a alta sociedade paulistana de então, às voltas com sua opulência, em detrimento dos imensos cortiços operários que se formavam nos bairros fabris da capital.
No ano seguinte, ao participar de um comício realizado no porto de Santos em favor dos operários da construção civil, Pagu é presa e fica detida na cadeia que se localiza na Praça dos Andradas, sendo que hoje este mesmo local é um centro cultural que leva seu nome. Ela foi a primeira presa política do Brasil.
Ao ser solta, em 32, ela se separa de Oswald e vai morar no Rio de Janeiro, onde se emprega em trabalhos "populares" como uma forma de conhecer as necessidades do povo e poder dialogar de forma mais convincente com eles. No ano seguinte, usando o nome de Mara Lobo, lança o romance Parque Industrial, onde conta a realidade do proletariado das grandes cidades, sua miséria, a falta de perspectiva e principalmente a condição da mulher naquela degradação social. Ela então sai pelo mundo para conhecer melhor como era a realidade comunista, e durante a viagem se torna correspondente internacional de alguns jornais. Vai aos Estados Unidos, Japão, China e à então União Soviética, onde fica horrorizada com a realidade totalmente paradoxal da que esperava encontrar no berço do socialismo. Suas palavras: “o ideal ruiu, na Rússia, diante da infância miserável das sarjetas, os pés descalços e os olhos agudos de fome. Em Moscou, um hotel de luxo para os altos burocratas, os turistas do comunismo, para os estrangeiros ricos. Na rua as crianças mortas de fome: era o regime comunista”. Nem mesmo essa forma de regime escapava à praga das grandes elites concentradoras de renda e exploradoras do povo...
Ao voltar ao país em 35, é presa novamente em São Paulo, e sofre as piores torturas na cadeia, sendo condenada a dois anos de reclusão. Pagu foge antes do término da pena, mas é novamente presa e cumpre mais dois anos e meio no Rio de Janeiro. É solta muito debilitada, devido às muitas agressões físicas que sofre lá dentro. Ela nunca se recuperou desse período passado em cárcere.
Em 41, ela se casa com o jornalista Geraldo Ferraz, tem um filho batizado com o mesmo nome do marido. Ela então rompe com o PC e passa a ser crítica literária, trabalhando nos jornais A Manhã, O Jornal,A Noite e Diário de São Paulo.
Nos anos 50 Pagu descobre o teatro e passa a frequentar a Escola de Arte Dramática (EAD), em São Paulo, sendo uma boa aluna e inclusive escrevendo peças de vanguarda, como aliás era bem típico de sua personalidade chocar sempre, e alguns textos foram representados no final daquela década. Também colabora no jornal A Tribuna de Santos.
Em 62 descobre-se gravemente doente de câncer. Ela vai se operar em Paris, sem grande sucesso. Ela então doa toda a sua biblioteca à EAD e falece em 12 de dezembro desse mesmo ano, aos 52 anos. Infelizmente alguns exemplares de sua biblioteca foram roubados nesses 44 anos desde sua morte.
Pagu se foi, as luzes se apagaram sobre uma das maiores mulheres de nosso tempo, que ousou e lutou durante sua vida em busca de um ideal, mas o que importa mesmo é que sua semente foi plantada, e resta a nós continuar a busca pela valorização da cultura nesse país.

domingo, agosto 20, 2006

Nelson Rodrigues


Essas são algumas frases ditas por ele durante sua longa carreira jornalística e teatral:
"Não acredito em mulher honesta sem úlcera, a virtude dá azia, úlcera."
"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico. "
"Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma."
"A adultera é mais pura porque está salva do desejo que apodrecia nela."
"A fidelidade deveria ser facultativa."
"Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém."
"Há coisas na vida do indivíduo que ele não conta nem ao padre,nem ao psicólogo nem ao médium depois de morto."
"Se cada um soubesse da intimidade sexual dos outros, ninguém comprimentaria ninguém."
" A verdadeira posse é o beijo na boca, e repito: - é o beijo na boca que faz o casal ser único, definitivo. Tudo mais é tão secundário, tão fragil, tão irreal."
"A infidelidade é melhor do que a fidelidade ressentida."
Eis o nosso "anjo pornográfico", um homem que chocou no seu tempo pelas suas peças em que revelava o mais despurodrado que há no nosso íntimo e que muitas vezes não temos coragem de confessar a nós mesmos, menos ainda para os outros. Nas décadas de 40 e 50, em que moça não andava no carro de um rapaz solteiro sozinha, mulher não se entregava antes do casamento, motel era inexistente e encontros amorosos eram realizados no apartamento emprestado pelo amigo, ele chocou ao falar tão abertamente sobre sexo em uma sociedade que ainda tratava do assunto como sendo de outro mundo.
Nelson Rodrigues nasceu no Recife em 1912, em uma família de considerável poder aquisitivo e cujo pai já trabalhava na imprensa local. Aos 3 anos, seu pai se muda para o Rio de Janeiro por problemas de envolvimento político na sua terra natal, e leva a sua família junto algum tempo depois de instalado na então capital federal. É lá, durante a sua infância, que ele começa a observar o ambiente suburbano que daria inspiração para suas obras de caráter transgressor: os velórios feitos em casa, as senhoras solteironas e ressentidas, os maridos que sabiam das traições de suas esposas e nada faziam, as parteiras realizam seu serviço nas casas mesmo, as fofoqueiras nas janelas que viviam a vida observando seus vizinhos e funcionavam como uma espécie de rádio comunitária; enfim; tudo o que era usual e até hj em certo grau se encontra nas periferias de nossas grandes cidades. Não por coincidência que nas suas obras seus personagens do subúrbio vivam invariavelmente na chamada Aldeia Campista.
A vida de Nelson não foi um mar de rosas. Não foi somente uma vez que sua família viu-se em maus lençóis financeiros provocados por muitas razões. Começa a trabalhar aos 13 anos como repórter policial ganhando uma ninharia, mas fez disso seu ganha-pão durante toda a sua vida. Viveu durante anos a fio com muita humildade, a ponto de passar necessidade. Também sofreu de tuberculose, em uma época em que os recursos médicos eram mais escassos e, sendo assim, os doentes dessa moléstia iam tratar-se em colônias localizadas fora das cidades, no caso dele tendo sido internado duas vezes em Campos do Jordão (SP). Em 29 seu irmão Roberto foi assassinado por uma mulher da alta sociedade carioca que não gostou de ter visto publicada no jornal uma notícia sobre seu desquite. Isso provocou uma grande depressão em Nelson. E também ele teve uma filha chamada Daniela, isso algumas décadas depois, com graves problemas físicos e que por isso nunca pôde viver em sociedade e faleceu cedo.
Em 43 soube da notícia de que textos teatrais eram razoavelmente pagos, então ele teve a idéia de começar a produzir os seus como forma de aumentar seus rendimentos, o que ele sempre buscava fazer. Nascia asim um grande marco do teatro moderno, a peça "Vestido de Noiva". A peça foi encenada no Rio de Janeiro nesse mesmo ano sob a direção do diretor e ator polonês Ziembinsky, homem de muito conceito em seu meio. Não somente o texto, mas a própria cenograria era considerada por muitos uma loucura na época. Os jogos de luzes, os três tempos em que a peça se passava: a realidade, o delírio e a lembrança, fora o texto em si, tudo contribuía para que aquele momento fosse um divisor de águas no nosso teatro, que até aquele tempo nunca havia visto tal requinte e profissionalismo. "Vestido de Noiva" conta a história de Alaíde, moça que é atropelada e durante a operação para salvar sua vida se vê as voltas com uma confusão mental provocada por lembranças que ela não sabe distinguir se são reais ou fruto de sua imaginação. Ora se vê procurando e conversando com Madame Clessy, prostituta carioca do início do século XX assassinada pelo seu amante de 17 anos, ora se recorda da traição que sofreu do noivo com sua irmã Lúcia.
Outras peças de sua autoria são: O Anjo Negro, Engraçadinha (transformada em minissérie pela Globo em 95), Toda Nudez Será Castigada, Álbum de Família, A Falecida, Valsa nº 6, Dorotéia, Os Sete Gatinhos, Boca de Ouro, A Mulher sem Pecado, Senhora dos Afogados, dentre outras, sem contar suas crônicas de "A Vida como Ela é", seus livros escritos sob o pseudônimo de Suzana Flag, suas crônicas sobre futebol e outras coisas que desconheço. Nelson faleceu em 80, sendo que boa parte de sua obra já saiu dos livros e jornais para ser transportadas para a televisão e cinema.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Revista Realidade (1966-1976)


Criada pela Editora Abril em 66 com a intenção de formular uma revista mensal com uma nova linguagem, surge a Realidade, que veio revolucionar o mercado editorial de então. Em um país de menos de 90 milhões de habitantes, aproximadamente 45% da população analfabeta e o Brasil somente ultrapassando a população morando nas áreas urbanas da rural em 70: pois mesmo com esse quadro a revista chegou a ter uma tiragem de aproximadamente 1 milhão de exemplares.
Formulada com base no new journalism,criação norte-americana que havia sido lançada mais ou menos na mesma época de lançamento da revista, ela tinha como intenção o "mergulho" do répórter na matéria a ser escrita, uma vivência real daquilo que estava sendo redigido, para uma maior fidelidade do conteúdo desta. Essa era uma das bases do new journalism, a profissionalização do jornalismo, que até então era feita de uma forma bastante arcaica e com a utilização de muitas fotos e novo planejamento gráfico, mas sem perder a qualidade do que seria veiculado.
Com equipe de alto gabarito, composta por repórteres e fotógrafos, dentre outros profissionais, como José Hamilton Ribeiro, Paulo Patarra, Nelson di Rago, Paulo Henrique Amorim, Cláudia Andujar, David Drew Zingg, Geraldo Mori (que veio a ser assassinado em circunstâncias misteriosas em 68 por motivos por algum tempo desconhecidos), e com a colaboração também da grande jornalista italiana Oriana Fallaci, encarregada pelas matérias polêmicas de conteúdo internacional. Oriana quase morreu ao cobrir uma passeata no México também em 68, onde foi baleada próxima à espinha e presa.
A revista circulava mensalmente e teve algumas matérias que entram para a nossa história pela sua riqueza de detalhes, sempre com o repórter vivenciando ativamente aquela realidade. Merece menção a edição de janeiro de 67, que tinha como tema "A Mulher Brasileira de Hoje". Essa revista foi apreendida pela Justiça, sendo acusada de atentado ao pudor pelo conteúdo altamente inovador para a época. Sendo assim, poucos exemplares desta se encontram disponíveis. A edição contava, dentre outras matérias, com uma entrevista com uma moça de 20 anos que era mãe solteira e se orgulhava de sua condição (o que naquela época era considerado absurdo, pois a mãe solteira era execrada pela sociedade e classificada como prostituta); três depoimentos de mulheres desquitadas e como eram suas vidas sob essa condição, não se esquecendo de citar que o divórcio só seria aprovado em 77 e que mulheres desquitadas também era pessimamente vistas pelos olhos da moral vigente no período; a história de uma mulher que há vinte anos comandava uma empresa de confecção de calças femininas em São Paulo, lembrando que naquela época não era ainda comum encontrar mulheres em cargos de alta chefia no país; e a entrevista com a atriz Ítala Nandi, que deu suas opiniões acerca do amor, do seu casamento que não deu certo, de sua vontade de ser mãe apesa de ser separada, da virgindade antes do matrimônio, dentre outras afirmãções consideradas bombásticas. Isso sem esquecer da matéria instrutiva contando aos leitores nos seus pormenores como funcionava o sistema reprodutor da mulher.
Também merece ser citada a edição especial de Agosto também de 67, que tinha por tema a juventude brasileira da época. Já naquela época, os jovens tinham acesso ao pensamento estrangeiro em voga nos anos 60, a contestação social. Era a época da minisaia, dos rapazes de cabelos compridos, da psicodelia, da Jovem Guarda, dos Festivais da Tv Record, das drogas como o LSD, dentre outras inovações. Questionários distribuídos juntamente com a revista do mês anterior e que foram enviados de volta pelos leitores dessa faixa etária nos mostram o quanto a sociedade estava em choque; sendo que, de um lado estavam os contestadores de menos de 30 anos; de outro ainda a velha sociedade patriarcal. E alguns repórteres foram viver como alguns desses jovens: um deles se encarregou de viver um jovem operário de uma fábrica na periferia paulista, outra foi trabalhar como bancária também em São Paulo, outro foi conhecer os sonhos e a realidade da juventude no interior do país e mais outro foi vivenciar o cotidiano do jovem camponês em uma cidade no interior baiano. Disso saíram matérias que infelizmente não se vêem mais na imprensa contemporânea.
Em dezembro de 68, veio o AI-5, que cerceava as liberdades da imprensa. Acabava assim o breve período de ouro da revista Realidade. Ela ainda se manteve na ativa até 76, quando, por não poder discutir abertamente os assuntos necessários ao Brasil, e com a concorrência de revistas como a Veja, lançada em 68, e a Isto É, também de 76, se viu obrigada a fechas as portas já com muito do seu prestígio esquecido.
A revista mesmo depois dessa época teve muitas matérias de ótima qualidade, e com certeza ainda poderia citar alguns outros exemplos. Mas de qualquer forma vale lembrar o quanto essa revista foi importante na construção de uma imprensa moderna e atuante, e que esse exemplo possa ser seguido sempre que possível pelos nossos veículos de comunicação atuais.

sábado, agosto 12, 2006

Carcará



















Carcará
(João do Vale e José Cândido - trecho inicial: Missa Agrária, de Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri)
(Glória a Deus Senhor nas altura
E viva eu de amargura
Nas terra do meu senhor)
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome

Carcará
Mais coragem do que homem
Carcará
Pega, mata e come

Carcará
Lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião

Carcará
Quando vê roça queimada
Sai voando, cantando,

Carcará
Vai fazer sua caçada
Carcará come inté cobra queimada
Mas quando chega o tempo da invernada
No sertão não tem mais roça queimada

Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Carcará é malvado, é valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andá
Ele puxa no bico inté matá
1950. Mais de dois milhões de nordestinos viviam fora de seus Estados natais. 10% da população do Ceará emigrou. 13% do Piauí; l5% da Bahia; 17% de Alagoas.

Carcará
Pega, mata e come!

Essa música foi interpretada por Nara Leão pela primeira vez no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, em 64, logo depois do Golpe Militar. Nara Leão era uma das musas da Bossa Nova e havia se revoltado com o movimento por este ser formado essencialmente por jovens da Zona Sul carioca das classes mais abastadas, que cantavam músicas exaltando o mar, o sol, as belas mulheres cariocas, se esquecendo do restante da realidade. Que aliás era bem diversa da cantada pelos seus intérpretes. Apesar disso, a Bossa Nova foi um grande sucesso e levou a música brasileira ao exterior, como por exemplo a famosa canção "Garota de Ipanema", que exaltou Helô Pinheiro ao cargo de musa e consagrou o nosso Poetinha, Vinícius de Moraes, falecido em 80.
Nara Leão foi substituída no ano seguinte por Maria Bethânia, que havia acabado de chegar à cidade vinda de sua terra natal, Santo Amaro da Purificação, na Bahia. Maria Bethânia deu uma interpretação mais vigorosa dessa música, que se utiliza do pássaro cárcara; encontrado em abundância no sertão nordestino; fazendo uma analogia entre o animal e o sofrimento do povo do Nordeste em busca de uma vida melhor.
Não irei me aprofundar sobre o Teatro Opinião porque a minha intenção é falar o que senti ao ouvir essa música, e também porque me falta conhecimento, fora que, mesmo sendo um assunto recente, não existe muito material disponível para se falar sobre esse que foi uma das primeiras reações à ditadura militar, ainda na era pré AI-5, ou seja, havia uma certa liberdade para se contestar o regime.
Por mais que se fale que não, existe um preconceito muito grande em relação aos moradores que vivem no território brasileiro acima do estado de Minas Gerais (falando geograficamente pela minha ótica de cidadão nascido e criado no estado de São Paulo). Algumas partes do estado se referem a eles como Ceará, Paraíba ou baiano, generalizando uma população muito grande que provém de áreas muito diferentes do nosso Nordeste.
Desses 42 anos pra cá, desde que essa música começou a ser veiculada, a situação dos retirantes não se alterou tanto assim, se bem que de uns anos pra cá a migração tem diminuído consideravelmente, até porque São Paulo não tem mais aquele dinamismo econômico encontrado até a década de 80 e muitas indústrias se mudaram da região. Mas o que importa mesmo é refletir sobre a condição desse povo, que mora em uma região do país extremamente esquecida pelos nossos governantes e que tem índices sócioeconômicos alarmantes. DOm Pedro II já falava nas secas que assolavam o Nordeste no século XIX, e realmente pouquíssima coisa foi feita para reverter a situação de um povo forte, que não se rende às condições da natureza e sempre tem a esperança de que esse vai chover e eles vão poder ter um pouco mais de conforto.
É impressionante como em pleno século XXI ainda não se tenha utilizado formas de se servir da tecnologia em benefício daquela população, mesmo pela simples perfuração de poços ou outras medidas mais custosas, mesmo assim extremamente necessárias. Ou melhor, a grande explicação para isso está nos nossos governantes, pois, por mais que se diga que não, o coronelismo político ainda é fortíssimo na região, principalmente no interior desses estados. Deputados, senadores, governadores e tantos mais nomes pomposos para designar homens e mulheres que estão na alta esfera do poder teoricamente para ajudar o povo que o elegeu a estar lá. Mas o que se vê são que eles se utilizam dos recursos do povo em benefício próprio, aumentando ainda mais o fosso que separa a pequena classe social que detém um grande percentual da riqueza do nosso país da grande massa despossuída. Em contrapartida, a seca ainda destrói a vida de milhares de nordestinos diariamente.
Estamos em época de eleições. Sei que uma andorinha só não faz verão, mas espero que cada um de nós cumpra realmente seu papel como cidadão e não encare mais essa ida às urnas pensando "do que adianta, nada muda mesmo", pois, pensando dessa forma, estaremos perpetuando a desgraça desse população (e a nossa também, é claro) e fazendo com que essa elite continue no poder minando os nossos recursos e condenando os nordestinos ao contínuo ciclo de miséria. Que não nos esqueçamos dos Antônio Carlos Magalhães, José Sarney, Fernando Collor de Melo e muitos outros que há muitos anos comandam seus estados e não permitem que a população desses locais tenha esperança de melhores dias.

terça-feira, agosto 08, 2006

Zuzu Angel


Ontem fui ao cinema assistir Zuzu Angel, um dos grandes símbolos de uma das épocas mais malditas e sangrentas da nossa história, a famigerada ditadura militar. O filme por si só é bem didático, mas carrega em si toda a simbologia dessa época tão fascinante pra mim, principalmente na cena em que seu filho, Stuart Angel, fala junto com sua namorada sobre a revolução do povo e para o povo, que o capitalismo deveria ser combatido e estava em decadência. Era questão de tempo para a tomada do poder pelo proletariado, era o sonho de uma nova revolução cubana em solo brasileiro. Eram jovens sonhadores, que morreram por uma causa.
Mas o interessante mesmo no filme foi a vida de uma mulher que até que a questão da tortura batesse na sua porta não se preocupava com isso, dizia que não tinha tempo pra política. Mas quando seu filho foi preso e morto pelos militares a coisa mudou de figura. Da mulher que apenas se preocupava em fazer moda para o exterior e sobreviver da sua alta costura, passou a ser uma mulher engajada que lutou até a sua morte, cinco anos depois da de Stuart, pela justiça e ter ao menos o direito de poder enterrar seu filho (o corpo dele foi jogado ao mar e nunca foi achado).
Nos vemos em 1971. Zuzu já conquistou o mercado norte-americano com sua moda alegre e festeira. Mas após a morte de seu filho ela resolveu se servir dos instrumentos à mão como meio de denúncia do que realmente estava ocorrendo no nosso país. Roupas negras, com desenhos que nos davam a sensação de angústia, prisão. Foi assim, dentre outras formas, que ela denunciou e pagou com a própria vida por não ter medo dos militares. A conquista da Copa de 70, o milagre econômico, a construção da Transamazônica, da ponte Rio-Niterói, esses e outros artifícios usados pelo governo militar pra encobrir o que realmente estava acontecendo, a tortura e a morte de muitos reacionários em plenos quartéis, com apoio total e irrestrito dos grandes mandachuvas de Brasília. Assim muitos homens e mulheres perderam suas vidas nas mãos de uma corja tão maldita que não merece nem ser classificada como humana. Enquanto a população vivia sua vida normalmente, com apenas alguns sobresaltos como assaltos a bancos ou blitz rotineiras, a guerrilha urbana e mesmo a do Araguaia comia solta pelo país, sem grande apoio popular.
Zuzu Angel morreu assassinada em 76, no dia 16 de abril, às duas da madrugada, na saída do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro. Seu carro capotou após ser impedido por um automóvel com militares e ela teve morte instantânea. Durante 22 anos a resposta que se deu foi a de que ela dormiu ao volante, mas a família sempre soube que essa versão era mentirosa.
O importante é que tanto a sua morte como a de tantos outros não tenha sido em vão, que nunca nos esqueçamos desses que lutaram tanto para que hoje possamos ter essa liberdade que mal sabemos aproveitar. Sim, porque de certa forma ainda temos liberdade, pois com muito menos do que isso uma geração inteira fez história.
E o principal de tudo é que não nos curvemos a senhores que por estarem fardados e representarem o Exército, Marinha ou Aeronáutica se julguem os senhores absolutos da verdade. Que a ditadura nunca mais tenha lugar nesse país.



Filme Zuzu Angel

segunda-feira, julho 31, 2006

Parece que é estranho não se perguntar quando nem onde, se o que mais faço é justamente me perguntar isso. Citar frases de Clarice Lispector pra falar sobre eu mesmo parece coisa de pseudointelectual ou quem queira se achar um, na realidade até eu seja mesmo e fique botando banca colocando frases bonitas que mal entendo o sentido. Mas é que realmente algumas coisas dela, ou muitas, descrevem bem o que sinto naquele momento, poucas vezes vi descrito em frases o que eu gostaria de dizer mas nunca acho as palavras certas, provavelmente por não saber como me expressar.
Como eu posso falar em poligamia se os outros ainda vêem a traição como coisa de outro mundo e dizem que quem trai não ama? Mas eu dissocio e sim sexo de amor, se bem que tem muitas diferenças entre praticá-lo com ou sem amor, isso assumo. Mas o desejo é inerente à condição humana, sentimos desejos mesmo inconscientemente e em momentos impróprios, e negar esse fato é negar nossa condição de seres humanos. Quem nunca traiu provavelmente não foi por falta de vontade, e sim por pressão social e medo das consequências. Mas se todos nós sentimos desejo por pessoas que não sejam aquela com quem nos relacionamos, por que então continuar monogâmicos, sendo que a nossa natureza é justamente a contrária? Não seríamos mais satisfeitos e menos neuróticos se déssemos vazão aos nossos instintos e nos preocupássemos menos com o que os outros vão falar?
Se o sujeito quiser se relacionar da forma tradicional, faça da forma como bem entender, mas devemos ter a liberdade também de relações menos convencionais, ou seja, sem o compromisso da fidelidade. Que sejamos fiéis no amor, não no desejo (até pq ser fiel em pensamento é impossível, atire a primeira pedra aquele que nunca traiu ao menos dessa forma).
Enfim, por uma sociedade menos hipócrita e mais livre de preconceitos bobos.
Já diria nosso grande Nelson Rodrigues, "Se todos nós soubéssemos a intimidade sexual de cada um, ninguém se daria bom dia."

sexta-feira, julho 21, 2006


Outro dia desses, estava conversando com uma nova amiga virtual, a Denise, que mora em Valparaíso, cidade na região de Araçatuba, e me veio à mente uma tira em quadrinhos que servia como exercício de um livro de Português da época de escola. Na tirinha, existiam duas simpáticas galinhas, e uma delas dizia à sua amiga que seu lema era "Pão, pão, pão, pão", ao que a outra estranhou e a indagou, na típica curiosidade galinácea: - Mas o certo não seria pão, pão, queijo, queijo?, no que a colega respondeu que sim, mas o queijo estava acima de suas posses. Pois é, fiquei me perguntando quando relembrei dessa cena: qual será o nosso queijo, o que afinal de contas que precisamos deixar pra trás em favor da nossa sobrevivência? Não me refiro somente a bens materiais, já que a galinha se referia exclusivamente às suas condições financeiras, que não lhe dava oportunidade de poder rechear seu prosaico pão.
Falo de algo a meu ver muito mais profundo, dos sentimentos que estão no nosso íntimo e que alguns se percebem dele mais facilmente do que outros, enquanto outros o mascaram durante muito tempo e nem se dão conta, negando a si mesmo e fechando os olhos frente a uma realidade nem sempre agradável. Afinal, quem, ou o que somos e para que estamos aqui? Todos nós, ao menos em algum momento da vida, nos deparamos com essa pergunta, nada tão complexo nem fora da realidade assim. Quais são seus sonhos, suas frustrações, seus desejos, seus amores, suas ânsias, o que lhe faz chorar, sorrir, xingar; enfim, o que te faz ser você? Qual é o seu queijo, não importando aqui se é prato, parmesão, cheddar ou ermenthal?