sábado, julho 18, 2009

Sobre o Existir


Que eu seja doce, que o meu fardo se torne mais leve, que eu faça por merecer você na minha vida, que eu me torne um novo ser a cada dia por você, para você, em você. Com você, a quem eu quero tão bem e desejo como se fosse parte integrante de mim. Que o meu corpo se torne cada vez mais faminto, mas em contrapartida que eu possa alimentar sua alma com o melhor que tenho e sou. Que eu me reinvente a cada dia, e em todas as horas a saudade se transforme em pura e mais singela felicidade. Existindo a felicidade, e se não eu a criarei enquanto passeio pelas calçadas procurando seu rosto e cheiro nos passantes. Que eu sinta sua pele no frio tampo da mesa nos muitos momentos de ausência compulsória. Que sua voz seja o meu elixir para as madrugadas insones. Que eu prove do seu mel, do seu suor, do seu cheiro, e que seu sabor me remete a meus alimentos preferidos. Que, no silêncio da tarde morna, eu contorne seu corpo e o afague seus cabelos contando meus sonhos mais secretos e fantasias inconfessáveis. Que o meu sentir por você seja dividido entre nós de tal forma que o estoque seja mais que o suficiente pára seus olhos em brasa. Que a despensa nunca conheça tempos de carestia. Que, se você por qualquer motivo que seja e eu não puder interferir. que me doas ainda mais na alma por não querer te ver sofrer. Que, ao fechares a porta, eu sinta ainda seu perfume longamente pela casa. Que a sua alegria seja o benfazejo de todos os espaços que ainda não ocupas nas minhas veias. Faça-me teu as 24 horas do dia e eu te faço minha. Sem ressalvas. Corpo e alma em sintonia. Como a música que toca inconscientemente. Assim te quero, incondicionalmente. Mesmo que de forma contraditória.

Que eu coloque os dedos em sua boca quando o silêncio se torne indispensável. Que, ao olhar pelos vidros opacos por causa das gotas da chuva, eu sinta saudade de quando te encontrei pela primeira vez naquela manhã nublada. Que eu saiba calar nos momentos apropriados e, quando necessário, que as poucas palavras que proferir sejam lançadas diretamente ao seu coração. Que eu saiba colocar no papel minhas vicissitudes da alma e toque também na sua. Que, antes de abrires a boca, que eu saiba de antemão o que será dito, confidenciado. Que fales sussurando sem que seja necessário que eu peças: Fale mais alto. Quero-te sem alarde e no silêncio da noite, como se não houvesse mais nada naquele instante de maior importância. Quero deitar na areia da praia, olhar para os lados e, enquanto visualizo o horizonte, lembrar de ti com certa nostalgia. Saudades do que ainda não vivi e senti. Que eu alargue ainda mais meus horizontes. Que eu viva outras vidas, seja muitos mais, que meu passado seja reduzido a poeira. E, principalmente, que você me seja primordial, somente o seu corpo e o que mais acarretar nele. E, que amanhã, todos os outros corpos se resumam a um só: o seu.

terça-feira, julho 07, 2009

Sobre o futuro


Não sei precisar quando será, mas esse dia chegará, quando o universo conspirará a meu favor e, ao pegar documentos ou papéis espalhados pela calçada, me depararei com sua mão e seu sorriso. Naquele momento saberei que precisava de ti, da tua lágrima, de sua voz e principalmente do seu corpo. Que juntamente com o meu será um só. Enquanto durar o que sentirei por ti, dançarei pelo jardim com uma euforia que nem sabia possuir em meu interior. Recitarei poemas no escuro enquanto dormes com uma satisfação inenarrável. Cozinharei comidas simples com sabor de banquetes faraônicos enquanto passarei meu pé pela sua perna, colocarei suas mãos entre as minhas e te dirão o quanto és importante para mim. Direi a meus amigos, conhecidos e familiares de ti como quem fala de uma pedra preciosa. Terei suas mãos entre as minhas, beijar-te-ei e nada direi, mas meus olhos serão mais que suficientes para expressar o processo irreversível que fizeste em meu ser.

Chorarei de saudades quando viajares a trabalho e se afastares de mim por três dias que sejam, esperarei o telefone tocar durante a tarde, quererei compartilhar com o meu próximo que a felicidade se faz por tão poucas coisas. Na hora do almoço, contarei os minutos restantes para que eu possa retornar à casa e te abraçar longamente, apenas sentindo esse calor que me faltou durante as longas horas sem ti. Fecharei os olhos e lembrarei de músicas que tocarão enquanto estiver a seu lado. Iremos ao cinema e jogaremos pipoca nas cenas em que a mocinha se declara languidamente para o não tão mocinho assim. Riremos feito bobos e contagiaremos todos os outros com nossa canastrice. Veremos uma criança na rua e dizer-te-ei com minha mão entre a sua: Eu quero uma assim, só nossa.

Ainda não tenho nada disso, mas um dia hei de ter e ser. Quando eu assim for, me serei a cada novo amanhecer e descobrirei não somente um amor, mas vários amores em um só. Não frequentarei mais casas noturnas nem beijarei somente pela necessidade física, pois não terei somente um corpo, mas dois. Dois beijos, quatro pernas e inúmeras necessidades. Seres, fazeres e quereres. Nesse dia eu direi que não passei incólume. E, se um dia fores embora, escreverei nesse mesmo blog que muito amei e também muito fui amado. Chorarei amargamente pelo que não tem mais volta, mas terei vivido e sido. Serei dois corações. E serei muito mais depois do amor.

sábado, junho 27, 2009

Sobre o Princípio


Enrolei a barra da calça até os joelhos, tirei os sapatos e me pus a andar pelo terreno cuja chuva recente ainda umedecia o barro, primeiro pelas suas laterais e depois desordenadamente, sem ao menos seguir uma ordem prática. Andava e me punha a imaginar sobre a construção que seria erguida dentro em breve naquele mesmo local, mas nada esquematizado, apenas uma breve lembrança de que dentro em pouco não existiria mais a terra nua, e sim um prédio que abrigaria várias pessoas e circunstâncias, situações e almas, carnes e vozes. Eu não me interessava realmente por essas pessoas, e sim pelo vazio que havia naquele instante, o que me unia ao terreno.Da mesma forma que havia nudez naquele local, eu também me havia posto nu, não de corpo,mas de todo o resto.

Querendo saber como éramos nós quando nós, quando ainda não havíamos vestido os tecidos que formam os complicados meandros da nossa existência, no instante em que ainda não havíamos nos dado conta que a raiz de todas as coisas seria a despidez de algo que não saberia precisar. Apenas o despojamento de todas as coisas, somente o início, puro e simples. O que desencadearia todo o processo. Mas cujas consequências na realidade não me importavam naquele instante, o que eu me interessava era antes da primeira palavra proferida, da primeira pegada, do primeiro ato, do primeiro gesto, do primeiro beijo e principalmente antes da visão do princípio, da gênese.

O porvir era apenas consequência, desviaria os olhos pela não-importância que isso havia adquirido em mim naquela hora. O que eu queria mesmo saber é como as coisas funcionavam quando elas nem mesmo haviam se iniciado, se é que houve um início para elas ou elas eram mesmo antes de se conhecerem como tais. Como terei sido antes do seu princípio, aliás, houve um princípio? Se sim, quando o foi e aonde coloquei o corpo quando assim o existenciei? E se houvesse me posicionado diferente, como teria sido essa gênese? Afinal, eu me iniciei de alguma forma ou ainda me encontro no ponto de partida, no que os esportistas consideram o grid de largada?

Antes que eu calçasse de volta meus sapatos, arrumasse a calça e saísse daquele lugar, tinha sentido que de certa forma eu era como aquela área desabitada e silenciosa. Me era e ainda sou, sem sombra de dúvidas. Após o assentamento do primeiro tijolo, as coisas nunca mais seriam as mesmas e um processo de modificação imutável haveria de ser praticado naquele lugar. Eu só queria saber como eram as coisas, se é que elas foram algo, antes do tal assentamento. Depois dessa inutilidade, bocejo novamente pois a sola dos meus pés já provocou alguma alteração no estado natural daquele espaço, assim como das pisadas anteriores. Ou seja, acho que nunca houve o início, o início por si só já o é.

sábado, junho 20, 2009

Sobre o Bocejo


Quando uma tarde me olhei na vidraça, percebi algumas marcas que ontem não estavam lá. Cicatrizes do que não percebia ter e ser. Fazer com que elas sumam é matéria ingrata, pois teria de me desfazer de todo o resto que me compõe, corpo e alma. Dicotomia. Armistício. Silêncio e voz. Sapatilhas e andrajos. Algo mais. Sei lá o que e mais um pouco.

Bocejei de madrugada e o som reverberou pelo resto do dia. Enquanto bocejava, percebi os dentes semicerrados tapados pela boca. Bocejava de mim, por não ter vivido em vários corpos e almas, e também bocejo de surpresa, de antemão pelo inesperado. Bocejo também de revolta pelo que não presenciei.

Adélia Prado esteve em Cubatão há alguns dias e soube do ocorrido horas depois. Quando surpreendido com o fato, restou-me apenas o bocejo como resposta. Obviamente o ideal seria que eu quebrasse os bibelôs da sala ou culpasse o neoliberalismo pelo meu lapso. Ou, na pior das hipóteses, entrar em um ônibus e oferecer a promoção: Senhores passageiros, tenho mulher e cinco filhos para criar, por favor ajudem-me comprando os chocolates Frederico. Na compra de três chocolates, enviarei por e-mail, como brinde, um quinto de uma bala Juquinha Moura Leão. Mas fiz beicinho e me autovilipendiei de forma ostentiva e costumeira. Eu ainda hei de tirar um daguerreótipo com Adélia. Nem que eu faça muxoxo e ameace, desde aquele instante, tornar-me leitor de Augusto Cury. Sinto que Adélia encheria seus olhos de lágrima e compadecimento de minha pobre alma e, sob súplicas, rogar-me-ia que parasse com tais sandices.

Pus-me então em posição de lótus, fechei os olhos a bocejar freneticamente, me imaginando no reino das delícias comestíveis e espirituais. Bocejo por você, por eu e principalmente por todos nós, cativos e sedentos. Principalmente os imbecis idealistas e que almejam ser melhores em alguma coisa, apesar de todas as dores passadas e presentes, mesmo que as estomacais.

Meu vizinho de banco coçou a cabeça e suspirou. Eu também suspirei, aproveitando o ensejo. E de quebra coloquei a mãozinha no queixo. Em nada pensei. Só me sobrou a revolta interior pelo não acontecido, pelo silêncio do dia e pelo ronco do motor do carro que passa na rua de trás. Viver tem sido tão enfadonho. Não tenho tido grandes emoções nem grandes depressões, ultimamente ando tão equilibrado que mal tenho tido porres homéricos com direitos a sabedoria de rodoviária. Falta-me tempo para as baboseiras comesinhas do cotidiano. Tom Zé me despreza, Vanderléia me saúda e as coristas do Roberto Carlos dançam ao som do Tchuba-Ruba da Mallu Magalhães. Ai meu Jesusinho, quanta cretinice. Me ser é tão sem-graça que arrancar duas linhas sobre meu eu é tarefa inglória.

Canalhices à parte, bocejo. E a imbecilidade de hoje encerro.



domingo, junho 07, 2009

Sobre o Envelhecer




Não aceito as pessoas que tentam minimizar os anos que se passam, como se eles de nada contassem e nós fôssemos imunes aos tempos idos. Envelhecer é assunto tratado de forma equivalente à morte, dois tabus que considero extremamente ultrapassados e delicados. Falar sobre e com a velhice é pisar em ovos adquiridos em promoção no supermercado do bairro. Dificilmente alguém assumirá que a juventude se perdeu em alguma das esquinas ou árvores com quem cruzamos pelos dias decorridos, pelo que não se terá mais. Dirão para aqueles que olham para as cicatrizes no corpo e na alma como uma forma de consolo: És ainda tão jovem, tens tanto a viver, não se deprecie. Envelhecer não é se depreciar, é se assumir como coisa, é saber que o tempo é findo e que a terra está cansada e já não é capaz de produzir coisa alguma, nem mesmo as culturas em que o solo requer menos esforço e insumos agrícolas.


Não confio no elixir da juventude eterna. Que eu me olhe na colher de prata e acaricie em tom de confidência minhas rugas e cabelos brancos. Que eu veja meus olhos e nele assimile o cansaço de ter visto e vivido tantas coisas, algumas doces e boa parte desagradável, atroz. Que eu tenha cansaço nas pálpebras. Que eu tenha os dedos enrugados. Que o meu viço já não seja mais o suficiente para encarar o longo dia de trabalho e que na metade dele eu sente, rode um anel entre os dedos e reconheça as marcas que a vida foi me deixando. Que eu olhe na vitrine e veja em mim a soma de todos nós e do que ainda porventura virei a ser. Que meu saldo ainda seja positivo e que ao tirar o extrato eu não veja números, mas sim reentrâncias. Que me sobre. Que eu seja ainda a sobra, que me esbalde no que fiz e naquilo que me exigi. Que a carne não me seja ainda tão cansada a ponto de colocar a cadeira de praia na areia e, ao olhar o mar, eu diga a mim mesmo que as ondas são o meu futuro. Eu sou o final daquele mesmo oceano, o braço de mar e a beira do rio.


Que eu saiba viver dentro de meu corpo e viver do cálice que cada dia eu me sirvo. Que eu apenas ache graça na juventude e diga que o tempo tudo curará, ou acentuará. Que eu não minta minha verdadeira miséria e saiba dizer sem tom de dores que eu fui incólume. Incólume sei que passei, e nada posso fazer para reverter o que o sol dos quereres antigos não me fez ter e ser. Mas que ao anoitecer eu olhe para o que me fui no dia que se foi e não me castigar pelo como deixei de proceder. Enfim, pois bem, que eu saiba envelhecer. Eu já envelheci e o que me virá apenas me acrescentará. Algumas coisas fatalmente me subtrairá, mas em nada poderei agir, pois meu corpo é uma espécie de matemática ensandecida. Cada dobra que os anos me trouxeram são atestados de benfazejo. Eu me fui, eu continuo e me sendo e ainda me serei pelos anos que me sobram. Mais velho, fato consumado. Mais experiente não sei dizer. Não posso propalar que eu tenho sabedoria, pois a ignorância é meu bem mais precioso. Mas, quando jovem, não poderia me assumir inteligente. Agora, tendo sido jovem e em vias da decrepitude, eu dou-me o direito do riso por ser estapafúrdio.


Posso ter colocado aqui as coisas mais imbecis, mas se me autocensurar nenhuma palavra me será genuína. Só me sou na confusão e no obscuro, sendo assim desculpem-me.


Resumo da ópera: a juventude é rock´n roll e cuba libre, a velhice é Ravel. Cada um que aprecie o que melhor lhe aprouver. Ou o que souber ver.

sábado, maio 30, 2009

Recado para o Fabrício Carpinejar


Fabrício, sente aqui que eu preciso chamar-lhe às falas. A questão é a seguinte: sinto-me o mais boçal dos seres viventes quando tenho em mãos algum texto seu. Como se eu nada tivesse vivido e muito menos algo experimentado. Você consegue fugir do lugar-comum quando se fala em amor, tema tão surrado e exaustivamente destrinchado. Como se o ato de amar fosse quase que exclusivamente para a sua pessoa sensação única e exclusiva, com todas as suas dores e delícias. Por sua causa, sinto-me canalha e putrefato, por ter me rogado a viver alheio a terreno tão frutífero e minado.

Com Fabrício me vi cego, surdo, mudo e leproso. Eu não sei ver, não sei sentir, não sei tocar, falar muito menos existir. Sem passado, presente e futuro. Olho para suas palavras e me vejo olhando para o infinito, como se vivesse em uma redoma de vidro e não tivesse me obrigado a existir desde sempre.

Você me dói, Fabrício Carpinejar, como cacos de vidro cortando fundo minha carne. Como forma de protesto, aqui vai um texto que sou eu, indissoluvelmente. Irremediavelmente esse texto é o meu espelho.

E mais uma ameaça: se eu vivesse no Rio Grande do Sul, eu moraria provisoriamente na sua casa. Levaria um colchão, caderno e algumas canetas. E só sairia de lá com um certificado com sua assinatura registrado em cartório e com algumas testemunhas corroborando que lá estive. Pois não se pode mais ser o mesmo depois de Fabrício Carpinejar.


Não ser amado


Passa-se da idade de casar, como se houvesse idade para isso. Passa-se da idade de ter filhos.Suporta-se o desespero de guardar um cheque em branco assinado com o temor de nunca descontá-lo.
Quem colocou limite em nosso tempo?
Regulamos a nossa vida em comparação com as outras, desde a infância até a maturidade, desde o jardim até o asilo. Semelhante a dirigir com o velocímetro quebrado e comparar o que se anda pelos demais carros.
O ritmo não pode ser imposto por fora.Convence-se de que não se é amado.
Não ser amado é pior do que ser invisível. É narrar o que faltou acontecer. Fica-se grávida da vida que não se teve. O peso de um corpo que sequer existiu para continuá-lo em pensamento.
Não ser amado é pior do que ser invisível. Pois nascer não é o bastante para ninguém.
Não ser amado é o mesmo que carecer de pálpebras.É o mesmo que sofrer uma insônia parcial, somente nos ouvidos. É chamar atenção para as virtudes quando os defeitos não param de falar.
Não ser amado é pior do que ser invisível. As portas do guarda-roupa são as venezianas que espreguiçam a casa, e nada é suficientemente justo para dar folga à alegria.
Não ser amado é não encontrar cintura para as palavras. É um castigo mais severo do que o ódio. É mais grave do que esquecer.
Não ser amado é perder a possibilidade de contestar o próprio destino. É morrer de uma saúde incurável. É participar do mundo como se ele estivesse sempre por ser criado. É colar o fogo porque não há carta para ser queimada.
Não ser amado é se diminuir para dormir, se aquietar no almoço familiar, não mudar a assinatura de adolescente. É pular os fatos por não fazer parte deles. É sentar em uma escada para não cair em falso. É não levar uma foto 3x4 na carteira.É correr o domingo para chegar na segunda.
Não ser amado é um crime que não se teve culpa, um castigo que errou de irmão. É voltar aonde não se esteve.
Não ser amado é concluir que o final poderia ser diferente se tivesse havido um começo.É escolher tudo na vida para contar com receio de faltar história. É a velhice avançar sem trazer vergonha; é a velhice avançar com a indiferença ao colo. É voar como um pássaro e ser chamado de morcego. É gastar o parapeito da janela mais do que a porta.
Não ser amado é acreditar que o amor significa apenas receber.




sábado, maio 23, 2009

Sobre o Olhar




Quando olho, muitas vezes calo-me, mas mesmo assim digo alguma coisa. Não verbalizo, mas exprimo. Faço, quero, desejo, sou, estou. Olhando digo muitos quereres. Somente eu não, mas todos nós homens e mulheres de boa vontade que precisamos de algo que muitas vezes não sabemos dizer com o uso da palavra, mas que ao piscar é expresso da forma mais sutil. A palavra falta, mas o olhar abunda. Abunda sobre o céu, a terra e em tudo que neles há. Inclusive nós, que desejamos o outro com o olhar. Lascivo, pidão, incipiente, quente, terno, fugaz. Olhamos mesmo quando o que vemos não é do nosso agrado. Olhando com olhares tantos quantos sejam os moradores de nossa cidade. O que tu vês não é o mesmo que vejo eu, sendo que falo das mesmíssimas coisas que aparentemente não tem o porquê de serem vistas de forma diferentes. Mas ser humano também é ver só o que se deseja. O que se espera. O que não se tem. O que se poderá ter em um futuro não muito longínquo. O que são apenas delírios sem o dormir. Ver com olhos de crianças, adultos e idosos. Até mesmo ver com os olhos do animal manso e doce que nos pede carinho. O animal não sabe dizer-nos: Me afague. Mas sabemos seu desejo quando olhamo-nos os dois com cumplicidade.

O amante não precisa muitas vezes dizer que ama, mas ele apenas pisca, com as pestanas em brasa. O ser amado sabe nos olhos contém amor. E quem odeia também não diz, pois dizer seria somente exclamar o que está sendo mostrado de forma muito mais voraz com o olhar. Olho para a câmera que me fotografa como se soubesse que além do corpo estou desvelando a alma com meus olhos. Soubesse não, olhando estou demonstrando que assim sinto. Assim me revolto e assim me condôo por tudo ver e nada poder omitir. Quando vi que poderia ver muito mais do que assim imaginava, me vi vendo o sobejo, o exagero. Exageradamente olho as pessoas procurando em seus olhares o que sejam meus olhos.

Mas olhar não pode ser encarado de forma automática, penso eu na mais muda ignorância que não é expressa na palavra. Até porque o olhar nunca se esgota, e está em ciclo eterno de delicada transformação. O olhar me faz, o olhar faz você, o olhar faz todos nós pedintes de um olhar mais crítico. Eu vivo, portanto vejo. O passante ao meu lado, as árvores, carros, prédios e gatos refastelados na calçada. O que me impressiona não é o simplesmente ver, mas como se vê. A posição que se toma perante o privilégio. Sendo assim, deliciem-se ou doem-se com os olhos. Que tanto pode alimentar quanto nos fazer mais famélicos do que comumente somos.

Talvez no dia em que souber como olhar eu seja mais pleno, mais completo. Talvez eu olhe para dentro com menos acidez e mais doçura.

terça-feira, maio 19, 2009

Sobre o Vôo


- Eu quero voar!!!!!!!!!! Já estou farto dos desenganos que me traz o chão pedregoso, quero tocar nas asas das aves e experimentar uma sensação de liberdade nunca antes vivida. Eu quero mais com o que me contentar, eu quero ter muito mais para poder sobejar, forrar os bolsos, distribuir aos meus colegas. Eu quero a ganância do sobrar. Quero ter o ímpeto de espalhar sementes no chão antes da chuva e ser o responsável pelo criar. Quero deitar na cama e ter ao meu redor o sobejo. Quero lambuzar a mim e aos outros desse vôo entusiasmado. Eu quero dançar no gramado em plena tarde abafada sem ter com o que me ocupar. Que o pão não me seja caro nem fastidioso. Que as horas passem sem eu me dar conta delas. Que eu seja irresponsável com as contas a chegar. Que no cinema eu possa gargalhar sem aos outros incomodar. Que o verbo eu possa usar sem censura, e no coração dos outros eu possa tocar. Mais, mais, mais e muito mais.

Pois bem, assim o quis e assim eu o fiz. Quando dei por mim já estava a muitos pés de altura e no infinito campo de visão eu só via verde e mais verde, vacas pastando, plantações de hortaliças e ao fundo construções do que supus ser uma vila.

Preparava-me para o salto sem em nada externo pensar. Só queria chegar naquele chão e perfume novo aspirar. De tudo que me fosse novo experimentar. Surdo estava ao que o instrutor me dizia, inflamado estava pela ânsia do que estava a me recepcionar. Tanto esperei por esse vôo que tudo o mais se tinha tornado dispensável. Se, se.. Bah, do que me importavam os prejuízos quando lá embaixo eu teria uma mina a escavar. Eu não queria pensar, mas agir, acontecer, ser, poder. Tudo que me fora negado eu fazia questão de ter, nem que para isso eu tivesse que portas arrombar e vidraças arrebentar. Aquilo tudo lá embaixo era só meu, todo meu, irremediavelmente meu.

1,2,3...Pulei. O barulho do som do céu me ensurdecia, com as nuvens muito densas acima de mim a me acompanhar e dividir comigo aquele local de passagem. Não sei quanto tempo ali fiquei muito menos quantas piruetas executei. Eu ria como criança que se lambuza de sorvete. Como era bom voar. Ainda me dói de alegria aquele vôo, a sensação de liberdade conquistada. Esfregava as mãos de puro contentamento. Era chegada a minha hora.O cheiro de ar puro adentrava meus pulmóes. Tinha tanta coisa a fazer quando botasse os pés na terra vermelha...

Pousei.

Logo após acordei.

Na cozinha a água do café fervia no bule.

domingo, maio 17, 2009

Sobre a Palavra


- Ei, Dindi, o que tanto você coloca nesse pedaço de papel?

A caneta caiu no chão e fiquei com a mão pendente no ar. Como poderia responder-lhe se nem ao menos eu tenho tal resposta? Tirei os óculos e coloquei-os cuidadosamente sobre a mesa de centro. Teria que me despir e me aventurar por mares desconhecidos se quisesse dar continuidade ao assunto. Durante algum tempo abria a boca mas dela não saía som algum. Uma espécie de atordoamento havia se apossado de mim e anestesiado fiquei naquele ambiente, claro e silencioso. Estralei os dedos em sinal de nervosismo e uma saliva amarga se alojava entre os dentes. Meus batimentos cardíacos se aceleravam e uma força do que a que supunha ter se apossara de mim:

- Acho que escrevo simplesmente porque não choro mais. Já há tão longo tempo que não choro mais por me ser, mesmo que seja de alegria por sobreviver apesar dos pesares. Vivo de olhos baixos, mas quando os levanto o sol continua brilhando, as pessoas passam apressadas ao meu redor, os prédios continuam cinzentos e os músicos contando moedas nas praças. O mundo está aí, girando sem cessar, a roda incessante rodando e rodando independente do meu piscar para observá-las. Crianças nascem, moribundos falecem, flores desabrocham, casais se desfazem e batem as portas dos apartamentos com revolta, as ondas continuam batendo nas rebentações, bancários autenticam documentos, idosos consomem e passeiam nos supermercados, adolescentes riem e se beijam, vizinhas fofocam, torcedores matam e morrem por seus times e tudo o mais acontece durante as vírgulas em que pontuo as frases. Mesmo que eu não existisse, nada seria modificado. Quando cheguei aqui, a sorte já havia sido lançada e os jogadores dispunham as suas armas nas apostas. Quem tem de se adaptar sou eu, e não os outros. Enquanto alguns apalpam as paredes, eu toco na caneta e olho a esmo procurando algo com o que preencher essas linhas. Se algo nisso tudo é válido será consequência do que está sendo dito agora, ou mesmo do eco das coisas passadas, das gaivotas em meio aos faróis. Eu só quero um lugar na engrenagem, ali mesmo onde existe aquele espaço vazio e macilento. Mais um amanhecer, outro dia, mais uma mão e um sorriso, chaminés de fábricas, boinas, tangos e elevadores. Sapatos e cactos. Água sem gás e mármores nas bancadas dos zeladores. Tulipas e telhados. Gaudi e Tarkowski. Televisão e poesia. Camisetas e portas. Gravatas e gritarias. Britadeiras e buzinas. Não me pergunte mais pois o gosto de vômito permanece na boca. Em mim mesmo e em todas as outras coisas. Feche as cortinas. Os olhos. A alma.

quarta-feira, abril 29, 2009

Alguma música


Antes mesmo que eu desse conta do que havia ao meu redor, mesmo acima ou abaixo, a música já existia e tocava, lentamente ou de forma rápida, sem que eu pudesse perceber de onde ela provinha. Não havia festa alguma nas casas da vizinhança muito menos um bar temático ou casa noturna. Mas havia a minha imaginação, meu inconsciente. E era do meu eu profundo que tocava algo, dependendo das circunstâncias. Mesmo que eu quisesse somente o silêncio, a música tocava por iniciativas próprias. E era justamente nos momentos mais silenciosos que o som reverberava no meu eu de dentro para o meu eu de fora. Negras vozes roucas de alguns cigarros, algum álcool e muita solidão abafadas por sons de saxofone e cantando o viver e sofrer. Um palco quase vazio, contendo apenas um vulto, um violão ao colo e à sua frente um microfone. O vulto cantava de olhos fechados, como se não quisesse deixar escapar alguma coisa que sua voz não exprimia, mas somente o seu olhar. Bem diz-se que olhares dizem muito mais do que as palavra, às vezes lançada em precipício. Música dançante, com um grupo considerável de pessoas iluminadas por luzes coloridas e abafadas sacudindo seus corpos e à sua frente guitarras, baterias e alguns outros instrumentos, obviamente manuseados por outros vultos escuros. Uma mulher gorda em um espaço pequeno recitando suas desditas e clamando a outrora do Trás os Montes, em meio aos parreirais e com alguma angústia no ser e proceder. Quando tudo parecia mais claro e límpido. Em um tempo que não volta mais, quando ela achava que não haveria separações e dores futuras. Em uma época em que não se sabia que cada amanhecer trazia juntamente alguns novos desafios. E, finalmente, um local parecido com um cabaré ou cassino, onde, no palco, uma orquestra tocando sons instrumentais entremeados por um homem entoando sons que não saberia identificar a qual ritmo pertence.

Pois bem: quem nunca percebeu a mesma música tocando no inconsciente por diversas vezes que atire a primeira pedra. Ou mesmo músicas, músicas e mais músicas em uma eterna sinfonia mental. A música faz parte da natureza e condição humanas há tempos infindos, cumprindo seu respectivo papel e se transformando tanto em forma de redenção humana quanto entretenimento vazio, que se esgota quando as luzes se apagam e o intérprete sai de cena. Ouvimos música na rua, no trabalho, nos centros comerciais, nos hipermercados, nas boates, nos prédios residenciais, nas estradas, nos postos de gasolina e, principalmente, eu ouço música de madrugada, quando acendo meu cigarro no quintal de casa e sento. Quando fecho os olhos, tenho à minha frente uma espécie de juke box ambulante. Algumas vezes tenho vontade de sair dançando pelo azulejo, sufocando por uma espécie de necessidade de me ser, a cada novo dia. Ser novo. Ser diferente do que fui ontem. Amanhecer para uma nova vida, que não a que tenho. Experimentar novos sabores, novos cheiros, tatear paredes novas, pisar em novos gramados, ou seja, ser pleno de alguma forma. Sem filosofia barata, nem grandes devaneios. Sem pensar, imaginar ou querer ser. Apenas sendo. Algo ou alguém. Ir-me embora pra Pasárgada mais uma vez. Recitar Hilda Hilst enquanto não amanhece. Colocar as mãos no bolso, andar a esmo com um fone de ouvido e me abstrair do barulho ao meu redor. Enfim, elucubrar, ser, pensar e fazer. De forma torta, talvez. Mas na tortuosidade encontrar a redenção.



sexta-feira, abril 10, 2009

Leia o próximo texto


De vez em quando tenho ímpetos de sair do mundo real e fantasiar, elucubrar sobre pequenas coisas, fadas, histórias infantis em geral, Monteiro Lobato, Alladin e Sherazade, O Pequeno Príncipe, Marquês de Sade, Zé do Caixão versão teenager, O Mundo Íntimo de Laura da Clarice Lispector e afins, eu me imagino com um negócio próprio, alguma coisa que, além de me fornecer subsídio financeiro, me dê algum sentido a mais na vida, se bem que comandando um negócio próprio eu não terei tempo de elucubrar sobre a morte do gado na fazenda do Nhô Totonho durante a grande estiagem de 1980.

Mas são divagações geralmente com prazo certo de nascimento e morte, sou por demais prático e realista para me ver tomado por situações por demais supositórias para se tornarem concretas. Ocasionalmente me dou ao direito de refletir sobre uma frase que é senso comum: as respostas não estão em fatores externos, mas somente dentro de nós poderemos achá-las. Sendo assim, adoraria que meu timo e vesícula fossem videntes e me solucionassem certas perguntas infames que teimo em formular por pura cretinice e falta de coisa melhor a se fazer.

Pois bem: cismei como burro empacado que um dia (Quiçá? Quem sabe? Talvez? Que rufem os tambores!) eu tenha um negócio meu, que seria uma livraria. É claro que não possuo um tostão furado que me proporcione a banca mais vagabunda do sebo mais insidioso do centro da cidade. Mas mesmo assim me imagino em meio a prateleiras e mais prateleiras de livros, muitos livros, e futuramente um local somente para CD´s de qualidade e um café bem ajeitadinho onde a intelectualidade possa degustar seu pingado com manteiga rançosa.

O nome dela obviamente ainda não formulei, por dois fatores: se o fizesse estaria levando a sério demais uma perspectiva tão remota e porque minha pequena criatividade não me seja útil nos momentos em que ela se torna necessária. Mas faço questão de CNPJ, nome fantasia, taxa do contador, sonegação de alguns impostos pela Receita Federal e o que mais meu pacote da CVC cobrir.

Se alguma criatura infame adentrar meu humilde estabelecimento em busca do mais novo best seller de Zíbia Gasparetto irei expulsá-la aos berros, se necessário for obterei amparo policial e com direito a retratação jurídica. Em contrapartida, quando algum cliente em potencial chegar a mim em busca da antologica poética de Sylvia Plath, ele (a) será convidado a um café com biscoitos amanteigados, fecharei meu estabelecimento em prol de uma privacidade maior, e, se não fosse tão hábil comerciante, forneceria à tal pessoa boa parte do meu estoque literário sem em troca de algum papel-moeda.

Falando assim até podem pensar que ter negócio próprio no Brasil é tão simples assim, em uma terra em que boa parte dos negócios não perduram por mais de cinco anos. Ainda mais em um ramo considerado supérfluo e com uma parcela de consumidores tão pequenas. Há alguns dias atrás estava a perambular pelo Shopping Praiamar, na cidade de São Vicente, no final de semana, quando usualmente a quantidade de transeuntes no local aumenta. E realmente a quantidade de pessoas em seus corredores e lojas era considerável, enquanto a livraria Siciliano estava praticamente às moscas, levando em consideração que é uma loja grande e bem-localizada. De qualquer forma esse assunto renderia assunto para algumas horas de conversa e minha intenção não é essa. Até porque não possuo conhecimento suficientes para tal.

Depois de muita baboseira, eis que digo: se cuidem Saraiva, Siciliano, FNAC, Escariz, Laselva, Livraria da Vila, Livraria da Travessa, Cultura e afins. Um dia eu chego no mercado. Tremei, incautos!*


*Não riam, eu tenho plena consciência do ridículo. Ou não terei?

domingo, março 22, 2009

O Pundonor


Vivo em uma cidade litorânea, onde é perfeitamente natural que seus habitantes e turistas usufruam de suas praias como instrumento de lazer nos finais de semana e feriados ensolarados. Digo até que o mar provoca uma certa modificação nos costumes das indumentárias de seus moradores, que aproveitam-se do clima para vestirem-se ou despirem-se de forma mais adequada e até mesmo despudorada. Praticamente uma pouca-vergonha que enrubesce os mais tradicionalistas nesse quesito como eu. Que a cada dia perde mais adeptos.

Se me perguntarem qual foi a última vez em que frequentei as areias fétidas do município onde resido, ficarei estupefato e durante certo tempo emudecido, pois a resposta me é tão longínqua que o ideal seria que eu dissesse: "Por quem me tomas? Desde quando sou chegado a essas impudicícias da carne?". Mas simplesmente digo que não costumo expor minha bela figura em tais ambientes. Tenho uma tonalidade de pele nada condinzente com a velha máxima de um barquinho ao sol, crianças construindo castelinhos de areia e pessoas saudáveis e felizes sem medo de um futuro câncer de pele. Só sou queimado nas partes menos pudendas que não consigo esconder com as roupas que costumo usar, como o rosto e a parte inferior do braço, ainda assim devido ao não-costume de utilização da burqa que anseio adquirir em algum mercado de rua do Afeganistão, claro que em uma transação virtual.

Mas, falando francamente, não me exponho de tal forma por um motivo específico que poderia provocar risos de escárnio nos canalhas de plantão:tenho pavor à execração pública. Sim, ver-me quase despido em uma praia seria o mesmo que provocar catarse nos presentes. Tenho calafrios em imaginar a reação dos presentes: as senhoras se armariam dos seus guarda-chuvas e me atacariam com eles sem o mínimo de dó nem piedade, as crianças imediatamente seriam instruídas a tampar suas vistas inocentes e pensar no último filme do Shrek, os senhores aposentados continuariam a jogar sua partida de truco levantando as mãos aos céus rogando a Deus que me desse discernimento e se comprazesse da minha alma, as mulheres-frutas e as não tão chorariam amarguradas pelas areias por tal visão bestial, e, por conseguinte, armados de paus e pedras, os moços surfistas insurgiriam contra mim proclamando que o Apocalipse havia chegado. E sem contar que grande parte dos restantes espectadores haveria de frequentar durante longo período os consultórios psicológicos e porque não dizer psicanalíticos, procurando apagar de suas mentes tal espetáculo deprimente.

Devo confessar que, de qualquer maneira, a exposição do meu corpo me provoca calafrios. Sinto-me invadido no meu mais íntimo quando exponho partes desse corpo mal-ajambrado a quem quer que seja. Se eu não fico pelado sob alguma hipótese? Sim, respondo, durante o banho, com a porta fechada, as janelas lacradas e sob o mais absoluto breu. Tenho até medo do que poderei provocar a mim mesmo observando-me como o fruto do pecado de Adão e Eva.

Sendo assim, só me resta rogar ao meu bom pai que me dê discernimento para que eu possa conviver em harmonia com esse castigo divino que é o meu corpo. Que é o único que possuo, ainda que trocado por merda ainda necessite devolver troco substancial. E assim continuo vivendo, fora de todos os padrões estético, incompleto e em busca do essencial que transcenda a feiúra estrutural que ainda será tema de alguma obra de arte ou estudo científico.



quarta-feira, março 11, 2009

Aos meus amigos


Porque eu tenho uma fome que só se sacia com uma fome maior do que aquela que a originou. E é essa mesma fome que eu imagino ter que me faz salivar em busca do alimento inexistente. Nessa já minha considerável longa vida cruzei com muitas pessoas, o que é mais absolutamente natural, mesmo sendo eu de personalidade solitária e por vezes antisocial. Obviamente algumas pessoas acabaram riscando com estilete ou mesmo usando o machado para romper a parede que me separa dos demais. Fiz poucos, mas consideráveis amigos e camaradas que me evocam lembranças vespertinas.

Cada qual à sua maneira e tempo certo, eis que entram cena aqueles que alimentam ainda mais a minha fome e não se contentam em ser, pura e simplesmente, mas me trazem travessas e mais travessas desprovidas de conteúdo e falam-me sorrateiramente: "Venha comer o maná que vos trago de bom grado."

Pois eu não quero a satisfação, a sensação de estômago abarrotado. Eu quero aqueles que me tragam mais fome e sede ainda. E que, de preferência, venham a mim assim, sentem-se na mesa nua e bradem: "Comemos, nos empanturremos, amigos.". E esses tem me feito a cada dia mais procurar restos de alguma coisa em tais pratos. Se assim me vêem, jogam as sobras para que eu não as possa ter.

E são esses os que me interessam. A lucidez não me agrada. Eu não quero a coisa pronta muito menos seus ingredientes. Venham a mim os loucos, mas mansos de coração e de sensibilidade apurada. E esse eu os tenho. Deles não abro mão. Para o deserto me levam, comigo permanecerão. E, se assim for, comigo de lá sairão rumo a um lugar onde só entrem os de mais puro coração.

Como disse Adélia Prado: "Eu não quero a faca nem o queijo. Quero a fome.". Mas outro tempo virá em que farei questão de colocar-me ao centro e repartir igualmente o pão e o vinho com todos aqueles insanos e por isso caros. De valor incalculável. Aí sim nos empanturraremos, até uma nova fome.

segunda-feira, março 02, 2009

Caio Fernando Abreu


No meu caso, falar de Caio se torna perigoso pois posso descambar para a idolatria ou puro pieguismo, devido à grande identificação que sinto por sua obra. De qualquer forma, assumo o risco e desde já peço desculpas pelos eventuais excessos que venha cometer falando sobre ele.

Caio, ou Caio F. (como gostava de ser chamado, em alusão à Christiane F., Drogada e Prostituída, tema de livro e filme) faleceu em São Paulo, a 25 de fevereiro de 1996, em decorrência de problemas causados por ser soropositivo. Posso dizer resumidamente que ele foi um grande ícone da literatura dos anos 80, sendo no seu tempo rechaçado pelos intelectuais e críticos por assumidamente dizer que tinha grande influência da cultura pop do seu tempo. Um escritor underground que durante muito tempo, ou até mesmo os dias atuais, esteve relegado ao submundo dos malditos, por causa de sua literatura atemporal e por vezes dark. Darkésima, em alguns pontos, relembrado desde já Dama da Noite, texto contido em Os Dragões não Conhecem o Paraíso.

Nascido em Santiago do Boqueirão, pequena cidade gaúcha a poucos quilômetros da divisa com a Argentina, apaixonado desde jovem por cinema e artes em geral, se aventura na cidade grande no final da adolescência procurando dar vazão a seu afã de expressão através da palavra, tendo se sustentado basicamente do jornalismo diário, pois no Brasil são raríssimos aqueles que conseguem viver exclusivamente da vendagem dos seus livros. Caio mesmo se considera um homem do mundo, procurando ou não conseguindo fixar moradia em um determinado lugar por um longo período de tempo, tendo residido em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Campinas, na Casa do Sol, fazenda de propriedade de sua grande amiga Hilda Hilst e ocasionamente viagens à Europa, para onde emigrou em meados da década de 70, tendo trabalhado em diversos ofícios, como lavador de pratos e modelo vivo, e onde obteve grandes influências místicas que vieram a permear sua literatura e vida. Era um grande amante do misticismo, carregando suas crendices durante todo o restante da sua vida, em meio a incensos, chás medicinais e/ou alucinógenos, mapas astrais, drogas alucinógenas e muitos, mas muitos sonhos.


Ah, Caio, como você me dói de vez em quando quando releio seus contos ou me lembro de pequenas frases suas nos lugares mais inapropriados. Compartilhamos da mesma sensação de estrangeiros em busca de um nação que podemos chamar de nossas. Nossa paragem, nosso porto seguro, nossa Pasárgada onde possamos finalmente desfrutar das benesses do existir e onde possamos achar as respostas das mais agudas inquietações. A eterna busca insandecida que o fazia escrever sobre seus medos mais sombrios. Quem gosta da literatura de Caio, por algum motivo ou outro, sabe do que falo.

Em alguns instantes me pego imaginando-o, com seus óculos de grau e sua aparrência mirrada e frágil andando pelas ruas da cidade com os olhos tristes e observadores, atento aos pequenos movimentos e principalmente às pessoas que o cercam e formulando dúvidas atrozes, mas sempre com uma grave esperança de dias melhores. Certos sentimentos complexos de serem verbalizados, mas extremamente lancinantes na alma de seres de sensibilidade aguda como a dele.

Enfim, parecendo pedante ou não, afirmo que Caio F. foi uma das grandes e gratas influências surpresas que tive na vida. Havia nele não somente uma angústia existencial,mas também uma vontade enorme de viver, apesar de tudo. Mesmo com as perguntas que o perseguiam, ele adorava cuidar de suas flores e olhar o Rio Guaíba, acho que com uma espécie de sorriso irônico percebendo as sensações à sua volta e querendo somente existir e persistir. Mesmo com sua fome.







sábado, fevereiro 21, 2009

Noite Vazia


O vazio que alguns seres humanos sentem em determinadas instâncias da vida é retratada pelas mais variadas formas de expressão humana desde que os tempos são os tempos. Ou seja, de forma infinda, claro que de maneiras paradoxais com o movimento ou o pêndulo dos antigos relógios de parede. O oco de se saber não ser, do que não se foi ou de premeditar que não se será. Enfim, o que todos nós almejamos e sabemos não possuir, concretamente ou abstrato, como os sentimentos, que não podemos mensurar em uma folha de papel mas que tem o poder de latejar loucamente quando é mais inapropriado. De certa maneira, esse filme clássico do cinema brasileiro retrata isso. Dois homens relativamente jovens da classe média paulistana saem pela noite em busca de prazeres frugais que venham a lhe dar algum sentido no existir. Mesmo que essas delícias se esgotem por si só, como um alimento anseado que mata o desejo naquele instante, não podendo mais ser carregado pelos outros minutos e horas em que a tal fome ou sede ainda se perpetua.

Sua busca se resume em literalmente uma coisa: a mulher, preferencialmente aquela que, sob um primeiro olhar, não se oferece languidamente, mas que no fundo deseja também algo ou alguém que venha a lhe tirar do marasmo que as fazem também sair pelas boates e bares em busca de distração. Sendo assim, contratam duas prostitutas de alto padrão e as levam para seu apartamento no intento de prazeres carnais insanos e com hora marcada para se esgotar. Elas são interpretadas pela linda Odette Lara e Norma Benguell no auge da sua juventude e melancolia. Odette deliciosamente sensual e Norma lascivamente com os olhos de ressaca propalados por Machado de Assis. Encantadoramente despudoradas e esfuziantes.


Se já não bastassem esses dois ícones dessa década imperdível de ser revivida de alguma forma, as tomadas externas na São Paulo já desvairada e com seus arranha-céus, tendo ao fundo músicas instrumentais de Rogério Duprat, podem, na minha modesta opinião, ser consideradas uma das melhores tomadas do Brasil daquele tempo, aonde, mesmo em meio ao caos da já metrópole, as pessoas ainda andam pela noite olhando vitrines, passeando despreocupadamente e praticando o ainda usual footing. Mas o que coloco em questão é que me parece inovador da parte do diretor Walter Hugo Khoury tratar de forma simples a questão da prostituição em um tempo em que a mulher ainda era considerada vários passos atrás do homem e a revolução feminista ainda engatinhava.

Pelo pouco que conheço de Khoury, as mulheres de seus filmes tem personalidades fortes sem com isso destoar de sua feminilidade exuberante. E nas personagens desses filmes isso é latente, sendo os homens da história meros coadjuvantes aonde o principal é o que essas duas prostitutas farão com esses homens, e não seus inversos. Temos nesse filme até mesmo uma quase cena de lesbianismo, somente interrompida pela relutância da personagem de Norma, uma mulher da vida fácil ainda ingênua. E cenas externas entremeadas com os personagens andando pelo apartamento, comendo, transando, conversando ou se agredindo. Praticando muitas ações em um intervalo de tempo pequeno, pois toda a ação ocorre no espaço de uma noite, culminando com a volta dos dois homens aos seus lares e as moças também retomando suas vidas de, como dizer, divertidoras do primeiro pagante afortunado que se apraz com elas.

Enfim, recomendo a quem gostar de cinema brasileiro e tiver certa saudade de tempos que nem ao mesmo viveu.

domingo, janeiro 25, 2009

A Concepção


Desde já advirto que não sou crítico muito menos teórico da linguagem cinematográfica, nem entendo os termos do meio. Sou apenas um admirador de filmes que, por critérios subjetivos, considero bons e que procuro assistir na ânsia de novos olhares sobre o mundo e principalmente sobre eu mesmo. Sendo assim, comento sobre esse filme.

A Concepção é uma produção brasileira de 2006, e que tem no elenco atores como Matheus Nachtergaelle, Rosane Mulholand, Milhem Cortaz e Juliano Cazarré nos papéis principais. A fita se ambienta em Brasília, onde jovens da classe média alta da capital federal procuram subtertúgios para o grande tédios e vazios que permeiam suas existências. Ápós conhecerem na zona do meretrício a personagem de Matheus, com sua conversa altamente filosófica e sofista de resgate do seu eu interior, morte ao ego e repulsa à sociedade atual, fundam em um apartamento ocupado por um dos personagens o Manifesto Concepcionista, onde as leis se baseiam basicamente na liberdade e renovação da sociedade e do eu, em resumo, uma existência anárquica e não afeita aos padrões sociais vigentes.




A história em si não é nova, mas interessei-me por ela por sua maneira criativa, seus figurinos, as interpretações, cenários, diálogos, e sobretudo pelo seu desfecho em que a polícia intervém no imóvel e prende a grande maioria dos seus ocupantes, provocando estardalhaço na imprensa local. Vale ressaltar que, durante o tempo em que durou, O Concepcionismo arrebanhou uma quantidade considerável de adeptos que andavam nus, consumiam drogas e pregavam discursos liberais.

Uma nova utopia hippie em pleno Planalto Central, posso falar de maneira grossa o enredo do filme. Pessoas jovens em busca de experiências e sensações novas, que suas vidas cotidianas não lhes proporcionam. Ruptura de padrões, mas sem um questionamento profundo de em que isso realmente consiste. E, principalmente, um líder natural, mais uma vez citando a personagem de Matheus, que surge nas suas vidas de forma inesperada, sem identidade certa e grande conhecedor das misturas de remédios e dos seus efeitos colaterais.

Bom cinema, que não me atrevo a enumerar como sendo do movimento X ou movimento Y pelo simples fato de não compreender o assunto a fundo. Aliás, conheço de maneira extremamente rasa. Um dos filmes que nos prova de que o cinema brasileiro consegue produzir obras de boa qualidade sem se tornar pedante muito menos hermético. Algo que poderá provocar debates, pois dá margem a várias interpretações, pontos de vista. Costumo dizer que em arte eu só me interesso pelo que possa me estapear, me fazer pensar e me tirar da modorra que acaba se tornando a vida cotidiana. E sim, esse filme conseguiu.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

É Natal!!!!!!!



Todos os finais de ano são sempre as mesmas coisas, as pessoas recebem seus 13º salário e saem às compras vorazmente, procurando saciar seus desejos de consumo duramente reprimidos durante o restante do ano. Ou usam essa desculpa das festividades pelo simples motivo de que sim, nós queremos gastar, mesmo que não tenhamos como. O importante para o brasileiro é comprar, agora como vai se pagar já é outra história que rende alguns panos para as mangas bufantes que serão apresentadas nas vitrines das lojas da Oscar Freire na próxima coleção primvera-verão. É Natal, vamos nos regozijar com a data nos acotovelando na 25 de Março ou nos centros comerciais de nossas cidades. Vamos ajudar o país a crescer, vamos finalmente presentear as crianças com os brinquedos conquistados às custas de boa-educação e notas satisfatórias nas provas finais.


O que importa mesmo é gastar, parcelar no cartão de crédito nosso de cada dia. Nem que para isso tenhamos de pagar somente a parcela mínima durante nossos próximos oito longínquos meses, nem que para isso deixemos de adquirir o essencial para os crediários dos magazines e lojas de departamentos e nem que para isso sejamos obrigamos a diminuir as visitas ao Mc Donald´s e pizzarias nos finais de semana do ano de 2009. Temos que manter as aparências, afinal de contas, se o vizinho trocou o azulejo de sua meia água nós também temos o direito de fazê-lo. O direito não, a obrigação, afinal de contas, a grama do vizinho é sempre a mais verde.


E na empresa não se fala em outra coisa, no famoso amigo secreto, ou oculto, como se fala em algumas partes do país. Se o sorteado for nosso superior em hierarquia, há de se fazer um sacrifício e comprar para o(a) merecido(a) uma lembrança à sua altura. O que importa é consumir e mover a mola mestra da economia. Ou como diria Luiza Trajano, a presidenta do poderoso Magazine Luíza: "Minha gente, sem consumo não tem emprego!". Concordo com ela, se não houvesse Natal nem Reveillon não haveria trabalho para o telemarketing especializado em cobrança nem os carteiros nos entregariam aquelas temidas cartas nos comunicando o ingresso no tão querido Serasa.


Espíritas, protestantes, budistas, xintoístas, adeptos do candomblé, católicos e alguns outros mais entram nessa mesma miscelânea quando o assunto é Natal. O comércio não se importa com as nossas crenças, desde que acreditemos no poder transformador de vidas e mentes dos cartões das Pernambucanas e da Renner. Cartões que parcelam em até 6x sem juros e o primeiro pagamento só em março, minha gente! Aproveitem!


Eu só quero saber aonde, afinal de contas, se inculcou na cabeça desse povo de que Natal é sinônimo de calor, cotovelões nas lojas de 1,99 abarrotadas e o quilo do chester a preços ligeiramente elevados. E que não se esqueçam das castanhas nem das nozes na farofa da ceia, pois Natal sem farofa e abacaxi com tender não é algo digno de nota.


Porque no ano que vem começa tudo novamente. As mesmas dívidas, as mesmas dores nas pernas de tanto bater perna atrás dos presentes, as baboseiras de toda sociedade judaico-cristã ocidental mortalmente odiada por Osama Bin Laden. Qualquer dia desses convido uma família qualquer, convido para um sorvete na praça de alimentação do shopping e pergunto, assim como quem não quer nada: Mas, afinal de contas, o que é esse tal de Natal?













quarta-feira, novembro 05, 2008

À Beira do Pântano




-Mãe, o que é o amor?

-Hum?

-É, o amor, eu quero saber que que é isso.

-Minha filha, porque essa pergunta agora?

-Por nada não, um dia desses eu vi um casal de namorados falando um para o outro: "Eu te amo!" "Eu também te amo", e mais uma porção de frases com essa palavrinha que eu adoro balbuciar para sentir o som dela. E eu quero saber o que, afinal, é esse tal de amor.

-Mas, filha, eu não sei o que é amor.

-Então você não ama o papai?Vocês brigam de vez em quando, mas escuto sempre uns cochichos, quando a senhora diz que ainda o ama.

-Amo, sim, claro que amo....

-Então me diz o que é esse tal de amor!!!!

-Ainda é tão cedo para que aprendas esse tipo de coisas, menina.

-E quando será então a hora de eu saber o que é o amor?

-Isso somente o tempo vai te dizer, amor é o tipo de sentimento que não se mensura com palavras, apenas se sente, sem se perguntar o porquê da existência dele na nossa vida. Apenas se ama, pura e simplesmente. Se pensar demais, quebra-se o encanto da coisa e se cai em um poço sem fundo, do qual não se sabe se e como vai sair. É como o ódio, a ternura, o alívio; a gente sempre sabe quando o sente, mas não pode desenhá-lo da forma exata, e sim sempre de um jeito idealizado. Você não é a primeira pessoa que se pergunta sobre isso, filha, e possivelmente não encontrará as respostas aos seus questionamentos. Agora deixa a mamãe terminar a limpeza.

-É que eu ainda não sei como se ama.
-Ah, amar tem seus mistérios, aliás, existir tem muitos deles também. O tempo vai passar, você se tornará uma moça vistosa e então você terá o primeiro de muitos amores. Vivendo você se sujeita a isso, independente da sua vontade ou necessidade. É como em um passe de mágica, se diz a palavra encantada e pronto, a coisa aparece assim do nada. E transforma nossa vida. Ou vai nos transformando pela vida afora. Não se preocupe com isso ainda, filha. Apenas exista, que para isso você vive. Mesmo que, de vez em quando, vier uma mosquinha zumbindo no seu ouvido esse tipo de perguntas, procure não dar muita atenção a ela e venha perguntar para mim o que você quer saber. Se bem que eu tenho perguntas cujas respostas também não saberia fornecê-las, pois esse é um dos és da coisa. Senta aqui no meu colo, vem...

-Eu achei tão bonito ouvindo aqueles dois falando essas coisas diferentes, será que vai demorar muito para eu saber o que é o amor?

-Não precisa saber o que é o amor, mas apenas quando você o sente por algo, alguém, um animal, uma coisa, ou algo que o valha. Pois o amor também salva. Salva do escuro em que nos afundamos ao viver. Não que você chegue à tona amando, mas com ele a vida toma outras dimensões até então não imaginadas. E essas dimensões nos conduzem também a outras portas. Porque existir é abrir portas, filha. Hoje você está com a mãozinha na maçaneta com essa ideiazinha de saber como se ama e o que é o amor. Se você descobrir alguma resposta, você vai abrir a tal porta que vai te levar a um quarto igual ao que você estava antes.

-E tenho de abrir muitas dessas portas, mamãe?

-Vais passar a sua vida inteira entre elas, filha, bem que eu queria te poupar de tais descobertas. Mas é impossível. Sem querer você desabrochou do ovo e se descobriu humana. Após isso mergulhaste em um caminho sem volta. Mas com muitos meandros.






domingo, setembro 21, 2008

Pelas profundezas


Porque eu sempre mergulhei pela superfície de todas as coisas, espectador às vezes não atento de tudo que me rodeava, mas do qual pouco ou nada participava. Sem conseguir visualizar muito além do que me era permitido sentir, assim o era e ainda o é, sem sombra de dúvidas. Eu mesmo me sinto em relação ao corpo nas entrelinhas. Apenas sugestivo, como se me perguntasse cotidianamente qual a sensação de existir em toda a sua plenitude, sem reservas. Mas não o sei, nunca o vivi, apenas maquino mentalmente como seria experienciar tais sensações. E no meu pequeno plano ainda assim consigo me despencar e perder. Até porque meu pequeno mundo é assim amplo, nebuloso e inconfessável.
Pois eu confesso, mesmo sem saber aonde cairei com tais ousadias, que nunca bebi do cálice da vida, se é que esse termo imbecilizante persiste a análise mais atenta. Eu existo, sim, isso é mais que fato. É prova de mim mesmo. Eu sou. Algo ou alguém, continuo o sendo apesar dos pesares. Alguém que quer experimentar a sensação de o ser sem se imiscuir de ser também vários outros, mas experimentar os vários eus que habitam dentro de todos nós e que só se revelam em determinadas situações.
Que eu possa e consiga tirar esse gosto de estranheza da boca todas as vezes que olho para o outro e vejo algo muito além do que posso perceber. Nadam nas profundezas os outros e eu, apenas pequeno espectador atento, assisto a tudo até que as águas se tornem turvas e nada mais consiga visualizar. De quando em quando alguém que vêm à tona explica-me sucintamente o que se passa lá por debaixo daquelas águas lodosas, mas é como se fosse distante demais para meu corpo. Proibido. Intocável.
As palavras são ditas de forma clara e não consigo absorvê-las, apenas as imagino, estranhando que tenha me sido negado essa espécie de manjar na qual se mergulha sem grandes questionamentos e se retorna com pérolas nas mãos capazes de resistir mesmo a todas as intempéries do existir. Tais pérolas não são vendidas no mercado negro, procurei saber, infinitas vezes eu as quis e pagaria o necessário, mesmo o exorbitante, para ter algumas em meu poder. Mas elas não são achadas nesse território pequeno e raso. Só nas profundezas elas existem e de lá não podem sair a não ser nos pescoços e mãos de seus contentes proprietários.
Se algum dia eu as possuir, guardarei-as numa caixinha confeccionada por eu e as tirarei em ocasiões especiais para que vejam a luz do sol e para que eu tenha a satisfação de possui-las para meu bel-prazer. Contente, infantil, sorridente, medíocre, ou tantos forem meus predicados. Caminhando pelas ruas da cidade florida, eu e meu segredo revelado.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Eu não sei


Quando me comunico, inconscientemente dou um fragmento ao outro. Pedaços do corpo. Em graus variados do que está em questão, mas sempre assim um corpo. Corpo que se desfragmenta a cada palavra dita. Lançada. Vomitada. O que eu comunico muitas vezes escapula ao meu alcance. Mas eu me comunico. Tento. Apesar de, eu tento. Mesmo não sabendo as consequências do meu ato, eu o pratico. Inconsequente e de forma inesperada. Prefiro não pensar no que haverá de surgir com o que digo. Mesmo que sussurrando, apenas. Mas ainda assim, irresponsavelmente, eu digo. E mesmo que meu castigo seja cruel.
Ontem eu fumei no escuro e, olhando a brasa, me disse algo que não posso revelar. Há de se ter segredos consigo mesmo para que a vida continue misteriosa. Nem a eu mesmo hei de revelar o que foi dito na penumbra daquele quarto. Mas algo me foi comunicado, e assim o é diariamente. Me comunico comigo mesmo e com outro sem ao menos perceber. Acredito que viver também seja isso. E foi com a alegria de um garoto que eu me disse algo, saborendo as meias palavras e atento para que não fosse ouvido. Seria uma violentação suprema que descobrissem esse meu segredo. Era o meu eu mais profundo que falava com o meu corpo. Um corpo com seus mistérios.
Mistérios que vêm à tona sobretudo quando digo: "Não sei.". Porque não saber é perigoso até. E de alguma forma traz conforto a quem não sabe. Mas o que não se sabe? Não saberei te responder. É misterioso demais para minha compreensão. Por enquanto, eu te digo que não sei. É preciso coragem para esse autoenfrentamento e percepção de que não se sabe. Talvez nunca se saberá. Mas provavelmente muitos outros o sabem. Isso eu também não sei afirmar, é uma interrogação. Se você também não sabe me ensine ao menos como é isso porque ainda não estou acostumado a não saber.
Eu sinto que não sei, e, enquanto isso, o indevassável se torna mais e mais nebuloso. Porque o doloroso não é não saber, mas sim perceber que não se sabe. Aí mora o perigo. Quando descobri que eu não sabia não saber, não aceitei e fiquei indignado. Estupefato. Macambúzio. Esse direito eu acho que tenho. Já que o saber me foi negado, que ao menos eu aprenda a não saber para não fazer perguntas. Porque eu cismo em perguntar, mas para que saber se eu não saberei o que fazer com essa coisa que quem sabe eu saberia?