sábado, maio 30, 2009

Recado para o Fabrício Carpinejar


Fabrício, sente aqui que eu preciso chamar-lhe às falas. A questão é a seguinte: sinto-me o mais boçal dos seres viventes quando tenho em mãos algum texto seu. Como se eu nada tivesse vivido e muito menos algo experimentado. Você consegue fugir do lugar-comum quando se fala em amor, tema tão surrado e exaustivamente destrinchado. Como se o ato de amar fosse quase que exclusivamente para a sua pessoa sensação única e exclusiva, com todas as suas dores e delícias. Por sua causa, sinto-me canalha e putrefato, por ter me rogado a viver alheio a terreno tão frutífero e minado.

Com Fabrício me vi cego, surdo, mudo e leproso. Eu não sei ver, não sei sentir, não sei tocar, falar muito menos existir. Sem passado, presente e futuro. Olho para suas palavras e me vejo olhando para o infinito, como se vivesse em uma redoma de vidro e não tivesse me obrigado a existir desde sempre.

Você me dói, Fabrício Carpinejar, como cacos de vidro cortando fundo minha carne. Como forma de protesto, aqui vai um texto que sou eu, indissoluvelmente. Irremediavelmente esse texto é o meu espelho.

E mais uma ameaça: se eu vivesse no Rio Grande do Sul, eu moraria provisoriamente na sua casa. Levaria um colchão, caderno e algumas canetas. E só sairia de lá com um certificado com sua assinatura registrado em cartório e com algumas testemunhas corroborando que lá estive. Pois não se pode mais ser o mesmo depois de Fabrício Carpinejar.


Não ser amado


Passa-se da idade de casar, como se houvesse idade para isso. Passa-se da idade de ter filhos.Suporta-se o desespero de guardar um cheque em branco assinado com o temor de nunca descontá-lo.
Quem colocou limite em nosso tempo?
Regulamos a nossa vida em comparação com as outras, desde a infância até a maturidade, desde o jardim até o asilo. Semelhante a dirigir com o velocímetro quebrado e comparar o que se anda pelos demais carros.
O ritmo não pode ser imposto por fora.Convence-se de que não se é amado.
Não ser amado é pior do que ser invisível. É narrar o que faltou acontecer. Fica-se grávida da vida que não se teve. O peso de um corpo que sequer existiu para continuá-lo em pensamento.
Não ser amado é pior do que ser invisível. Pois nascer não é o bastante para ninguém.
Não ser amado é o mesmo que carecer de pálpebras.É o mesmo que sofrer uma insônia parcial, somente nos ouvidos. É chamar atenção para as virtudes quando os defeitos não param de falar.
Não ser amado é pior do que ser invisível. As portas do guarda-roupa são as venezianas que espreguiçam a casa, e nada é suficientemente justo para dar folga à alegria.
Não ser amado é não encontrar cintura para as palavras. É um castigo mais severo do que o ódio. É mais grave do que esquecer.
Não ser amado é perder a possibilidade de contestar o próprio destino. É morrer de uma saúde incurável. É participar do mundo como se ele estivesse sempre por ser criado. É colar o fogo porque não há carta para ser queimada.
Não ser amado é se diminuir para dormir, se aquietar no almoço familiar, não mudar a assinatura de adolescente. É pular os fatos por não fazer parte deles. É sentar em uma escada para não cair em falso. É não levar uma foto 3x4 na carteira.É correr o domingo para chegar na segunda.
Não ser amado é um crime que não se teve culpa, um castigo que errou de irmão. É voltar aonde não se esteve.
Não ser amado é concluir que o final poderia ser diferente se tivesse havido um começo.É escolher tudo na vida para contar com receio de faltar história. É a velhice avançar sem trazer vergonha; é a velhice avançar com a indiferença ao colo. É voar como um pássaro e ser chamado de morcego. É gastar o parapeito da janela mais do que a porta.
Não ser amado é acreditar que o amor significa apenas receber.




sábado, maio 23, 2009

Sobre o Olhar




Quando olho, muitas vezes calo-me, mas mesmo assim digo alguma coisa. Não verbalizo, mas exprimo. Faço, quero, desejo, sou, estou. Olhando digo muitos quereres. Somente eu não, mas todos nós homens e mulheres de boa vontade que precisamos de algo que muitas vezes não sabemos dizer com o uso da palavra, mas que ao piscar é expresso da forma mais sutil. A palavra falta, mas o olhar abunda. Abunda sobre o céu, a terra e em tudo que neles há. Inclusive nós, que desejamos o outro com o olhar. Lascivo, pidão, incipiente, quente, terno, fugaz. Olhamos mesmo quando o que vemos não é do nosso agrado. Olhando com olhares tantos quantos sejam os moradores de nossa cidade. O que tu vês não é o mesmo que vejo eu, sendo que falo das mesmíssimas coisas que aparentemente não tem o porquê de serem vistas de forma diferentes. Mas ser humano também é ver só o que se deseja. O que se espera. O que não se tem. O que se poderá ter em um futuro não muito longínquo. O que são apenas delírios sem o dormir. Ver com olhos de crianças, adultos e idosos. Até mesmo ver com os olhos do animal manso e doce que nos pede carinho. O animal não sabe dizer-nos: Me afague. Mas sabemos seu desejo quando olhamo-nos os dois com cumplicidade.

O amante não precisa muitas vezes dizer que ama, mas ele apenas pisca, com as pestanas em brasa. O ser amado sabe nos olhos contém amor. E quem odeia também não diz, pois dizer seria somente exclamar o que está sendo mostrado de forma muito mais voraz com o olhar. Olho para a câmera que me fotografa como se soubesse que além do corpo estou desvelando a alma com meus olhos. Soubesse não, olhando estou demonstrando que assim sinto. Assim me revolto e assim me condôo por tudo ver e nada poder omitir. Quando vi que poderia ver muito mais do que assim imaginava, me vi vendo o sobejo, o exagero. Exageradamente olho as pessoas procurando em seus olhares o que sejam meus olhos.

Mas olhar não pode ser encarado de forma automática, penso eu na mais muda ignorância que não é expressa na palavra. Até porque o olhar nunca se esgota, e está em ciclo eterno de delicada transformação. O olhar me faz, o olhar faz você, o olhar faz todos nós pedintes de um olhar mais crítico. Eu vivo, portanto vejo. O passante ao meu lado, as árvores, carros, prédios e gatos refastelados na calçada. O que me impressiona não é o simplesmente ver, mas como se vê. A posição que se toma perante o privilégio. Sendo assim, deliciem-se ou doem-se com os olhos. Que tanto pode alimentar quanto nos fazer mais famélicos do que comumente somos.

Talvez no dia em que souber como olhar eu seja mais pleno, mais completo. Talvez eu olhe para dentro com menos acidez e mais doçura.

terça-feira, maio 19, 2009

Sobre o Vôo


- Eu quero voar!!!!!!!!!! Já estou farto dos desenganos que me traz o chão pedregoso, quero tocar nas asas das aves e experimentar uma sensação de liberdade nunca antes vivida. Eu quero mais com o que me contentar, eu quero ter muito mais para poder sobejar, forrar os bolsos, distribuir aos meus colegas. Eu quero a ganância do sobrar. Quero ter o ímpeto de espalhar sementes no chão antes da chuva e ser o responsável pelo criar. Quero deitar na cama e ter ao meu redor o sobejo. Quero lambuzar a mim e aos outros desse vôo entusiasmado. Eu quero dançar no gramado em plena tarde abafada sem ter com o que me ocupar. Que o pão não me seja caro nem fastidioso. Que as horas passem sem eu me dar conta delas. Que eu seja irresponsável com as contas a chegar. Que no cinema eu possa gargalhar sem aos outros incomodar. Que o verbo eu possa usar sem censura, e no coração dos outros eu possa tocar. Mais, mais, mais e muito mais.

Pois bem, assim o quis e assim eu o fiz. Quando dei por mim já estava a muitos pés de altura e no infinito campo de visão eu só via verde e mais verde, vacas pastando, plantações de hortaliças e ao fundo construções do que supus ser uma vila.

Preparava-me para o salto sem em nada externo pensar. Só queria chegar naquele chão e perfume novo aspirar. De tudo que me fosse novo experimentar. Surdo estava ao que o instrutor me dizia, inflamado estava pela ânsia do que estava a me recepcionar. Tanto esperei por esse vôo que tudo o mais se tinha tornado dispensável. Se, se.. Bah, do que me importavam os prejuízos quando lá embaixo eu teria uma mina a escavar. Eu não queria pensar, mas agir, acontecer, ser, poder. Tudo que me fora negado eu fazia questão de ter, nem que para isso eu tivesse que portas arrombar e vidraças arrebentar. Aquilo tudo lá embaixo era só meu, todo meu, irremediavelmente meu.

1,2,3...Pulei. O barulho do som do céu me ensurdecia, com as nuvens muito densas acima de mim a me acompanhar e dividir comigo aquele local de passagem. Não sei quanto tempo ali fiquei muito menos quantas piruetas executei. Eu ria como criança que se lambuza de sorvete. Como era bom voar. Ainda me dói de alegria aquele vôo, a sensação de liberdade conquistada. Esfregava as mãos de puro contentamento. Era chegada a minha hora.O cheiro de ar puro adentrava meus pulmóes. Tinha tanta coisa a fazer quando botasse os pés na terra vermelha...

Pousei.

Logo após acordei.

Na cozinha a água do café fervia no bule.

domingo, maio 17, 2009

Sobre a Palavra


- Ei, Dindi, o que tanto você coloca nesse pedaço de papel?

A caneta caiu no chão e fiquei com a mão pendente no ar. Como poderia responder-lhe se nem ao menos eu tenho tal resposta? Tirei os óculos e coloquei-os cuidadosamente sobre a mesa de centro. Teria que me despir e me aventurar por mares desconhecidos se quisesse dar continuidade ao assunto. Durante algum tempo abria a boca mas dela não saía som algum. Uma espécie de atordoamento havia se apossado de mim e anestesiado fiquei naquele ambiente, claro e silencioso. Estralei os dedos em sinal de nervosismo e uma saliva amarga se alojava entre os dentes. Meus batimentos cardíacos se aceleravam e uma força do que a que supunha ter se apossara de mim:

- Acho que escrevo simplesmente porque não choro mais. Já há tão longo tempo que não choro mais por me ser, mesmo que seja de alegria por sobreviver apesar dos pesares. Vivo de olhos baixos, mas quando os levanto o sol continua brilhando, as pessoas passam apressadas ao meu redor, os prédios continuam cinzentos e os músicos contando moedas nas praças. O mundo está aí, girando sem cessar, a roda incessante rodando e rodando independente do meu piscar para observá-las. Crianças nascem, moribundos falecem, flores desabrocham, casais se desfazem e batem as portas dos apartamentos com revolta, as ondas continuam batendo nas rebentações, bancários autenticam documentos, idosos consomem e passeiam nos supermercados, adolescentes riem e se beijam, vizinhas fofocam, torcedores matam e morrem por seus times e tudo o mais acontece durante as vírgulas em que pontuo as frases. Mesmo que eu não existisse, nada seria modificado. Quando cheguei aqui, a sorte já havia sido lançada e os jogadores dispunham as suas armas nas apostas. Quem tem de se adaptar sou eu, e não os outros. Enquanto alguns apalpam as paredes, eu toco na caneta e olho a esmo procurando algo com o que preencher essas linhas. Se algo nisso tudo é válido será consequência do que está sendo dito agora, ou mesmo do eco das coisas passadas, das gaivotas em meio aos faróis. Eu só quero um lugar na engrenagem, ali mesmo onde existe aquele espaço vazio e macilento. Mais um amanhecer, outro dia, mais uma mão e um sorriso, chaminés de fábricas, boinas, tangos e elevadores. Sapatos e cactos. Água sem gás e mármores nas bancadas dos zeladores. Tulipas e telhados. Gaudi e Tarkowski. Televisão e poesia. Camisetas e portas. Gravatas e gritarias. Britadeiras e buzinas. Não me pergunte mais pois o gosto de vômito permanece na boca. Em mim mesmo e em todas as outras coisas. Feche as cortinas. Os olhos. A alma.

quarta-feira, abril 29, 2009

Alguma música


Antes mesmo que eu desse conta do que havia ao meu redor, mesmo acima ou abaixo, a música já existia e tocava, lentamente ou de forma rápida, sem que eu pudesse perceber de onde ela provinha. Não havia festa alguma nas casas da vizinhança muito menos um bar temático ou casa noturna. Mas havia a minha imaginação, meu inconsciente. E era do meu eu profundo que tocava algo, dependendo das circunstâncias. Mesmo que eu quisesse somente o silêncio, a música tocava por iniciativas próprias. E era justamente nos momentos mais silenciosos que o som reverberava no meu eu de dentro para o meu eu de fora. Negras vozes roucas de alguns cigarros, algum álcool e muita solidão abafadas por sons de saxofone e cantando o viver e sofrer. Um palco quase vazio, contendo apenas um vulto, um violão ao colo e à sua frente um microfone. O vulto cantava de olhos fechados, como se não quisesse deixar escapar alguma coisa que sua voz não exprimia, mas somente o seu olhar. Bem diz-se que olhares dizem muito mais do que as palavra, às vezes lançada em precipício. Música dançante, com um grupo considerável de pessoas iluminadas por luzes coloridas e abafadas sacudindo seus corpos e à sua frente guitarras, baterias e alguns outros instrumentos, obviamente manuseados por outros vultos escuros. Uma mulher gorda em um espaço pequeno recitando suas desditas e clamando a outrora do Trás os Montes, em meio aos parreirais e com alguma angústia no ser e proceder. Quando tudo parecia mais claro e límpido. Em um tempo que não volta mais, quando ela achava que não haveria separações e dores futuras. Em uma época em que não se sabia que cada amanhecer trazia juntamente alguns novos desafios. E, finalmente, um local parecido com um cabaré ou cassino, onde, no palco, uma orquestra tocando sons instrumentais entremeados por um homem entoando sons que não saberia identificar a qual ritmo pertence.

Pois bem: quem nunca percebeu a mesma música tocando no inconsciente por diversas vezes que atire a primeira pedra. Ou mesmo músicas, músicas e mais músicas em uma eterna sinfonia mental. A música faz parte da natureza e condição humanas há tempos infindos, cumprindo seu respectivo papel e se transformando tanto em forma de redenção humana quanto entretenimento vazio, que se esgota quando as luzes se apagam e o intérprete sai de cena. Ouvimos música na rua, no trabalho, nos centros comerciais, nos hipermercados, nas boates, nos prédios residenciais, nas estradas, nos postos de gasolina e, principalmente, eu ouço música de madrugada, quando acendo meu cigarro no quintal de casa e sento. Quando fecho os olhos, tenho à minha frente uma espécie de juke box ambulante. Algumas vezes tenho vontade de sair dançando pelo azulejo, sufocando por uma espécie de necessidade de me ser, a cada novo dia. Ser novo. Ser diferente do que fui ontem. Amanhecer para uma nova vida, que não a que tenho. Experimentar novos sabores, novos cheiros, tatear paredes novas, pisar em novos gramados, ou seja, ser pleno de alguma forma. Sem filosofia barata, nem grandes devaneios. Sem pensar, imaginar ou querer ser. Apenas sendo. Algo ou alguém. Ir-me embora pra Pasárgada mais uma vez. Recitar Hilda Hilst enquanto não amanhece. Colocar as mãos no bolso, andar a esmo com um fone de ouvido e me abstrair do barulho ao meu redor. Enfim, elucubrar, ser, pensar e fazer. De forma torta, talvez. Mas na tortuosidade encontrar a redenção.



sexta-feira, abril 10, 2009

Leia o próximo texto


De vez em quando tenho ímpetos de sair do mundo real e fantasiar, elucubrar sobre pequenas coisas, fadas, histórias infantis em geral, Monteiro Lobato, Alladin e Sherazade, O Pequeno Príncipe, Marquês de Sade, Zé do Caixão versão teenager, O Mundo Íntimo de Laura da Clarice Lispector e afins, eu me imagino com um negócio próprio, alguma coisa que, além de me fornecer subsídio financeiro, me dê algum sentido a mais na vida, se bem que comandando um negócio próprio eu não terei tempo de elucubrar sobre a morte do gado na fazenda do Nhô Totonho durante a grande estiagem de 1980.

Mas são divagações geralmente com prazo certo de nascimento e morte, sou por demais prático e realista para me ver tomado por situações por demais supositórias para se tornarem concretas. Ocasionalmente me dou ao direito de refletir sobre uma frase que é senso comum: as respostas não estão em fatores externos, mas somente dentro de nós poderemos achá-las. Sendo assim, adoraria que meu timo e vesícula fossem videntes e me solucionassem certas perguntas infames que teimo em formular por pura cretinice e falta de coisa melhor a se fazer.

Pois bem: cismei como burro empacado que um dia (Quiçá? Quem sabe? Talvez? Que rufem os tambores!) eu tenha um negócio meu, que seria uma livraria. É claro que não possuo um tostão furado que me proporcione a banca mais vagabunda do sebo mais insidioso do centro da cidade. Mas mesmo assim me imagino em meio a prateleiras e mais prateleiras de livros, muitos livros, e futuramente um local somente para CD´s de qualidade e um café bem ajeitadinho onde a intelectualidade possa degustar seu pingado com manteiga rançosa.

O nome dela obviamente ainda não formulei, por dois fatores: se o fizesse estaria levando a sério demais uma perspectiva tão remota e porque minha pequena criatividade não me seja útil nos momentos em que ela se torna necessária. Mas faço questão de CNPJ, nome fantasia, taxa do contador, sonegação de alguns impostos pela Receita Federal e o que mais meu pacote da CVC cobrir.

Se alguma criatura infame adentrar meu humilde estabelecimento em busca do mais novo best seller de Zíbia Gasparetto irei expulsá-la aos berros, se necessário for obterei amparo policial e com direito a retratação jurídica. Em contrapartida, quando algum cliente em potencial chegar a mim em busca da antologica poética de Sylvia Plath, ele (a) será convidado a um café com biscoitos amanteigados, fecharei meu estabelecimento em prol de uma privacidade maior, e, se não fosse tão hábil comerciante, forneceria à tal pessoa boa parte do meu estoque literário sem em troca de algum papel-moeda.

Falando assim até podem pensar que ter negócio próprio no Brasil é tão simples assim, em uma terra em que boa parte dos negócios não perduram por mais de cinco anos. Ainda mais em um ramo considerado supérfluo e com uma parcela de consumidores tão pequenas. Há alguns dias atrás estava a perambular pelo Shopping Praiamar, na cidade de São Vicente, no final de semana, quando usualmente a quantidade de transeuntes no local aumenta. E realmente a quantidade de pessoas em seus corredores e lojas era considerável, enquanto a livraria Siciliano estava praticamente às moscas, levando em consideração que é uma loja grande e bem-localizada. De qualquer forma esse assunto renderia assunto para algumas horas de conversa e minha intenção não é essa. Até porque não possuo conhecimento suficientes para tal.

Depois de muita baboseira, eis que digo: se cuidem Saraiva, Siciliano, FNAC, Escariz, Laselva, Livraria da Vila, Livraria da Travessa, Cultura e afins. Um dia eu chego no mercado. Tremei, incautos!*


*Não riam, eu tenho plena consciência do ridículo. Ou não terei?

domingo, março 22, 2009

O Pundonor


Vivo em uma cidade litorânea, onde é perfeitamente natural que seus habitantes e turistas usufruam de suas praias como instrumento de lazer nos finais de semana e feriados ensolarados. Digo até que o mar provoca uma certa modificação nos costumes das indumentárias de seus moradores, que aproveitam-se do clima para vestirem-se ou despirem-se de forma mais adequada e até mesmo despudorada. Praticamente uma pouca-vergonha que enrubesce os mais tradicionalistas nesse quesito como eu. Que a cada dia perde mais adeptos.

Se me perguntarem qual foi a última vez em que frequentei as areias fétidas do município onde resido, ficarei estupefato e durante certo tempo emudecido, pois a resposta me é tão longínqua que o ideal seria que eu dissesse: "Por quem me tomas? Desde quando sou chegado a essas impudicícias da carne?". Mas simplesmente digo que não costumo expor minha bela figura em tais ambientes. Tenho uma tonalidade de pele nada condinzente com a velha máxima de um barquinho ao sol, crianças construindo castelinhos de areia e pessoas saudáveis e felizes sem medo de um futuro câncer de pele. Só sou queimado nas partes menos pudendas que não consigo esconder com as roupas que costumo usar, como o rosto e a parte inferior do braço, ainda assim devido ao não-costume de utilização da burqa que anseio adquirir em algum mercado de rua do Afeganistão, claro que em uma transação virtual.

Mas, falando francamente, não me exponho de tal forma por um motivo específico que poderia provocar risos de escárnio nos canalhas de plantão:tenho pavor à execração pública. Sim, ver-me quase despido em uma praia seria o mesmo que provocar catarse nos presentes. Tenho calafrios em imaginar a reação dos presentes: as senhoras se armariam dos seus guarda-chuvas e me atacariam com eles sem o mínimo de dó nem piedade, as crianças imediatamente seriam instruídas a tampar suas vistas inocentes e pensar no último filme do Shrek, os senhores aposentados continuariam a jogar sua partida de truco levantando as mãos aos céus rogando a Deus que me desse discernimento e se comprazesse da minha alma, as mulheres-frutas e as não tão chorariam amarguradas pelas areias por tal visão bestial, e, por conseguinte, armados de paus e pedras, os moços surfistas insurgiriam contra mim proclamando que o Apocalipse havia chegado. E sem contar que grande parte dos restantes espectadores haveria de frequentar durante longo período os consultórios psicológicos e porque não dizer psicanalíticos, procurando apagar de suas mentes tal espetáculo deprimente.

Devo confessar que, de qualquer maneira, a exposição do meu corpo me provoca calafrios. Sinto-me invadido no meu mais íntimo quando exponho partes desse corpo mal-ajambrado a quem quer que seja. Se eu não fico pelado sob alguma hipótese? Sim, respondo, durante o banho, com a porta fechada, as janelas lacradas e sob o mais absoluto breu. Tenho até medo do que poderei provocar a mim mesmo observando-me como o fruto do pecado de Adão e Eva.

Sendo assim, só me resta rogar ao meu bom pai que me dê discernimento para que eu possa conviver em harmonia com esse castigo divino que é o meu corpo. Que é o único que possuo, ainda que trocado por merda ainda necessite devolver troco substancial. E assim continuo vivendo, fora de todos os padrões estético, incompleto e em busca do essencial que transcenda a feiúra estrutural que ainda será tema de alguma obra de arte ou estudo científico.



quarta-feira, março 11, 2009

Aos meus amigos


Porque eu tenho uma fome que só se sacia com uma fome maior do que aquela que a originou. E é essa mesma fome que eu imagino ter que me faz salivar em busca do alimento inexistente. Nessa já minha considerável longa vida cruzei com muitas pessoas, o que é mais absolutamente natural, mesmo sendo eu de personalidade solitária e por vezes antisocial. Obviamente algumas pessoas acabaram riscando com estilete ou mesmo usando o machado para romper a parede que me separa dos demais. Fiz poucos, mas consideráveis amigos e camaradas que me evocam lembranças vespertinas.

Cada qual à sua maneira e tempo certo, eis que entram cena aqueles que alimentam ainda mais a minha fome e não se contentam em ser, pura e simplesmente, mas me trazem travessas e mais travessas desprovidas de conteúdo e falam-me sorrateiramente: "Venha comer o maná que vos trago de bom grado."

Pois eu não quero a satisfação, a sensação de estômago abarrotado. Eu quero aqueles que me tragam mais fome e sede ainda. E que, de preferência, venham a mim assim, sentem-se na mesa nua e bradem: "Comemos, nos empanturremos, amigos.". E esses tem me feito a cada dia mais procurar restos de alguma coisa em tais pratos. Se assim me vêem, jogam as sobras para que eu não as possa ter.

E são esses os que me interessam. A lucidez não me agrada. Eu não quero a coisa pronta muito menos seus ingredientes. Venham a mim os loucos, mas mansos de coração e de sensibilidade apurada. E esse eu os tenho. Deles não abro mão. Para o deserto me levam, comigo permanecerão. E, se assim for, comigo de lá sairão rumo a um lugar onde só entrem os de mais puro coração.

Como disse Adélia Prado: "Eu não quero a faca nem o queijo. Quero a fome.". Mas outro tempo virá em que farei questão de colocar-me ao centro e repartir igualmente o pão e o vinho com todos aqueles insanos e por isso caros. De valor incalculável. Aí sim nos empanturraremos, até uma nova fome.

segunda-feira, março 02, 2009

Caio Fernando Abreu


No meu caso, falar de Caio se torna perigoso pois posso descambar para a idolatria ou puro pieguismo, devido à grande identificação que sinto por sua obra. De qualquer forma, assumo o risco e desde já peço desculpas pelos eventuais excessos que venha cometer falando sobre ele.

Caio, ou Caio F. (como gostava de ser chamado, em alusão à Christiane F., Drogada e Prostituída, tema de livro e filme) faleceu em São Paulo, a 25 de fevereiro de 1996, em decorrência de problemas causados por ser soropositivo. Posso dizer resumidamente que ele foi um grande ícone da literatura dos anos 80, sendo no seu tempo rechaçado pelos intelectuais e críticos por assumidamente dizer que tinha grande influência da cultura pop do seu tempo. Um escritor underground que durante muito tempo, ou até mesmo os dias atuais, esteve relegado ao submundo dos malditos, por causa de sua literatura atemporal e por vezes dark. Darkésima, em alguns pontos, relembrado desde já Dama da Noite, texto contido em Os Dragões não Conhecem o Paraíso.

Nascido em Santiago do Boqueirão, pequena cidade gaúcha a poucos quilômetros da divisa com a Argentina, apaixonado desde jovem por cinema e artes em geral, se aventura na cidade grande no final da adolescência procurando dar vazão a seu afã de expressão através da palavra, tendo se sustentado basicamente do jornalismo diário, pois no Brasil são raríssimos aqueles que conseguem viver exclusivamente da vendagem dos seus livros. Caio mesmo se considera um homem do mundo, procurando ou não conseguindo fixar moradia em um determinado lugar por um longo período de tempo, tendo residido em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Campinas, na Casa do Sol, fazenda de propriedade de sua grande amiga Hilda Hilst e ocasionamente viagens à Europa, para onde emigrou em meados da década de 70, tendo trabalhado em diversos ofícios, como lavador de pratos e modelo vivo, e onde obteve grandes influências místicas que vieram a permear sua literatura e vida. Era um grande amante do misticismo, carregando suas crendices durante todo o restante da sua vida, em meio a incensos, chás medicinais e/ou alucinógenos, mapas astrais, drogas alucinógenas e muitos, mas muitos sonhos.


Ah, Caio, como você me dói de vez em quando quando releio seus contos ou me lembro de pequenas frases suas nos lugares mais inapropriados. Compartilhamos da mesma sensação de estrangeiros em busca de um nação que podemos chamar de nossas. Nossa paragem, nosso porto seguro, nossa Pasárgada onde possamos finalmente desfrutar das benesses do existir e onde possamos achar as respostas das mais agudas inquietações. A eterna busca insandecida que o fazia escrever sobre seus medos mais sombrios. Quem gosta da literatura de Caio, por algum motivo ou outro, sabe do que falo.

Em alguns instantes me pego imaginando-o, com seus óculos de grau e sua aparrência mirrada e frágil andando pelas ruas da cidade com os olhos tristes e observadores, atento aos pequenos movimentos e principalmente às pessoas que o cercam e formulando dúvidas atrozes, mas sempre com uma grave esperança de dias melhores. Certos sentimentos complexos de serem verbalizados, mas extremamente lancinantes na alma de seres de sensibilidade aguda como a dele.

Enfim, parecendo pedante ou não, afirmo que Caio F. foi uma das grandes e gratas influências surpresas que tive na vida. Havia nele não somente uma angústia existencial,mas também uma vontade enorme de viver, apesar de tudo. Mesmo com as perguntas que o perseguiam, ele adorava cuidar de suas flores e olhar o Rio Guaíba, acho que com uma espécie de sorriso irônico percebendo as sensações à sua volta e querendo somente existir e persistir. Mesmo com sua fome.







sábado, fevereiro 21, 2009

Noite Vazia


O vazio que alguns seres humanos sentem em determinadas instâncias da vida é retratada pelas mais variadas formas de expressão humana desde que os tempos são os tempos. Ou seja, de forma infinda, claro que de maneiras paradoxais com o movimento ou o pêndulo dos antigos relógios de parede. O oco de se saber não ser, do que não se foi ou de premeditar que não se será. Enfim, o que todos nós almejamos e sabemos não possuir, concretamente ou abstrato, como os sentimentos, que não podemos mensurar em uma folha de papel mas que tem o poder de latejar loucamente quando é mais inapropriado. De certa maneira, esse filme clássico do cinema brasileiro retrata isso. Dois homens relativamente jovens da classe média paulistana saem pela noite em busca de prazeres frugais que venham a lhe dar algum sentido no existir. Mesmo que essas delícias se esgotem por si só, como um alimento anseado que mata o desejo naquele instante, não podendo mais ser carregado pelos outros minutos e horas em que a tal fome ou sede ainda se perpetua.

Sua busca se resume em literalmente uma coisa: a mulher, preferencialmente aquela que, sob um primeiro olhar, não se oferece languidamente, mas que no fundo deseja também algo ou alguém que venha a lhe tirar do marasmo que as fazem também sair pelas boates e bares em busca de distração. Sendo assim, contratam duas prostitutas de alto padrão e as levam para seu apartamento no intento de prazeres carnais insanos e com hora marcada para se esgotar. Elas são interpretadas pela linda Odette Lara e Norma Benguell no auge da sua juventude e melancolia. Odette deliciosamente sensual e Norma lascivamente com os olhos de ressaca propalados por Machado de Assis. Encantadoramente despudoradas e esfuziantes.


Se já não bastassem esses dois ícones dessa década imperdível de ser revivida de alguma forma, as tomadas externas na São Paulo já desvairada e com seus arranha-céus, tendo ao fundo músicas instrumentais de Rogério Duprat, podem, na minha modesta opinião, ser consideradas uma das melhores tomadas do Brasil daquele tempo, aonde, mesmo em meio ao caos da já metrópole, as pessoas ainda andam pela noite olhando vitrines, passeando despreocupadamente e praticando o ainda usual footing. Mas o que coloco em questão é que me parece inovador da parte do diretor Walter Hugo Khoury tratar de forma simples a questão da prostituição em um tempo em que a mulher ainda era considerada vários passos atrás do homem e a revolução feminista ainda engatinhava.

Pelo pouco que conheço de Khoury, as mulheres de seus filmes tem personalidades fortes sem com isso destoar de sua feminilidade exuberante. E nas personagens desses filmes isso é latente, sendo os homens da história meros coadjuvantes aonde o principal é o que essas duas prostitutas farão com esses homens, e não seus inversos. Temos nesse filme até mesmo uma quase cena de lesbianismo, somente interrompida pela relutância da personagem de Norma, uma mulher da vida fácil ainda ingênua. E cenas externas entremeadas com os personagens andando pelo apartamento, comendo, transando, conversando ou se agredindo. Praticando muitas ações em um intervalo de tempo pequeno, pois toda a ação ocorre no espaço de uma noite, culminando com a volta dos dois homens aos seus lares e as moças também retomando suas vidas de, como dizer, divertidoras do primeiro pagante afortunado que se apraz com elas.

Enfim, recomendo a quem gostar de cinema brasileiro e tiver certa saudade de tempos que nem ao mesmo viveu.

domingo, janeiro 25, 2009

A Concepção


Desde já advirto que não sou crítico muito menos teórico da linguagem cinematográfica, nem entendo os termos do meio. Sou apenas um admirador de filmes que, por critérios subjetivos, considero bons e que procuro assistir na ânsia de novos olhares sobre o mundo e principalmente sobre eu mesmo. Sendo assim, comento sobre esse filme.

A Concepção é uma produção brasileira de 2006, e que tem no elenco atores como Matheus Nachtergaelle, Rosane Mulholand, Milhem Cortaz e Juliano Cazarré nos papéis principais. A fita se ambienta em Brasília, onde jovens da classe média alta da capital federal procuram subtertúgios para o grande tédios e vazios que permeiam suas existências. Ápós conhecerem na zona do meretrício a personagem de Matheus, com sua conversa altamente filosófica e sofista de resgate do seu eu interior, morte ao ego e repulsa à sociedade atual, fundam em um apartamento ocupado por um dos personagens o Manifesto Concepcionista, onde as leis se baseiam basicamente na liberdade e renovação da sociedade e do eu, em resumo, uma existência anárquica e não afeita aos padrões sociais vigentes.




A história em si não é nova, mas interessei-me por ela por sua maneira criativa, seus figurinos, as interpretações, cenários, diálogos, e sobretudo pelo seu desfecho em que a polícia intervém no imóvel e prende a grande maioria dos seus ocupantes, provocando estardalhaço na imprensa local. Vale ressaltar que, durante o tempo em que durou, O Concepcionismo arrebanhou uma quantidade considerável de adeptos que andavam nus, consumiam drogas e pregavam discursos liberais.

Uma nova utopia hippie em pleno Planalto Central, posso falar de maneira grossa o enredo do filme. Pessoas jovens em busca de experiências e sensações novas, que suas vidas cotidianas não lhes proporcionam. Ruptura de padrões, mas sem um questionamento profundo de em que isso realmente consiste. E, principalmente, um líder natural, mais uma vez citando a personagem de Matheus, que surge nas suas vidas de forma inesperada, sem identidade certa e grande conhecedor das misturas de remédios e dos seus efeitos colaterais.

Bom cinema, que não me atrevo a enumerar como sendo do movimento X ou movimento Y pelo simples fato de não compreender o assunto a fundo. Aliás, conheço de maneira extremamente rasa. Um dos filmes que nos prova de que o cinema brasileiro consegue produzir obras de boa qualidade sem se tornar pedante muito menos hermético. Algo que poderá provocar debates, pois dá margem a várias interpretações, pontos de vista. Costumo dizer que em arte eu só me interesso pelo que possa me estapear, me fazer pensar e me tirar da modorra que acaba se tornando a vida cotidiana. E sim, esse filme conseguiu.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

É Natal!!!!!!!



Todos os finais de ano são sempre as mesmas coisas, as pessoas recebem seus 13º salário e saem às compras vorazmente, procurando saciar seus desejos de consumo duramente reprimidos durante o restante do ano. Ou usam essa desculpa das festividades pelo simples motivo de que sim, nós queremos gastar, mesmo que não tenhamos como. O importante para o brasileiro é comprar, agora como vai se pagar já é outra história que rende alguns panos para as mangas bufantes que serão apresentadas nas vitrines das lojas da Oscar Freire na próxima coleção primvera-verão. É Natal, vamos nos regozijar com a data nos acotovelando na 25 de Março ou nos centros comerciais de nossas cidades. Vamos ajudar o país a crescer, vamos finalmente presentear as crianças com os brinquedos conquistados às custas de boa-educação e notas satisfatórias nas provas finais.


O que importa mesmo é gastar, parcelar no cartão de crédito nosso de cada dia. Nem que para isso tenhamos de pagar somente a parcela mínima durante nossos próximos oito longínquos meses, nem que para isso deixemos de adquirir o essencial para os crediários dos magazines e lojas de departamentos e nem que para isso sejamos obrigamos a diminuir as visitas ao Mc Donald´s e pizzarias nos finais de semana do ano de 2009. Temos que manter as aparências, afinal de contas, se o vizinho trocou o azulejo de sua meia água nós também temos o direito de fazê-lo. O direito não, a obrigação, afinal de contas, a grama do vizinho é sempre a mais verde.


E na empresa não se fala em outra coisa, no famoso amigo secreto, ou oculto, como se fala em algumas partes do país. Se o sorteado for nosso superior em hierarquia, há de se fazer um sacrifício e comprar para o(a) merecido(a) uma lembrança à sua altura. O que importa é consumir e mover a mola mestra da economia. Ou como diria Luiza Trajano, a presidenta do poderoso Magazine Luíza: "Minha gente, sem consumo não tem emprego!". Concordo com ela, se não houvesse Natal nem Reveillon não haveria trabalho para o telemarketing especializado em cobrança nem os carteiros nos entregariam aquelas temidas cartas nos comunicando o ingresso no tão querido Serasa.


Espíritas, protestantes, budistas, xintoístas, adeptos do candomblé, católicos e alguns outros mais entram nessa mesma miscelânea quando o assunto é Natal. O comércio não se importa com as nossas crenças, desde que acreditemos no poder transformador de vidas e mentes dos cartões das Pernambucanas e da Renner. Cartões que parcelam em até 6x sem juros e o primeiro pagamento só em março, minha gente! Aproveitem!


Eu só quero saber aonde, afinal de contas, se inculcou na cabeça desse povo de que Natal é sinônimo de calor, cotovelões nas lojas de 1,99 abarrotadas e o quilo do chester a preços ligeiramente elevados. E que não se esqueçam das castanhas nem das nozes na farofa da ceia, pois Natal sem farofa e abacaxi com tender não é algo digno de nota.


Porque no ano que vem começa tudo novamente. As mesmas dívidas, as mesmas dores nas pernas de tanto bater perna atrás dos presentes, as baboseiras de toda sociedade judaico-cristã ocidental mortalmente odiada por Osama Bin Laden. Qualquer dia desses convido uma família qualquer, convido para um sorvete na praça de alimentação do shopping e pergunto, assim como quem não quer nada: Mas, afinal de contas, o que é esse tal de Natal?













quarta-feira, novembro 05, 2008

À Beira do Pântano




-Mãe, o que é o amor?

-Hum?

-É, o amor, eu quero saber que que é isso.

-Minha filha, porque essa pergunta agora?

-Por nada não, um dia desses eu vi um casal de namorados falando um para o outro: "Eu te amo!" "Eu também te amo", e mais uma porção de frases com essa palavrinha que eu adoro balbuciar para sentir o som dela. E eu quero saber o que, afinal, é esse tal de amor.

-Mas, filha, eu não sei o que é amor.

-Então você não ama o papai?Vocês brigam de vez em quando, mas escuto sempre uns cochichos, quando a senhora diz que ainda o ama.

-Amo, sim, claro que amo....

-Então me diz o que é esse tal de amor!!!!

-Ainda é tão cedo para que aprendas esse tipo de coisas, menina.

-E quando será então a hora de eu saber o que é o amor?

-Isso somente o tempo vai te dizer, amor é o tipo de sentimento que não se mensura com palavras, apenas se sente, sem se perguntar o porquê da existência dele na nossa vida. Apenas se ama, pura e simplesmente. Se pensar demais, quebra-se o encanto da coisa e se cai em um poço sem fundo, do qual não se sabe se e como vai sair. É como o ódio, a ternura, o alívio; a gente sempre sabe quando o sente, mas não pode desenhá-lo da forma exata, e sim sempre de um jeito idealizado. Você não é a primeira pessoa que se pergunta sobre isso, filha, e possivelmente não encontrará as respostas aos seus questionamentos. Agora deixa a mamãe terminar a limpeza.

-É que eu ainda não sei como se ama.
-Ah, amar tem seus mistérios, aliás, existir tem muitos deles também. O tempo vai passar, você se tornará uma moça vistosa e então você terá o primeiro de muitos amores. Vivendo você se sujeita a isso, independente da sua vontade ou necessidade. É como em um passe de mágica, se diz a palavra encantada e pronto, a coisa aparece assim do nada. E transforma nossa vida. Ou vai nos transformando pela vida afora. Não se preocupe com isso ainda, filha. Apenas exista, que para isso você vive. Mesmo que, de vez em quando, vier uma mosquinha zumbindo no seu ouvido esse tipo de perguntas, procure não dar muita atenção a ela e venha perguntar para mim o que você quer saber. Se bem que eu tenho perguntas cujas respostas também não saberia fornecê-las, pois esse é um dos és da coisa. Senta aqui no meu colo, vem...

-Eu achei tão bonito ouvindo aqueles dois falando essas coisas diferentes, será que vai demorar muito para eu saber o que é o amor?

-Não precisa saber o que é o amor, mas apenas quando você o sente por algo, alguém, um animal, uma coisa, ou algo que o valha. Pois o amor também salva. Salva do escuro em que nos afundamos ao viver. Não que você chegue à tona amando, mas com ele a vida toma outras dimensões até então não imaginadas. E essas dimensões nos conduzem também a outras portas. Porque existir é abrir portas, filha. Hoje você está com a mãozinha na maçaneta com essa ideiazinha de saber como se ama e o que é o amor. Se você descobrir alguma resposta, você vai abrir a tal porta que vai te levar a um quarto igual ao que você estava antes.

-E tenho de abrir muitas dessas portas, mamãe?

-Vais passar a sua vida inteira entre elas, filha, bem que eu queria te poupar de tais descobertas. Mas é impossível. Sem querer você desabrochou do ovo e se descobriu humana. Após isso mergulhaste em um caminho sem volta. Mas com muitos meandros.






domingo, setembro 21, 2008

Pelas profundezas


Porque eu sempre mergulhei pela superfície de todas as coisas, espectador às vezes não atento de tudo que me rodeava, mas do qual pouco ou nada participava. Sem conseguir visualizar muito além do que me era permitido sentir, assim o era e ainda o é, sem sombra de dúvidas. Eu mesmo me sinto em relação ao corpo nas entrelinhas. Apenas sugestivo, como se me perguntasse cotidianamente qual a sensação de existir em toda a sua plenitude, sem reservas. Mas não o sei, nunca o vivi, apenas maquino mentalmente como seria experienciar tais sensações. E no meu pequeno plano ainda assim consigo me despencar e perder. Até porque meu pequeno mundo é assim amplo, nebuloso e inconfessável.
Pois eu confesso, mesmo sem saber aonde cairei com tais ousadias, que nunca bebi do cálice da vida, se é que esse termo imbecilizante persiste a análise mais atenta. Eu existo, sim, isso é mais que fato. É prova de mim mesmo. Eu sou. Algo ou alguém, continuo o sendo apesar dos pesares. Alguém que quer experimentar a sensação de o ser sem se imiscuir de ser também vários outros, mas experimentar os vários eus que habitam dentro de todos nós e que só se revelam em determinadas situações.
Que eu possa e consiga tirar esse gosto de estranheza da boca todas as vezes que olho para o outro e vejo algo muito além do que posso perceber. Nadam nas profundezas os outros e eu, apenas pequeno espectador atento, assisto a tudo até que as águas se tornem turvas e nada mais consiga visualizar. De quando em quando alguém que vêm à tona explica-me sucintamente o que se passa lá por debaixo daquelas águas lodosas, mas é como se fosse distante demais para meu corpo. Proibido. Intocável.
As palavras são ditas de forma clara e não consigo absorvê-las, apenas as imagino, estranhando que tenha me sido negado essa espécie de manjar na qual se mergulha sem grandes questionamentos e se retorna com pérolas nas mãos capazes de resistir mesmo a todas as intempéries do existir. Tais pérolas não são vendidas no mercado negro, procurei saber, infinitas vezes eu as quis e pagaria o necessário, mesmo o exorbitante, para ter algumas em meu poder. Mas elas não são achadas nesse território pequeno e raso. Só nas profundezas elas existem e de lá não podem sair a não ser nos pescoços e mãos de seus contentes proprietários.
Se algum dia eu as possuir, guardarei-as numa caixinha confeccionada por eu e as tirarei em ocasiões especiais para que vejam a luz do sol e para que eu tenha a satisfação de possui-las para meu bel-prazer. Contente, infantil, sorridente, medíocre, ou tantos forem meus predicados. Caminhando pelas ruas da cidade florida, eu e meu segredo revelado.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Eu não sei


Quando me comunico, inconscientemente dou um fragmento ao outro. Pedaços do corpo. Em graus variados do que está em questão, mas sempre assim um corpo. Corpo que se desfragmenta a cada palavra dita. Lançada. Vomitada. O que eu comunico muitas vezes escapula ao meu alcance. Mas eu me comunico. Tento. Apesar de, eu tento. Mesmo não sabendo as consequências do meu ato, eu o pratico. Inconsequente e de forma inesperada. Prefiro não pensar no que haverá de surgir com o que digo. Mesmo que sussurrando, apenas. Mas ainda assim, irresponsavelmente, eu digo. E mesmo que meu castigo seja cruel.
Ontem eu fumei no escuro e, olhando a brasa, me disse algo que não posso revelar. Há de se ter segredos consigo mesmo para que a vida continue misteriosa. Nem a eu mesmo hei de revelar o que foi dito na penumbra daquele quarto. Mas algo me foi comunicado, e assim o é diariamente. Me comunico comigo mesmo e com outro sem ao menos perceber. Acredito que viver também seja isso. E foi com a alegria de um garoto que eu me disse algo, saborendo as meias palavras e atento para que não fosse ouvido. Seria uma violentação suprema que descobrissem esse meu segredo. Era o meu eu mais profundo que falava com o meu corpo. Um corpo com seus mistérios.
Mistérios que vêm à tona sobretudo quando digo: "Não sei.". Porque não saber é perigoso até. E de alguma forma traz conforto a quem não sabe. Mas o que não se sabe? Não saberei te responder. É misterioso demais para minha compreensão. Por enquanto, eu te digo que não sei. É preciso coragem para esse autoenfrentamento e percepção de que não se sabe. Talvez nunca se saberá. Mas provavelmente muitos outros o sabem. Isso eu também não sei afirmar, é uma interrogação. Se você também não sabe me ensine ao menos como é isso porque ainda não estou acostumado a não saber.
Eu sinto que não sei, e, enquanto isso, o indevassável se torna mais e mais nebuloso. Porque o doloroso não é não saber, mas sim perceber que não se sabe. Aí mora o perigo. Quando descobri que eu não sabia não saber, não aceitei e fiquei indignado. Estupefato. Macambúzio. Esse direito eu acho que tenho. Já que o saber me foi negado, que ao menos eu aprenda a não saber para não fazer perguntas. Porque eu cismo em perguntar, mas para que saber se eu não saberei o que fazer com essa coisa que quem sabe eu saberia?

quarta-feira, agosto 06, 2008

Jogo de palavras


Percebi que carrego dentro de mim força de tal devastação que se traveste de angústia e desamparo. Força que cambaleante se move, apesar dos pesares e do mistério de existir, me movendo em prol de uma vida menos cretina e mais frutífera. Sendo assim, sou lançado ao desafio diário e, mesmo perdendo quase diariamente e experimentando várias mortes, força-me a persistir, como se imbuísse da força de um tal tesouro que só eu poderei encontrar.

E com tal fome me alimento que tenho as mãos sujas por substância ainda desconhecida. Acredito que tal substância é a mistura do eu em contato com o outro que, sem se dar conta, forneceu-me a curiosidade e até mesmo a profanação e ousadia para penetração em território não permitido. E tenho a palavra, ou melhor dizendo, ela me tem, de tal forma estamos intrínsecos que já não sei mais onde o domínio de um perspassa o outro.

Apesar das quedas, traumas e do limo do poço, é nela que enfio as unhas em busca de salvação. Foi a única coisa que me restou e também o verdadeiro benefício por todas as coisas sentidas e vividas. É a palavra que vejo, sinto, toco e cheiro em todas as pequenas coisas, do amor que veio me nortear na hora mais inesperada e também na chva que observo cair durante a madrugada.

Peço que, se algo mais me for tomado, me deixem ao menos com ela. Pois com dor me desfaço de todo o resto, mas pela palavra que me salva do abismo me transformaria no homem forte que nunca fui. Sou egoísta, engulo-as todas e não as reparto nem com o mais faminto dos seres. Minha fome só se estanca quando eu enfio o dedo na garganta e vomito todo o frêmito do meu interior, para depois mastigá-la ainda mais voraz e servil.

Se necessário fosse trancar-lhes-ia no baú e só as deixaria sair com a expressão condição do trato que nos foi estabelecido de forma assertiva: se tu me deixares ainda periclitar pelo mundo dos homens, te alimento com minhas próprias entranhas.

Confesso que entrei em prejuízo nesse trato, mas sigo a ordem estabelecida. Apresento as minhas sobras em troca da sua soberania, beleza e mesmo vileza. Me perdoem os que não entendem o que expresso através desse texto, ou outros mesmo podem dizer que essa é uma relação de subserviência facilmente decifrável e explicada pela psicanálise, mas não existem mais aqui separados o homem e as letras; o que se observa é puro masoquismo: eu entrego o corpo à minha amante e dela recebo doses homeopáticas de existência. O corpo em troca de nesgas de vida. Ainda assim tem valido a pena.


sábado, julho 26, 2008

Produto descartável


Lembro-me que, há alguns anos atrás, principalmente durante a madrugada, a música que tocava no nosso inconsciente se retirava de cena e me vinha uma certeza à tona: nada do que estava sendo vivido me deixaria saudades. Mais precisamente, havia a falta de algo que se pudesse recordar. Mas o tempo passou e no meu interior essas sensações se arquivaram por si só. Permaneceram intactas, como se nunca houvessem existido, até uma fatídica noite em que me deparei com as tais verdades que me sacudiram novamente, mesmo que de forma suave.

Costumo andar por aí observando os rostos e suas expressões, me perguntando se algum deles, em algum momento se sentira deslocado e tão fora de propósito como eu. Confesso que sinto uma espécie de prazer masoquista na constatação da "nobreza" da minha alma, mesmo sabendo o quão sou reles e presunçoso por me oferecer tal alcunha.

Caiu-me nas mãos a constatação cretina e absurdamente real: como poderiam essas pessoas com quem divido a calçada se sentirem como eu? Essas pessoas efetivamente existem, não importando se por vias tortas, mas elas vivem e como vivem! Da maneira delas, isso não importa. Mas, se pudesse eu pegar um gravador e propor a qualquer uma delas que me contasse suas histórias de vida, tenho absoluta certeza que experimentaria ao menos imaginar situações que nem ao menos soubesse que existiam. Pessoas que amam, foram amadas, fazem amizades, inimizades, família, aparentados, situações vexatórias, momentos de glória, viagens, lágrimas, dores, trabalho, dinheiro, compromissos, afeto, crianças, velhos, objetos e animais de estimação, e tantas outras coisas que não consigo enumerar.

Mas o mais inquietante seria: a teia de relações humanas estabelecidas há tempos imemoriais, que faz com que uns se recordem e façam parte da vida dos outros. Simples assim. Cada qual com seus momentos de delicadeza, mas também outros de perturbação.

Sendo assim, fui obrigado a me retirar de tais estatísticas. Sempre estive à margem da vida e de seus desdobramentos, e mesmo quando estive inserido no tal contexto minha participação foi mínima, praticamente nula. Nem fui percebido por quem ali estava naquele instante, e mesmo quando um ou outro deu com as vistas por cima de mim, continuou sua rota como se eu fosse um objeto de decoração, que nada altera na esfera do ambiente. Algo que não desperta paixão nem ódio. Não desperta ao menos indiferença. Não desperta nada, somente ocupa espaço e não possui serventia alguma.

Mas seria imbecil culpabilizar quem quer que seja. Por esse fato, talvez nem a eu mesmo. Sou apagado demais e desprovido de quaisquer atrativos que façam com que as pessoas me olhem com inveja, desdém ou admiração. Passo inclusive pela arena, assumindo em voz baixa que adoraria fazer parte dessa miscelânea de sabores e sensações.

E o que faço eu com tal descoberta? Coloco-a no bolso e continuo, aparentemente, como antes. Mas ainda mais fragmentado.


sábado, julho 19, 2008

Um pedido...


Está um dia ensolarado, bonito, as pessoas vêm e vão sem se importar com essa claridade excessiva, preocupadas com seus afazeres e o cotidiano que nos enleia sem que nos demos conta disso. Me dá um beijo, me dá um abraço, me dá tua mão, me dá teu corpo, me dá teu coração. Me dá um cigarro. Me dá uma bebida, só ébrio digo-te as coisas límpidas que sóbrio gaguejo, mas não confesso por pudor. Me tira desse torpor. Me tira desse poço escuro e úmido. Leva-me embora desse lugar que me faz tão mal. Me ensina aquilo que nunca aprendi, a viver e amar sem me questionar sobre o porvir.
Este seco na minha garganta anda-me a corroer as entranhas. Perdoe-me por tantas queixas descabidas, por me maltratar tanto e não te dar o valor devido. Dá-me uma existência comum, banal até. Por ti jogaria velhas teorias na vala e reaprenderia todos os conceitos novos que até então andam arraigados na minha carne ainda putrefata. Nunca suspeitei que chegarias em uma tarde nublada e achasses tudo em tal desordem, o interior feito de caos. Não tive tempo de preparar-me à sua chegada, vieste tão de repente. Pisaste no lixo, sentiste o mofo da casa fechada há anos, as lâmpadas que não eram usadas há tempos incontáveis, minha aparência crua e abjeta, as roupas em desalinho, a barba crescida, as olheiras profundas e aquele olhar que te percebia incandescente.
Te recebi mudo, sem ao menos balbuciar o que quer que fosse. Vieste em boa hora, mesmo que a minha fome e sede te chamassem inconscientes há muitas semanas e meses. Mesmo o jardim anda descuidado, nem sentirá mais o perfume das flores que invadia os quartos ao abrir as janelas, logo pela manhã. Encontro-me faminto no corpo e no espírito. Perdia a cada dia os restos humanos que me equivaliam àqueles do lado de fora. Mas ainda há tempo de colocar tudo a seu contento, tenha um pouco mais de paciência. Não desista de mim ainda tão cedo. Eu não posso mais continuar aquilo que fui e ainda o sou.
Sei que me acomodei, mas quando me apercebi já era tarde. Tarde demais. Já é tarde, bem o sei, mas o que resta ainda pode ser transformado, reconstruído. A mudança será lenta, gradual, mas ela será feita, mesmo que a solidão, o escuro, o desespero e a angústia tentem me demover disso. Joga-me uma corda, deixe-me sair desse poço. É da tua mão que necessito hoje e do teu sorriso. Que seja doce, que seja doce, que seja doce por um tempo incontável, a cada anoitecer cada vez mais doce...

terça-feira, junho 17, 2008

Dia atípico


Naquele tempo as casas não possuíam garagem nem altos muros, mas tinham em profusão um grande jardim com muitas flores e plantas, que poderia ser visualizado entre as grades pelos passantes. Essas eram as casas da minha infância, quando brincava de bola de gude e pião despreocupadamente pelas ruas sem me preocupar com o vai-e-vem incessante dos carros nos dias atuais. Mas percebi que não mudou muita coisa nessas ruas. Como se o tempo tivesse congelado e apenas alguns aspectos houvessem adquirido nova roupagem.

Bati palmas em frente àquela residência e veio a mim uma senhora simpática, possivelmente ocupada com algum afazer doméstico, pois enxugava suas mãos em seu avental. Disse a ela que havia passado a infância e adolescência naquele lugar e gostaria de revê-lo, mesmo que por alguns intantes. Sem esperar uma proposta parecida naquele momento, ela hesitou por instantes, mas foi gentil e me deixou adentrar a casa, que, obviamente, aparentemente não havia mudado tanto assim no decorrer dos anos, somente os móveis que haviam sido modernizados, em contraste com a mobília antiga que me fez relembrar os bons anos que havia passado entre aquelas paredes cheias de histórias contra e a meu favor.


Posso afirmar categoricamente: "Sim, eu fui feliz nesse lugar, aonde nasci, cresci e passei por imensas transformações no corpo e na mente, e, principalmente, foi onde vivi inúmeras situações que repercutiram pelos meses e anos que vieram depois da minha saída dessa casa". Tateava as paredes à busca de lembranças e procurava recordar a disposição dos antigos móveis com a impressão de que aquele foi uma época sem volta, que meu retorno até ali só me serviria como forma de expiação dos meus erros passados.


Muita coisa me veio à mente naqueles instantes fatais, mesmo até o que fazia questão de apagar da memória, mas que surgia como que me esfregando nas faces quem sou, e principalmente o que fui outrora. Apenas tortura psicológica que praticava comigo mesmo, pois confesso que tenho grande prazer em me autoflagelar. Adoro isso nos momentos próprios, quando enfio a cabeça no travesseiro e revivo situações que me foram vergonhosas, mas que hoje não provocam mais do que risos contidos.


E assim fui percorrendo a cozinha, o quintal, a sala de estar, a sala de jantar, os quartos, o banheiro, a dependência de empregada, e claramente surgiam-se flashes das mais variadas situações, algumas extremamente enfadonhas, outras tão risíveis que, contando à senhora moradora da casa, era apenas uma alegoria enfadonha de um menino que subia nas árvores do quintal a catar alguma manga madura e que se estatelava ao chão ao se desequilibrar do galho.


Eis que o citytour chega ao fim, enervo-me do meu passado e procuro desesperadamente uma volta aos dias atuais, por mais maçantes que sejam. Despeço-me da senhora, respiro longamente e, quando fecho o portão que dá para a calçada, tenho a impressão de que deixo para trás um pedaço de mim que explicaria a meu analista o porquê de tantos anos sem alta.







segunda-feira, junho 09, 2008

Mamãe, eu quero ir para Hollywood!


Deste muito jovem Sweet Girl planejava altos vôos e sonhava com o estrelato. Frequentemente era flagrada com os vestidos maternos ajustados à seu então pequeno corpo e com enchimentos de algodão nos sapatos, dançando freneticamente os ritmos da moda. Quando era surpreendida em momento de estrelato solitário, colocava as mãos na cintura e repetia, galhofeiramente e sem medo de estupefacear os presentes:

-Ai, mami, sou ou não sou a mais mais do pedaço? Um dia serei muito famosa, mas muito mesmo.

E os meses e anos passavam, Sweet Girl sempre com a idéia fixa de que o estrelato estaria do outro lado da serra, apenas aguardando sua chegada a novas paisagens. Até que chega a era do rádio, e eis que a moça se torna macaca de auditório, entoando em alto e bom som: "Eu que deveria estar aí, suas barangas raquíticas, eu que quase fui Miss Suéter no Baile Municipal de Pasárgadaaaaaaaaaa!!!!!!". Invariavelmente era convidada gentilmente a se retirar pelos seguranças do local, não sem protestar muito durante sua saída e transformando o acontecimento em notícia dos jornais locais. Quando não podia se deslocar até as estações de rádio, punha-se em frente ao aparelho radiofônico e, enquanto ouvia cânticos de Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Francisco Alves e toda essa turma, colocava as mãos no coração e suspirava longamente, ansiando pelo dia em que estaria entre seus colegas de profissão. Vale ressaltar que Sweet Girl só arriscava-se a cantar no banheiro, enquanto sonhava que estava em uma banheira de espumas com sais, tendo a seu lado um mordomo a lhe servir prosecco e caviar iraniano.

Eis que Brasília é inaugurada, então a moça consegue uma maneira de se infiltrar entre os membros da comitiva presidencial e suas poses lânguidas são publicadas no extinto "O Cruzeiro", com o título "A Louca dos Candangos". Já nesse período tem como grande ídala Marylin Monroe. Quando saía às ruas, se embonecava toda, sapecando uma pintinha no canto da boca, colocava um bom batom grená nos lábios, vestia seu melhor espartilho tendo um vestido branco muito rodado como ornamento principal, um salto e ficava na frente da loja de eletrodomésticos, de preferência na parte de ventiladores, esperando que suas saias fossem arribadas pelo vento e ela fosse convidada para uma refilmagem de "O Pecado Mora ao Lado".

Isso sem esquecer de comentar que também idolatrava atrizes do porte de Audrey Hepburn, Claudia Cardinale, Sophia Loren, Gina Lollobrigida e algumas mais cujo nome me foge à mente, e cismava que ainda seria a musa inspiradora de Truffaut. Se bem que ela teria adorado de igual forma ser a musa de Ipanema, mesmo se em vez disso fosse a Representante Internacional das praias de Guarapari. Foi uma das pioneiras em usar o famoso duas-peças, em um tempo em que isso ainda era considerado artigo indecente para ser usado pelas moças de boa família.

Eis que vem a nós a Jovem Guarda com seu alucinante iéiéié. Sweet Girl não perde tempo e se torna cover da nossa Ternurinha, a Vanderléia. Com suas botas de cano longo e sua minissaia mostrando várias polegadas acima dos seus joelhos, a moça é fartamente convidada para festas de debutantes e despedidas de solteiros, complementando assim sua renda e ajudando nas despesas familiares. Mas Sweet Girl não desistia da fama e, temendo ser reconhecida nas ruas, costuma usar uma faixa nos cabelos, grandes óculos escuros, em voga naquela época, um bom sobretudo a despeito do clima desértico de Pasárgada e sapatos de bico quadrado. Uma perfeita dama dos anos 60.

Naquele tempo eclode o maio de 68 em Paris e consequentemente manifestações estudantis país afora, sendo que Sweet Girl não perde tempo e entra no clima de contracultura. Não que ela fosse reivindicadora muito menos estudante, mas sabia que isso lhe daria visibilidade e sua foto provavelmente seria estampada nos jornais, nem que fosse na seção policial.

Eis que mais um período da sua vida tem fim, e chegam os anos 80, o new age e over, e a moça não se roga a usar largas ombreiras e calças jeans de cós altíssimo. Estava abafando, e sabia que era admirada e mesmo seria um ícone de comportamento do momento, mas o tempo passa e Sweet Girl adquire outras prioridades na vida. Mas nunca se esquece de que um dia foi a mais mais do pedaço.

Estamos nos anos 2000, e, figurino by Barred´s e sapatos Stilletto, ela é toda picardia dirigindo loucamente pelas ruas de Pasárgada e retocando a maquiagem a cada parada no semáforo. Mas ela ainda não desistiu de ser famosa, e ela sabe que é grande. Mesmo que no seu inconsciente. Sweet Girl só quer um lugar ao sol, e isso todos nós queremos, mesmo que não percebamos nunca esse fato.