domingo, setembro 23, 2007

Uma conversa informal



Muito obrigado por ter vindo. Sente-se, por favor, temos poltronas, sofás e pufes para que você possa se instalar confortavelmente. No frigobar tem água, cerveja, refrigerantes, vinho e energéticos, não se acanhe, sirva-se sem cerimônias. Ah, e na mesa do canto tem alguns aperitivo, por favor peguem o que quiser, preparei tudo isso com muito carinho para todos vocês que aqui estão atendendo ao meu chamado. E o último que sentar por favor apague as luzes e deixe acesa somente os abajures que estão espalhados pela sala de estar.

Desculpem-me o adiantado da hora, sei que estão todos cansados após um dia estafante de trabalho, mas eu preciso falar com vocês sobre um tema que acontece desde os primórdios da civilização humana, e não se possuem referências históricas de quando isso aconteceu pela primeira vez. Mas sabe-se exatamente que ele aconteceu, com maior ou menor intensidade, na Idade Média, no Mercantilismo, na Revolução Francesa, na Primeira Guerra Mundial e, mesmo em tempos de pós-modernidade, com todas as suas excentricidades, ele acontece com ímpetos incomensuráveis. Agora mesmo pessoas nos quatro cantos do mundo o sentem, e mesmo o nosso vizinho da direita sente na pele as suas consequências. Creio que todos nós temos uma história para contar sobre o assunto, seja ela triste ou alegre. Mas não se passa incólume pela vida sem senti-la, nem que seja ao menos uma vez. Eu preciso falar ao menos um pouco sobre o assunto, mais para exteriorizar o que sinto do que propriamente me considerar um expert no tema. Até porque não o sei em toda a sua complexidade deliciosa e desesperadora.

Bom, não precisa se assustar, não falaremos de uma catástrofe mundial, mas sim sobre o amor. Pois é, o amor mesmo, aquele sentimento que te deixa com as pernas trêmulas, o coração disparado, uma saudade incomparável e mesmo nos provoca lágrimas quentes no escuro do nosso quarto durante a madrugada. Sei que esse assunto já é mais do que comentado, de um estudo de intelectuais às mesas do boteco mais próxima.
Conhecemos pessoas em todos os instantes da nossa vida, mas por motivos que nem a ciência consegue explicar algumas provocam sensações muitas vezes devastadoras e que podem dar rumo definitivo ao resto das nossas existências. Tenho certeza quase absoluta que isso já aconteceu com vocês, sendo que até podem me contar que nesse exato instante sentem essas sensações descritas acima que, por mais que a razão condene, alguma coisa interior não consegue fazer com que ela sucumba. Não sei mais o que escrever, as palavras não vem à mente. Desculpem-se pelo incômodo, podem continuar à vontade, a casa é de vocês. Vou me retirar, não me sinto bem. Há alguns dias já não me sinto bem. Aconteceu alguma coisa comigo que sei que vai deixar resquícios por anos a fio.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Algo sem importância


Não se sabe com qual intenção, mas o fato é que a porta estava apenas encostada e dentro da casa acontecia uma festa na qual surgiu nela a imensa vontade de adentrá-la e harmonizar com os participantes desta. Mas era uma penetra. Isto não a demoveu de seu intento.


Ela queria apenas se divertir, por algum tempo que fosse. E lá estava. Entrou e ficou olhando para o ambiente, as pessoas, sem saber direito como se portar naquele ambiente. Mas o fato estava se consumando, não podia mais voltar atrás. O que lhe restava era tentar aproveitar o lugar. A decoração do lugar não nos importa, muito menos o motivo de tal comemoração.Ela tinha alguma coisa em seus olhos que lembrava aqueles olhares melancólicos das mocinhas apaixonadas, ao mesmo tempo que irradiava uma alegria contagiante com seus movimentos não calculados, quando jogava seus cabelos, dançava, olhava para os cantos como que tentando se situar no ambiente ou mesmo quando respirava teatralmente. Mas poucos tiveram coragem de chegar junto a ela e entabular uma conversa, havia uma parede invisível entre ela e os demais.


Mas isso não impedia que fosse observada, desejada e fosse alvo de comentários sobre seu figurino não adequado ao momento.Mas estava vestida de forma tão singela que a simplicidade havia se tornado para ela uma arma de conquista, mesmo que ela não tivesse se dado conta do fato. Se sentiu enervada momentaneamente, surgiu uma vontade de ficar só divagando e ouvindo mentalmente suas músicas favoritas. Mas ainda se deteve por alguns instantes olhando ora para o infinito, ora para algumas pessoas aleatoriamente. Como que entorpecida, não conseguia se mover do lugar, enquanto um rapaz a seduzia de forma descarada e pouco criativa. Ela simplesmente sorria e nada respondia. Se sentia perdida naquele lugar. Mas sem que percebesse já havia deixado sua marca em todos os presentes ao evento.


Enfim saiu do lugar. Duas quadras depois, virou à direita. Apenas um senhor de meia-idade que limpava a calçada no alvorecer do dia a observava, sem se deter em demasia. Não se deu conta do que havia visualizado. Nunca mais foi vista. Mas sua presença e seu perfume inigualável foram lembrados por dias, meses ou mesmo anos.


sábado, setembro 01, 2007

É de pequeno que se começa a torcer o pepino


Assisti recentemente uma reportagem no Jornal Nacional sobre uma feira literária que está acontecendo em Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul, em tendas idênticas a de circos. Louváveis iniciativas como essas, que procuram desmistificar o mito da literatura como algo inalcançável e distante da nossa realidade, buscando aproximar a população de uma das mais maravilhosas criações do homem: o livro. Mas fiquei instigado mesmo ao ver crianças folheando livros com um interesse incomum, entretidas com aquele objeto mágico e fazendo perguntas e questionando o criador do Menino Maluquinho, o mineiro Ziraldo, e observando atentas a uma palestra presidida por Lya Luft.

Irremediavelmente me veio à memória imagens da infância, por volta dos meus cinco anos, quando gostava de folhear gibis da Turma da Mônica e frequentava a pré-escola em uma escolinha chamaa Casinha de Chocolate, que não existe mais. Todas as semanas ia a uma banca de revistas e pedia que o meu pai me comprasse uma daquelas revistinhas, mesmo que no começo não entendesse o que estava escrito naqueles balões das histórias. Mas o fato é que de certa forma eu me alfabetizei lendo aqueles gibis, e até os meus 10 anos adquiria com regular frequência essas revistinhas, das quais guardo ótimas recordações. Através da Turma da Mônica eu descobri o universo mágico das palavras e brincava muito com elas, as falando em voz baixa e tentando fazer associações com outras que teoricamente nada tinham de semelhante com a primeira. Mas de qualquer forma era um exercício muito interessante e lúdico.

Muitos anos se passaram e eis que vejo meninos e meninas descobrindo um novo mundo, assim como eu fui outrora, sorrindo e torcendo por aqueles personagens inexistentes na vida real, mas vivos em cada imaginação infantil. Adquirir o hábito da leitura começa desde cedo, instigando os pequenos, mas não os obrigando a ler pelo simples fato de "adquirirem cultura", mas sim os apresentando esse mundo tão cheio de facetas e criando neles essa necessidade biológica que todo leitor voraz compreende muito bem.

Pois é, nem tudo está perdido. Creio que daqui a alguns anos teremos milhares de novos leitores, que talvez venham diminuir essa triste estatística que comprova ser o brasileiro pouco afeiçoado aos livros. Não importa que a gênese sejam as historinhas do Chico Bento. Importam os desdobramentos que esse caipirinha fará em mentes e corações.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Deixe de leseira, seu atoleimado


Pois é, esses dias em que andei muito ocupado deixei de pensar na vida, e tem sido muito estranho ficar horas ou até dias seguidos sem muitos questionamentos que aos olhos da maioria soam como sem pé nem cabeça ou simplesmente coisa de gente atoleimada, como se diz na terra de Gabriela Cravo e Canela. God save Jorge Amado, aproveitando o marketing gratuito do defunto que foi um dos grandes escritores do nosso povo, não dos engravatados paulistanos, mas sim das nossas faceiras mulatas e dos homens pobres que vagavam indefinidamente pela ladeira da nossa tão bela São Salvador.
De qualquer forma, tem sido curioso me despir de um conceito já pré-estabelecido sobre a minha pessoa e me vestir de outras formas, como se eu fosse o bom rapaz responsável que luta diariamente pelo seu pão de cada dia e sua em bicas para poder comprar os produtos necessários à sobrevivência de qualquer cristão. Mas hoje acordei e pensei em como estava sendo diferente a minha vida com pouco tempo para refletir. Nessa correria do cotidiano muitas vezes não nos damos conta de muita coisa que acontece ao nosso redor e a rotina passa a ser predominante sobre a nossa razão, precisamos nos preocupar com aspectos mais relevantes do que com hipóteses apenas remotas e que não pagam as compras no supermercado.
Tenho experimentado novas sessões nessa enorme loja de departamentos que é a vida, provado novas vestimentas e descartado algumas, colocando outras na minha sacola que será esvaziada no caixa. Viver é sentir, mesmo que na carne, é cheirar, tocar, discutir, flanar eelas ruas e sentir em cada rosto visualizado pedaços de nós que vem e vão, que moram em locais diferentes mas que no fundo, na essência, gritam intimamente por algo que não sabem o nome, somente sentem. Não sei explicar o que seria, ultrapassa os meus parcos conhecimentos, mas há algo que pulsa em cada coração, clamando por liberdade, mas é um ser sem nome, identidade definida, ele apenas está lá, esperando algo que o desperte. Mas alguém que o desperte. E sejamos todos apenas mais uma peça nesse grande quebra-cabeça que é o show da vida. Por favor, imagine as dançarinas do Fantástico na frente desse computador e vá fazer alguma coisa que preste na Internet.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Que qui tu qué, rapá? Queima u chão!!!!!!!!!!


Pessoas, pessoas e mais pessoas, é impossível não se deparar com elas ao passear de ônibus e observar a diferenciação física que nos torna únicos. Há alguns dias atrás, estive em Praia Grande, cidade da nossa Região Metropolitana da Baixada Santista. Sim, temos uma Região Metropolitana oficialmente reconhecida desde a década de 90, sem que isso impeça que existam diferenças gritantes entre um município e outro, e obviamente dentro das próprias cidades, senão estaríamos na Nova Zelândia, e não no país da ministra que recomenda-nos que relaxemos e gozemos. E vale lembrar que para estar em Praia Grande eu obrigatoriamente preciso adentrar o perímetro urbano de São Vicente. Os forasteiros geralmente se confundem com os limites entre as cidades. Nessas horas, nada melhor do que um caiçara para lhes explicar que aquela favela é de Cubatão, não Santos, e que aquele hospital que mais se assemelha a um açougue se localiza em Guarujá.
Nessa quase uma hora de viagem de ônibus, como às vezes faço, fiquei visualizando as pessoas que comigo dividiam o espaço físico do coletivo e obviamente as pessoas que passavam nas ruas, imaginando, de acordo com suas características, suas histórias de vida. Tarefa difícil essa. Tantas e tantas vezes me surpreendi fazendo certo juízo de determinada pessoa e após alguns minutos de diálogo descobri aspectos de sua vida muito mais interessantes do que havia imaginado anteriormente. Obviamente algumas vezes me decepcionei, mas são percalços da vida.
De qualquer forma, esse exercício mental como forma de auto-conhecimento é sempre interessante. Tentar não nos ver apenas pela "casca" do corpo físico, mas buscar os sentimentos do homem, sem cair no pieguismo nem na auto-ajuda, que a meu ver é simplesmente irritante e nos reduz a receita de bolo, como se o que valesse para o Cláudio obrigatoriamente seria semelhante para a Jussemara.
Enfim, altos e baixos, gordos e magros, loiros e morenos, feios ou bonitos, somos humanos, e cada qual tem algo a contar, mesmo que seja desinteressante. E se você não estiver gostando da conversa, comece a falar sobre a última gafe do nosso Lula lá no México e verás como tudo vai terminar em grandes risadas de ambos os lados.


domingo, agosto 05, 2007

Desabafo de um desmiolado


Tenho de parar com essa mania de querer forçar os outros a compreender os meus pontos de vista. Afinal de contas, não tenho culpa de as pessoas serem simples burgueses que consideram o mundo à sua volta como pronto, e não aceitarem novas formas de se encarar a vida e suas circunstâncias. Dá muito trabalho refletir sobre o que pode ser mudado acerca de nós mesmos e principalmente sobre o nosso próximo, que na maioria das vezes está em distância relativamente grande. O problema é que não consigo pensar de outra forma e acaba-se em um diálogo à lá Torre de Babel: fulano fala uma coisa, ciclano fala outra diversa, eu então me coloco em situação divergente e acabamos não compreendemos o que é dito e paira sobre nós grandes pontos de interrogação maior do que quando a conversa se inicia.
Não me refiro a nada específico, mas sobre assuntos esparsos que fatalmente poderão ser discutidos tanto numa mesa de bar, como numa roda de intelectuais, assim como também poderá ser posta em voga em um jantar familiar, quando papai e mamãe perguntam aos filhos adolescentes como foi seu dia e então conselhos são fornecidos em larga escala. Mas sinto necessidade de me expressar, por mais calado que eu seja e por mais medo que eu tenha de soltar o verbo e não ser compreendido. Ou muito pior, ser visto como um ser de outro mundo que sofre de graves distúrbios mentais ao opinar sobre a cor do cavalo branco de Napoleão.
- Bota o terno e vai à luta, Ivanhoé.
- Pare de ser sonhador e se preocupe em ter condições econômicas de forrar seu estômago, Valfrido.
Obviamente o que escuto não são frases desse teor, mas de qualquer forma a lógica é a mesma. Não adianta eu dizer que tenho pretensões artísticas e que meu grande sonho é sobreviver dela, até porque sabemos a realidade daqueles que levam à cabo seus ideais nesse quesito. E também tenho de levar em conta se realmente tenho talento para alguma coisa que fuja do velho padrão escritório contábil, ou no caso da cidade onde resido, empresas que lidam com navegação. E como se contentar com um salário no final do mês, carteira assinada, vale-transporte, vale-refeição e cesta básica fosse o suficiente para nos realizar como seres humanos.
Eu lhes digo: - Seus vendidos, joguetezinhos nas mãos dos capitalistas usurários! Mas eles querem apenas ter dinheiro para pagar a conta de luz no final do mês e evitar a nada agradável visita do técnico da CPFL. Ou sou eu que não acordei ainda e não percebi que na realidade todos nós apenas buscamos sobreviver, em alguns casos mal e porcamente, deixando de lado o pouco de vocação que nos resta em detrimento de algum trabalho qualquer que só venha a beneficiar diretamente o patrão e em nada modifica as estruturas sociais?
Sabe de uma coisa? Cansei. Vou beber. Ajudar a aumentar os lucros das empresas cervejeiras. Nem na hora de afogar as mágoas eu consigo fugir do sistema. Eu nem sei fabricar a minha própria cerveja....

terça-feira, julho 17, 2007

Registro/SP


Semana passada estive na cidade de Registro fazendo pesquisas de campo. Pois é, de vez em quando exerço atividades profissionais para passar o tempo. Ressalte-se que não sou vagabundo por opção, e sim por falta de maiores perspectivas no quesito profissional. Registro tem uma população de aproximadamente 60.000 moradores, sendo considerada então a "capital" da região, já que todas as outras são menores ainda em população, e se localiza no Vale do Ribeira, a 185 quilômetros de Santos, 195 de São Paulo e 220 de Curitiba. É a sede administrativa da região mais pobre do estado, e sua economia se baseia no comércio, no cultivo da banana e segundo fontes fidedignas de confecções que se instalaram recentemente no local. Seus indicadores econômicos são os mais baixos de todo o estado de São Paulo, e isso pude comprovar, apesar de não ter vistos maiores indícios de miséria na cidade, mas por momentos esqueci que estava ainda no estado mais rico da federação. Desculpem-me a presunção. O meu estado continua sendo a locomotiva do país, mesmo que as más-línguas queiram me provar o contrário. Daqui a vinte anos possa até ser que o quadro tenha se revertido. Por ora, nos mantemos no patamar de maiorais. Maiores reclamações, dirija-se ao setor de ouvidoria dos textos do Edcarlos, cujo telefone eu mesmo desconheço.
De qualquer maneira, gosto de viajar, conhecer novas cidades, e principalmente procuro observar pessoas, mesmo que no meio do caminho me embaralhe de tal forma que dificilmente consigo concluir um raciocínio que havia começado. Não percebi ali nada que chamasse em demasia a minha atenção, mas me chamou a atenção que a cidade só possui uma sala de cinema, em que os filmes obviamente chegam muito após seu lançamento nos grandes centros, não avistei nenhum teatro e apenas uma livraria, em grande parte com títulos de auto-ajuda e no momento em que passei na sua frente estava no estabelecimento apenas um rapaz, provavelmente o atendente ou mesmo o proprietário. Sim, ali tem uma loja das Casas Bahia na avenida central, que se chama Jonas Banks Leite. Belo nome, não?
Não que essa cidade seja a exceção, ela é a regra, infelizmente foi a minha conclusão. Por mais que me queixe do local onde resido, não posso desmerecer os méritos culturais que ela me oferece, proporcional ao seu tamanho e importância para o Brasil. Temos opções culturais para vários gostos e bolsos, e é isso realmente importante; que tenhamos a chance de escolher, por mais que a grande maioria frequente os bailes funk do Morro da Nova Cintra e o Pellikanos, com seu forró de gosto duvidoso. Estou bem informado das baladas regionais, por mais que não as frequente. Nem ouse dizer que estive alguma vez em tais lugares para saber o que ocorre lá. Notícia ruim corre mais rápido que almôndega na boca de criança obesa no almoço de domingo.
Acho que a lição preponderante que tirei da pequena estada nesse município concerne que eu me coloquei morando naquela cidade desde meu nascimento. Como seria eu hoje? Teria os mesmos amigos? Conheceria e teria apreço pelas mesmas coisas? O que estaria exercendo profissionalmente? Quais seriam as minhas diversões de final de semana? E, principalmente, qual o retrato que faria de eu mesmo? Ó dúvidas cruéis. Deixo-vos com o papel da dúvida e das vaias ou aplausos pelo texto lido.

sexta-feira, junho 15, 2007

Abram as cortinas!!!!!!!!!


Esses dias estive no teatro, aproveitando meus poucos momentos de relax, com a cabeça fresca e sem me preocupar em demasia com questões que sei que possivelmente nunca poderei solucionar. Nem preciso explicar que só estive lá porque a entrada era franca e o teatro era próximo à minha casa. Além do mais, era teatro infantil e eu era o único adulto sem estar com uma criança a tiracolo. De qualquer forma, foi uma experiência magnífica. Aproveitando a oportunidade, quem morar em uma cidade que tenha o Sesi procure se informar se a unidade mais próxima a você também está participando desse projeto, pois o saber não ocupa espaço e as peças a que assisti podem ser assistidas por pessoas das mais diversas faixas etárias.

Sou leigo no assunto, mas já ouvi pessoas falando sobre a magia do teatro e sobre os deuses que habitam os palcos e se apossam desses grandes profissionais no momento em que eles adentram esse local de enlouquecedora magia e porque não dizer, certos mistérios não explicáveis a olhos humanos e utilitaristas que não vem função alguma na arte, seja ela qual for. A não ser que nos refiramos a músicas de cunho comercial, leia-se Companhia do Calypso e os Armandinhos espalhados mundo afora. Mas aí a arte não está presente, somente o merchadising e a sanha por lucros dos nossos empresários musicais afoitos por levar cultura ao nosso povo, bem ao estilo Teatro de Arena, com seus marcantes espetáculos Eles não usam Black-Tie e Chapetuba F.C. Grandes Vianinha e Gianfrancesco Guarnieri, que falta vocês nos fazem.

Ótimas iniciativas essas como a do Sesi, que trazem até nós ótimas companhias de teatro espalhados país afora que encenam peças de autores desconhecidos mas bons interpretadores da mente humana. Seria excelente se propostas como essas fossem mais divugadas e mais e mais pessoas tivessem acesso aos nossos bens culturais tão desprestigiados atualmente mas que são parte integrante da natureza humana, ou ao menos assim deveria ser. As peças infantis as quais assisti não imbecilizam as crianças e despertam nelas o espírito crítico e uma visão mais apurada do mundo e de si mesmas.

Um país só se desenvolve em todos os sentidos investindo maciçamente em educação, tanto no nível superior quanto no fundamental. E a base de tudo isso é a criança, por mais que falar isso seja lugar-comum. É por isso que o ensino no Brasil se encontra cada dia mais degradado, pelo temor dos nossos governantes que as nossas futuras gerações, através da educação, se tornem mais cientes dos seus direitos e deveres e com essa preciosa ferramenta façam a revolução já tardia, e que se inicia nas pequenas coisas, na indignação, na surpresa, e principalmente na ação que nasce quando os horizontes se ampliam e deixamos de ter uma visão uníssona do que nos rodeia. Enfim, abram as cortinas que o espetáculo da vida se renova a cada segundo!





sexta-feira, maio 11, 2007

Perdeu, perdeu!!!



Imagine uma avenida de grande circulação de automóveis e pedestres em alguma cidade de médio porte, encravada em qualquer estado do nosso país. Em meio ao tumulto provocado por essa aglomeração, um rapaz de estatura mediana dirige um automóvel de modelo popular sem possuir a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), exigida pelas nossas autoridades para condução de quaisquer veículo automotor. Lembre-se de que praticar tal ato é considerado infração grave, de acordo com a nossa Constituição atual.

Mas o fato a ser narrado aqui vai além de tal fato. Entra em cena uma autoridade policial que ordena que esse rapaz estacione o automóvel, e em seguida o revista minuciosamente, com requintes de truculência já conhecidos por aqueles que vivenciaram a sensibilidade e educação presentes nesses guardiões da ordem e bem-estar públicos.

Não espere que após tal situação vexatória esta bela espécime dos representantes da lei tome as medidas cabíveis em tal situação. Com a sua já clássica dose cavalar de cara-de-pau e abuso de autoridade, o pobre coitado exige um "faz-me rir", sabe como é, uma graninha para um churrasco no boteco após extenuante expediente, no que é prontamente atendido pela sua vítima indefesa e até certo ponto criminosa. Acredita-se que nem se cogitou não atender ao pedido sutil desse trabalhador honroso.

Todos nós, pobres mortais habitantes da terra supostamente descoberta por Cabral há 507 anos, já passamos ou sabemos de histórias semelhantes, e a encaramos como se fosse algo banal e sem importância. Mas poucos se questionam de que é do nosso bolso que sai o salário desse trabalhador descrito acima. Sendo assim, sua função seria a de zelar pelo cumprimento da lei, não a de nos achacar ainda mais, como se já não fosse suficiente a excessiva carga tributária aque pagamos ao comprar uma simples embalagem de detergente no mercado mais próximo à nossa residência.

Seria demagogo ao dizer que o condutor não falhou ao dirigir sem o CNH. Mas não é multiplicando o delito que se educa a população e se equaciona a questão. Pergunte, exija, não seja conivente com essa corja bancada por nós, que em vez de nos proteger espalha terror generalizado pelas ruas de nossas cidades. E, principalmente, se for dirigir sem habilitação, acenda uma vela para Frei Damião para não ser parado em uma blitz.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Eitaaaaaaaaaaaaaa


Uma madrugada dessas, estava zapeando pelos canais da televisão e me deparei com um programa na Multishow que nos mostrava uma nuance antropofágica, falando metaforicamente ou literalmente, dependendo do ponto de vista do telespectador. Um inglês nos levava a conhecer as benesses das mulheres brasileiras, especialmente no nosso grande cartão-postal, a Cidade Maravilhosa de encantos mil, coração do meu Brasil. Cena 1: em uma sugestiva butique de biquínis chamada "Bumbum" no bairro de Ipanema, moças pudicas desfilavam com trajes contendo pouco tecido nas quais sobrava espaço quase nulo para a imaginação masculina. Provavelmente essas mulheres achavam que estavam se submetendo a algum exame ginecológico de grande profundidade. Enquanto elas saracoteavam pelo local, esse moço acima citado exaltava as qualidades glúteas de nossas mulheres. Cena 2: o "repórter" fazia um tour noturno pela noite carioca, em especial na famosa Avenida Atlântica, ressaltando que os turistas tivessem cautela ao se depararem com uma mulher. Ela poderia ser um simulacro de uma representante do sexo feminino, a chamada travesti ou traveco, de modo pejorativo. Na cena seguinte, era focalizada uma moça inteiramente nua em um palco de uma casa noturna dançando freneticamente ao som da música e provavelmente extasiada por estar sendo focalizada por uma câmera televisiva. Cena 3: surge em cena um estrangeiro cuja nacionalidade desconheço que mora no Brasil há alguns anos e sobrevive aproveitando esse potencial econômico que o Brasil oferece. Ele se encarrega de "vender" essa boa imagem de nosso país a turistas das mais variadas nacionalidades, sendo que faz parte do pacote buscá-los no aeroporto e integrá-los à nossa vida cotidiana, os indicando e ensinando como agir em busca dos seus mais variados desejos carnais. Como se o brasileiro vivesse na esbórnia cotidianamente, nas ruas e praças despudoramente. Ou seja, ele faz turismo sexual e não faz questão de esconder de onde provém seu sustento, e também comenta que um programa no nosso país sai mais em conta do que na terra de origem dos seus clientes. Até onde vão meus parcos conhecimentos do direito brasileiro, explorar a prostituição é delito passivo de punição, mesmo que eu não saiba quais seriam estas. Cena 4: esse mesmo estrangeiro leva a equipe de filmagem até uma casa chamada "termas", onde mulheres se agrupam sensualmente, em trajes menores oferecendo o que de melhor tem e ressaltando suas qualidades com atitudes lascivas como lamber os seios e beijarem-se mutuamente.
Posso parecer ridículo ao me surpreender com tais cenas ou mesmo ser indagado sobre a minha orientação sexual ao me indignar com mulheres que são tratados como objeto de consumo, que podem ser adquiridas como uma pasta dental ou uma esponja de aço. A questão não é se eu não gosto de ver uma mulher trajando biquíni. Obviamente eu adoro, mesmo que o importe mais para mim não seja a quantidade de silicone que ela colocou em cada seio, por mais que falar isso caia na questão do "o importante para mim é a beleza interna", por mais que eu não faça questão de ver os rins dessas moças. Mas não consigo deixar de coçar a cabeça em sinal de preocupação ao pensar que agora uma menina de 11 ou 12 anos possa estar se vendendo a um turista holandês em algum quiosque da praia do Futuro, em Fortaleza, ou mesmo de alguma mulher responsável pelos seus atos em alguma boléia de caminhão trabalhando em troca de um mísero prato de comida em algumas de nossas rodovias federais espalhadas país afora, mesmo que seja na Grande São Paulo, a tão aclamada terra das oportunidades. Os exemplos são meramente ilustrativos, a prostituição está arraigada do Rio Grande do Sul a Roraima, nas metrópoles e nos grotões do país.
Se o nosso país não consegue vender uma imagem que vai muito além das suas mulatas, é sinal de que alguma coisa está muito errada e os valores estão invertidos. Poderia citar n exemplos de mulheres que se destacaram no nosso país por quesitos que não resvalam no local situado entre suas pernas. E não estou falando da Deborah Secco muito menos na Adriane Galisteu. Continuo acreditando em um país que ofereça opções para essas mulheres e homens, que eles possam encarar a prostituição como uma opção, e não como uma obrigação. E somente uma educação que inculque consciência crítica nos seus cidadãos pode reverter tal quadro. Eu não condeno a prostituta, mas sim o sistema social que a leva a seguir por esse caminho. Enquanto isso, nas calçadas e casas da luz vermelha, mulheres levam seu cliente para um local mais reservado a fim de venderem sua mão-de-obra.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

O amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas


Falar de amor é um assunto complicado quando não se sabe como lidar com o assunto e principalmente quando se é bloqueado para esse tipo de determinismo biológico. Me refiro obviamente ao amor entre duas pessoas adultas, não o amor que um pai possivelmente sente pelo seu filho ou o amor daquele que finalmente consegue comprar seu automóvel parcelado em 48 x pelo banco Finasa, que aliás cobra juros exorbitantes e ao final da dívida se terá pago o valor de dois carros.

Fala-se muito nele mas se tem poucas conclusões do que realmente seja o amor. Nem mesmo a ciência pode nos dar uma dimensão exata do que seja definitivamente esse assunto tão comentado em todas as rodas de conversa, desde as rodas de pagode da periferia até a conversa de madames enquanto esperam para ser atendidas nos cabeleireiros mais chiques do bairro dos Jardins. É o tipo do sentimento que não consegue ser descrito objetivamente, como a sede, o ódio e o desprezo, por mais paradoxais que sejam os exemplos citados. As letras de músicas, as praças das pequenas cidades, os programas de televisão, as revistas dirigidas às donas de casa e adolescentes do sexo feminino, os jardins da praia de Santos; enfim, esses e outros exemplos são convidativos para a contemplação e prática do amor. Ah, o amor, que adquiriu e tem visões diferenciadas ao longo da história. Atualmente aquela tia que você não vê há cinco anos e reencontra naquele chatíssimo almoço em família te pergunta da noiva(o), namorada(o) ou ficante, e muitas vezes só nos resta fazer aquela expressão de muxoxo e dizer que se está sozinho, mas não por muito tempo. O ser humano tem medo da solidão e se desespera ao pensar na possibilidade de passar mais tempo desacompanhado, sem o famoso cobertor de orelha.

Todos nós temos nossas histórias de amor para contar, obviamente com os finais tão diferentes quanto a nossa imaginação conseguirá acompanhar. A impressão que me passa é que essa massificação do termo amar esconde um problema muito mais sério, o de desviar a atenção da sociedade para o que é realmente relevante. Me vem à cabeça o caso do menino carioca que foi arrastado por 7 kms até a morte, no Rio de Janeiro. Nem é necessário comentar o quanto é apavorante que isso aconteça com um adulto, quanto menos com uma criança. Manifestações em prol de paz e amor estão pipocando país afora, como se velas acesas realmente adiantassem alguma coisa para a elucidação da questão. Pessoas usando roupas brancas para simbolizar a paz, fazendo com as mãos uma imagem parecida com a da pomba, desejando uma sociedade com mais paz e amor com seu semelhante são pura demagogia, por mais que os praticantes de tais atos sejam pessoas bem-intencionadas, que apenas se deixam levar pela emoção. A questão é muito mais profunda e exige atitudes muito mais vastas do que andar de mãos dadas pela rua cantando músicas amorosas em coro exigindo algo que na realidade não se procura concretamente. Parece-me que em tais casos o romantismo serve como fachada para uma questão muito mais complexa do que uma jovem abandonada pelo namorado após um ataque de ciúmes.

Na verdade a minha intenção não era falar acerca do amor em tais circunstâncias, pois o objetivo principal era escrever uma história açucarada para a minha prima Luciana, mas eu não consigo ter um roteiro pré-determinado do que conterá no que escrevo. As palavras simplesmente fluem e quando vejo sou um mero brinquedo sendo jogado pelas suas mãos afoitas em viver no mundo exterior. Mas claro que uma moça de vinte anos como ela tem suas histórias de amor pra contar, sendo que uma delas teve como fruto uma linda menina que tem atualmente aproximadamente 01 anos e seis meses,a Maria Clara, que dorme enquanto sua tia não dá seus gritos desesperados quando algo não está a seu contento. Só sei de informações esparsas sobre o assunto, que sozinhas não me dão grande embasamento para escrever um folhetim à la Manoel Carlos. Não vi a reação da sua mãe quando descobriu a gravidez dela. Como será que o namorado dela se sentiu ao descobrir que seria pai? Como foi o olhar de Luciana ao ver sua filha pela primeira vez? Eu não presenciei tais cenas, sendo assim seja incapaz de descrever as palavras a realidade dos fatos. Acho que talvez eu não seja um contador de histórias. Provavelmente eu sou um Inri Cristo.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Comunismo, socialismo ou algo que o valha


"Aquele que botar as mãos sobre mim para me governar é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo." (lema anarquista)
Tudo bem, eu sei que o Muro de Berlim caiu em 89, A Revolução Russa de 1917 foi um fracasso, a União Soviética não existe mais, a Tchecoslováquia já se desmembrou, Che Guevara foi assassinado há quase quarenta anos, a China abre cada vez mais sua economia para o capital externo (leia-se em grande parte advindo dos EUA, aqueles mesmos do Ronald Mc Donald´s), a Guerra Fria já é um termo estranho para quem tem mais de trinta anos, os únicos países socialistas que ainda resistem, mesmo cometendo graves erros são a Coréia do Norte e Cuba; e não estamos mais nos anos 60. Mas eu continuo sim acreditando em uma revolução social onde as desigualdades sociais sejam extintas e não exista mais a escravidão disfarçada como emprego informal e mesmo formal.
Entendo pouco sobre a teoria do Comunismo, nunca li Marx e só conheço Engels mais de nome. Os outros teóricos então me são praticamente estranhos. Confesso que para falar de um assunto é necessário que eu me aprofunde bem mais e saiba discorrer sobre ele com conhecimento de causa, o que não é o que ocorre nesse momento. Mas de qualquer forma preciso falar sobre o que acredito ser uma das maiores necessidades da sociedade contemporânea, assim como já era no início do século XX e que por motivos diversos ruiu, seja por incompetência dos seus administradores ou mesmo equívocos na construção dos dogmas socialistas.
Em Israel existem os kibutz, que são cooperativas agrícolas em moldes coletivistas, nas quais a comunidade vive em um local geralmente desértico, devido às condições climáticas do país, em um local com a estrutura de uma pequena cidade, fora a parte agrícola, onde a população planta o necessário à sua alimentação e vende o excedente, com uma tecnologia das mais modernas, se utilizando inclusive de maquinários "top" de linha e mão-de- obra especializada. Nesse local de experimentação da vida do homem visando a satisfação do coletivo em detrimento do indivíduo, o trabalho de um engenheiro é tão valorizado quanto o de um jardineiro e as diferenças salariais são irrisórias. Sendo assim, o nível de vida das pessoas das mais diferentes especialidades são equivalentes. Ali todos trabalham durante o dia na lavoura e fazem as refeições coletivamente, sem segregação de faixa etária, sexo, profissão ou quaisquer outra diferenciação. As crianças desde cedo frequentam a escola da comunidade, aprendem as tarefas domésticas de acordo com sua idade e desde cedo são ensinadas a pensar no coletivo, sendo que todos os equipamentos da escola são para todos. Todos os moradores do kibutz tem uma espécie de guarda-roupa gigante, sendo que todas as peças ali encontradas são para o uso de todos os que ali vivem. Não adianta uma criança chorar por uma mochila nova, pois o produto será lhe fornecido conforme as suas necessidades, não seus caprichos pessoais. E é interessante ressaltar que eles buscam se distanciar da sociedade de consumo a partir do momento em que rejeitam os apelos dos meios de comunicação para comprar artigos que não lhes são necessários naquele momento, mas lhe fornecem uma espécie de status pela sua aquisição e poder. Os adolescentes possuem uma espécie de alojamento especial e possuem algumas regalias especiais, como o não cumprimento de algumas regras relacionadas a horários e a liberdade de usar os automóveis da comunidade. A partir do momento que um novo membro passa a adentrar os limites do kibutz, todos os produtos encontrados com ele, incluindo um provável automóvel, passam a fazer parte da coletividade e servem a todos. Interessante ressaltar que o kibutz costuma reservar parte dos seus lucros para financiar os estudos de alguns dos seus moradores, e, se o número de candidatos ultrapassar a reserva financeira, é realizada uma assembléia para discutir quais dos candidatos poderão prosseguir seus estudos subsidiados pelo kibutz. O aluno tem a total liberdade de escolha da carreira que deseja seguir, mas sabe que deverá ser útil à comunidade com seu diploma e ajudando na construção de um bem comum.
Não sei dizer se um sistema desse tipo funcionaria em um país como o nosso, de 180 milhões de habitantes e interesses maiores para a perpetuação de um sistema social que privilegia uma elite realmente minoritária, em detrimento de uma imensa parcela da população despossuída de quaisquer condições mínimas de bem-estar e infra-estrutura adequada. Não consigo aceitar uma Daslu, em que uma simples calça possa custar um preço de mais de três dígitos, e pessoas que vivam com menos de R$ 1,00 diários para satisfazer suas necessidades básicas. O que digo pode cheirar a demagogia barata, mas não me veja dessa forma. Sou simplesmente um idealista que acredita na arte e cultura como ferramenta de transformação da sociedade. Um país sem educação nunca mudará suas estatísticas sócio-econômicas. Um Brasil que é regido pela elite, pagando salários paupérrimos à grande maioria dos seus trabalhadores e enchendo as contas bancárias de seus patrões às custas do suor alheio não pode ser aceito passivamente. O Brasil que não concluiu ainda sua reforma agrária e possui hectares e mais hectares de terras improdutivas onde a única coisa que cresce é capim, com milhares ou mesmo milhões de seus habitantes vivendo em periferias sem saneamento básico não pode ser encarado como coisa normal.
Não deixe de se indignar toda vez que vc ler nos jornais uma notícia escandalosa, como as que nos deparamos diariamente nos veículos de comunicação. Não diga que os políticos são os únicos culpados pela nossa situação atual, pois fomos nós que os elegemos. E se eles não cumprem sua premissa de nos servir, tomemos o poder então. Um povo sem governantes e sem o cerceamento de sua liberdade de expressão. Hoje, o prefeito da capital paulista, Gilberto Kassab, chamou de vagabundo um homem que desabafou ter ficado sem seu meio de vida quando a Prefeitura de São Paulo baixou um decreto proibindo toda e qualquer veiculação de publicidade na cidade, deixando assim á mercê da fome muitas e muitas pessoas que sobrevivem disso. Amanhã o humilhado será você. Se já não foi. E aí, vamos pegar em armas e reconstruir essa nação ou vamos continuar servindo aos mandatários do poder?

segunda-feira, janeiro 29, 2007

E chega ao fim mais um Repórter Esso


-Passsssssseeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Essa foi a reação do rapaz após ler seu nome constando na lista de aprovados de um concurso público qualquer de sua cidade. Após ter se dedicado com afinco aos estudos, abdicado de finais de semana e feriados, ter até se matriculado em uma empresa especializada em preparação de candidatos para provas de concursos públicos e deixado a noiva para segundo plano por vários meses, finalmente veria seu esforço recompensado. Poderia finalmente começar a pensar no aluguel da casa, no enxoval para o casamento e todos os demais quesitos de sua vida que haviam sido postos para escanteio nesse período de preparação para essa prova tão importante em sua vida profissional. A sua noiva, uma moça chamada Fátima, comerciária de uma loja de tecidos e conhecida pelos seus longos suspiros durante o expediente, já se encontrava agoniada com o fututo nebuloso do seu futuro marido. Mas a partir de agora a vida já sorria para esses jovens pombinhos. Só não se sabia quando o rapaz seria convocado para tomar posse em sua nova função, mas isso pouco importava. Esse moço realizava o grande sonho de considerável parte da população brasileira: ingressar no funcionalismo público, atraído pelos rendimentos razoáveis e estabilidade no trabalho.
Após ter se recomposto e corado pela sua indiscrição pública, saiu andando sem olhar para trás nem para os lados, com um sorriso de felicidade incontida. Iria aproveitar o horário de almoço para relatar a novidade à sua noiva. Obviamente a moça entrou em polvorosa, felicíssima por uma reviravolta naquele noivado de pequenas emoções e grandes frustrações. Com a família do rapaz não esperemos igual entusiasmo com a chegada da notícia. Seus pais estavam mais entretidos com outras questões que excluíam o filho agora funcionário público. A televisão estava sintonizada em um canal que naquela mesma hora noticiava à população sobre os problemas enfrentados pelo País devido à gastança desordenada devido à folha de pagamento dos seus servidores tanto federais quanto estaduais, cujo dinheiro fazia muita falta na educação, saúde, habitação e infra-estrutura. Mas o mais novo funcionário público não se importa com isso. Ele espera ansioso pela sua convocação.
Resolveu tomar um cafezinho na padaria da rua de trás, quando se encontra com o amigo de infância e resolve disputar uma partida de sinuca, como pretexto para colocar a conversa em dia. O movimento no estabelecimento havia aumentado a tal ponto que o proprietário deste cogitava a possibilidade de contratar alguma moça ou rapaz das redondezas para auxiliá-lo. Mas ao mesmo tempo lhe vinham à cabeça os impostos e taxas a qual estavam obrigadas as pessoas físicas junto ao governo, sem que isso implicasse em retorno por parte deste último. Se não fosse isso, provavelmente já teria recrutado esse novo funcionário ou mesmo dado início a uma boa reforma na padaria, que já há alguns anos pedia por uma nova mão de tinta e azulejos não tão encardidos. Isso sem contar quando foi necessária alguma visita à Receita Federal cuidar de documentos relacionados ao seu comércio. Muita dor de cabeça e pouco respeito por parte dos funcionários pagos, em parte, pelo dinheiro no caixa da padaria da rua de trás. Mas o mais novo funcionário público não se importa com isso. Ele espera ansioso pela sua convocação.
O pai desse rapaz (não importa muito o nome dele: tanto poderia ser Fernando, como Bruno, ou Tiago, seria simplesmente mais uma certidão de nascimento em uma cidade espalhada por esse páis de dimensões continentais) tenta há anos requerer a sua aposentadoria por tempo de serviço, após contribuir por 35 anos ininterruptos em uma das maiores indústrias do município. E também não importa muito se essa fábrica se localiza no Norte do Paraná ou na Zona Franca de Manaus. A globalização iguala culturas, diminui distâncias e uniformiza pessoas ou situações. Mas ele não consegue, devido a vários problemas, dentre eles uma parte dos recursos destinados à Previdência sugados pelo excesso de servidores públicos. A burocracia e as exigências são tamanhas que esse senhor passa a achar a cada dia que o Brasil não respeita seus aposentados e que muito menos deseja que os que desejam gozar do descanso merecido venham a obter o seu direito devido, nem que seja com esse salário miserável que o Estado paga a boa parte dos seus aposentados. Mas o mais novo funcionário público não se importa com isso. Ele espera ansioso pela sua convocação.
O rapaz acaba de passar por uma banca de revistas na qual um dos jornais expostos tem um título na segunda página que tem por título: Brasil cresce apenas 3% no ano passado, bem menos que países emergentes como Índia e China. Como o rapaz não lerá esse jornal, não chegará ao seu conhecimento de que o Brasil carece de empreendedorismo, a população não ousa ser patrão porque o país com a maior carga tributária do país não incentiva o desenvolvimento interno e ainda por cima sustenta nas costas uma folha de pagamento crescente em vista da onda de concursos públicos que crescem diariamente. Desse jeito não há país que aguente. Mas o mais novo funcionário público não se importa com isso. Ele espera ansioso pela sua convocação.
Anoitece e esse rapaz volta para casa, janta, assiste televisão e vai dormir. Hoje é dia 13 de dezembro de 1968. Ele não sabe, mas nesse dia foi instituído o Ato Institucional nº 5. Para ele, isso pouco importa, mas o Brasil entra em um dos períodos mais negros de sua história. Mas isso é papo para outro dia.

sábado, janeiro 20, 2007

Clarice Lispector


"...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda."
"Faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."
"A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho."
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."
"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar."
"Silêncio. Preciso morrer. Já morri algumas vezes, há tempos que não. Às vezes é preciso, é preciso morrer para viver. Ando com saudade de Deus."
"Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive às vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu a angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida."
"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."
"Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim."
"Mas se eu gritasse uma só vez que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se eu der o grito de alarme de estar viva, em mudez e dureza me arrastarão pois arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é arrastado, o ser gritante."
Essas são frases extraídos das mais diversas obras de Clarice Lispector, a nossa escritora mais compromissada com o psicológico dos seus personagens. Não dá para permanecer incólume aos seus livros, continuar a ser o mesmo depois dessa experiência mágica de uma mulher que conseguiu atingir um patamar não alcançável por nós, pobres mortais, pela angustiante busca de nós mesmos, de quem realmente somos e de que função ocupamos. Creio firmemente que quem a leu e não modificou em nada sua vida simplesmente não entendeu sua obra ou não teve capacidade de absorver suas mensagens muitas vezes cifradas.
Clarice não era aquela escritora convencional, onde suas histórias tinham sempre um predeterminado começo, meio e fim. Muitas de suas personagens não possuíam nome tinham muito menos enredo. Eles apenas divagavam, e desses pensamentos surgiram fragmentos maravilhosos, dos mais ricos de nossa literatura e no meu caso capaz de me provocar as lágrimas. Não consigo exprimir o que sinto ao lê-la, apesar de ainda ser um iniciante em suas obras. Ali não são somente palavras aleatórias que combinadas formam frases. São gotas de sangue misturadas ao papel, que pode conter ainda resquícios viscerais, produto da mais imensa dor da busca que não consegue se desvencilhar de nós mesmos quando a desprezamos.
Eu digo ás vezes que acredito na arte transformadora, que choca, te sacode, faz refletir. Gosto de um livro, um filme, uma peça, uma tela ou qualquer outra manifestação artística que modifique em algo a minha vida, não me deixe sair do lugar da mesma maneira que entrei. E isso Clarice faz com maestria e propriedade, porque ela sabia que seu legado iria permanecer nas futuras gerações.
Clarice é um tapa na cara, a dor do bisturi que corta sem anestesia, mas que depois disso te consola, alivia como o colo da mãe quando éramos crianças. Me refiro a aliviar no sentido de que ela conseguiu exprimir o meu grito naquelas palavras. O grito contido que nunca foi dado por medo, pudor, ou mesmo motivos desconhecidos. Em Clarice não há certezas absolutas. Só há questionamentos, o vazio, a escuridão, a sensibilidade. Ela te acaricia e nos mostra que há beleza também na melancolia, que escrever é realmente difícil, as lágrimas e as gotas de sangue podem ser vertidas, mas que só a palavra salva e ela deve ser dita, a todo custo, mesmo que o preço a ser pago por ela seja grande.
Todos somos um pouco Macabéa, uma de suas personagens mais conhecidas, a moça alagoana que vem tentar a sorte no Rio de Janeiro ganhando menos de um salário mínino e vivendo em uma pensão fétida no centro da cidade. A moça que vivia pouco para não chegar ao final com saldo negativo e tinha aquele olhar e curiosidade estranho das pessoas que não sabem a que vieram, nem ao menos se realmente tem noção de que estão nesse mundo.
Digo isso porque eu sei tudo que tiver de experenciar pra poder hoje escrever esse texto, mesmo que mal e porcamente. Pois somente a palavra me faz estar aqui hoje. Precisei me abster do que sou para conseguir escrever as palavras certas. Antes dela, eu não imaginava que um escritor pudesse exprimir tão bem o obscuro da alma que a crueza do dia-a-dia não deixa aflorar, e muitos vivem se se dar conta disso. Eu não consegui passar incólume por Clarice. Acredito que ninguém consiga. As cicatrizes que ela vai deixando em mim surgem indefinidamente, sem que eu saiba ao menos como foram adquiridas. Só sei que elas fazem parte de mim mesmo que eu não as peça para existirem: elas apenas são.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Senhor, vamos estar encaminhando sua solicitação para o setor de diagnósticos


Bom, estou há 8 dias sem colocar um cigarro na boca, e espero parar de uma vez com meu companheiro de longas madrugadas que era meu amigo branco e magro. Não prometo que nunca mais colocarei um cigarro na boca, muito menos que me tornarei um anti-tabagista ferrenho e que a partir de agora irei empunhar a bandeira contra o cigarro em todos os locais em que for. Curioso como esse pequeno objeto foi visto de forma diversa no decorrer da história. Até vinte anos atrás, aproximadamente, o cigarro ainda era visto de forma normal e não se era penitenciado por acender um em local público e perto de não-fumantes, por mais que estes não gostassem da fumaça e do cheiro. O mercado de trabalho ainda não os recriminava e a pessoa não deixava de ser um bom profissional se contivesse dentro da sua pasta um maço de Carlton e soltasse uma longa baforada durante o expediente.
Atualmente a coisa mudou de figura. Impressionante como a pós-modernidade, com seu culto exacerbado do corpo e bons exemplos dentro das corporações mudaram a forma como o cigarro passou a ser visto. Eu mesmo já deixei de ser arrumar trabalho por responder afirmativamente quando indagado sobre tendências ao uso do tabaco. Claro que na hora pensei em omitir esse mau hábito, mas o tipo da coisa que mais me desagrada é mentir sabendo que vou me contradizer na hora mais inesperada. E o cigarro não dá pra esconder, o hálito e o cheiro são sentidos por alguns metros de distância.
As indústrias de cigarro até mesmo patrocinavam campeonatos esportivos, provavelmente todos se lembram da logomarca do Marlboro na Fórmula 1. Propagandas do produto eram expostas nas revistas de grande circulação. As novelas não se rogavam em mostrar invariavelmente alguns de seus personagens com cigarros entre seus dedos, sem que isso denotasse falta de caráter. As fotos de Coco Chanel com seu inseparável cigarro ou das grandes atrizes de Hollywood nos anos 40 e 50 fumando eram símbolos de uma era. Um dos ícones do movimento feminista a partir dos anos 60 era ele mesmo. Com ele a mulher provava que era igual ao homem. As mulheres passaram então a tragar seu cigarro tranquilamente pelas ruas sem medo de represálias, sem olhares de desaprovação das senhoras detentoras da moral e dos bons costumes.
Hoje o fumante é execrado, mal-visto e é alvo de preconceitos da parcela da população que não atura seu vício que custa aos cofres do governo alguns milhões de reais em tratamento às doenças provocadas pelo tabagismo ou mesmo pelos programas de combate a ele. Os valores morais dos brasileiros mudaram muito ultimamente. Esqueceu-se que o cigarro, da mesma forma que realmente provoca tantos males à sociedade e especialmente aos que aspiram a sua fumaça, é também uma mera vítima de uma época que glamourizou o vício.
Fumar realmente é uma fonte de prazer, quem fuma ou já fumou sabe como relaxa acender um cigarro pra escapar daquela situação frustrante. Somente quem vivenciou essa experiência sabe como incorporamos esse hábito ao nosso cotidiano, e como é complicado desvencilhar-se dele de forma tão abrupta. E a tendência de restrição ao fumo é mundial. Nos Estados Unidos, principalmente em Nova York, é sempre necessário pedir permissão para acender um cigarro e estar preparado para ouvir um não do tamanho das saudosas Torres Gêmeas. Grande parte dos países da Europa aumentou substancialmente os impostos sobre o produto, visando diminuir seu consumo. Mas ainda existem povos que têm no tabagismo marca registrada, sendo que os gregos e chineses são conhecidos mundialmente por serem "chaminés ambulantes".
De qualquer forma, sou favorável ao livre arbítrio. Nesses poucos dias, percebi que as minhas roupas pararam de feder e as minhas mãos nunca mais ficaram impregnadas por aquele cheiro horrível. Eu nunca mais acendi um cigarro quando fiquei ansioso ou preocupado. Andei engordando um pouco, pois a grande maioria das pessoas que largam o vício percebe que a balança da farmácia se torna tão ou mais inimiga do que o carnê do IPVA. Ando irritadiço, fico andando de um lado para outro, tento me desabituar à existência do cigarro no meu dia a dia.
É o preço a se pagar pelo vício que adquiri nos meus 18 anos, quando, ainda garoto e sem vivência de vida, passei por uma fase complexa em que queria experimentar tudo que me havia sido negado até então por uma criação castradora e que me negava as descobertas adolescentes. Se realmente essa tentativa surtir em êxito, precisarei achar um novo amigo que tantas e tantas vezes me acompanhou no ponto do ônibus. Pois os cigarros fumados esperando a condução foram sempre os melhores. Mas os coitados tinham vida curta e mal tinham a glória de serem saboreados. Em grande parte das vezes, ao acendê-lo, o meu ônibus passava pelo ponto.
Aquele cigarro aceso na calçada é emblemático. É a existência se esvaindo naquele espaço de tempo da luta entre o fogo e o esquecimento desse simples objeto. As cinzas se acumulam, o fogo teima em continuar a queimar, o cigarro vai terminando. Pois é, enquanto há cigarro, há vida. Alguém passou apressado e pisou em cima dos restos de vida. Acabou-se o que era amargo.

domingo, janeiro 07, 2007

Espelho opaco


Ontem reencontrei um quase xará (Ed Carlos). Pois é, existem outras pessoas com nome semelhante ao meu, espalhados por esse país de dimensões continentais chamada Brasil. Provavelmente existirá algum outro Edcarlos na Libéria ou mesmo no Nepal? Não se sabe. E ainda são permitidas variações: Edcarlos, Ed Carlos, Edicarlos, Edi Carlos. O cardápio é variado. O naturalista não deixa de fazer seu pedido por não achar um prato que não esteja a seu gosto. Sempre tive de repetir meu nome no telefone, corrigir alguém que porventura venha a escrever o meu nome, nunca tive outro colega na escola com o nome igual ao meu, nunca tive de perguntar qual Edcarlos procuravam ao ouvir meu nome sendo pronunciado e na lista do concurso tinha a vida enormemente facilitada ao não ter muitos xarás com quem dividir o cargo preterido. Também posso mudar de nome, de acordo com o ouvido do transmissor da mensagem: já me chamei Edgar, Eduardo ou mesmo Ricardo. Ou seja, momentaneamente alguma pessoa teve a ousadia de mudar a minha história de vida. Ou você acha que se eu não me chamasse Edcarlos a minha vida teria sido a mesma coisa? Bom, a grande maioria das pessoas me chama de Ed, e quando alguém me chama pelo nome completo instantaneamente me sinto como uma criança que é surpreendida puxando o rabo do gato ou enfiando o dedo na panela onde tem água esquentando. Me sinto ofendido ao ver meu nome pronunciado em alto e bom som: E-D-C-A-R-L-O-S. Não existe palavrão maior, esse nome deveria ser proibido assim como as palavras de baixo calão e partes íntimas mostradas despudoradamente na novela das oito.
Bom, não possuo tantas semelhanças físicas nem psicológicas com esse meu xará, se bem que existe um ponto que nos une; ou melhor, une a todos nós: a essência da inconformidade, por mais que ela esteja adormecida em alguns. Vi nele um brilho estranho no olhar que eu não havia visto há três anos atrás, na primeira vez que o vi. Diria que são olhos de ressaca, de inconformidade, de tristeza, e sobretudo, de desesperança pela reviravolta a qual tem passado com frustrações contínuas pela vida. Mas ele não é o tipo da pessoa que expressa verbalmente as suas necessidades, medos e pudores. Mas o olhar é o espelho da alma, já diriam alguns. Não ser explicar o que constatei, apenas sentir e perceber que por trás daquilo existia um grande vazio que buscava ser preenchido pelas atividades religiosas praticadas com afinco, como se Deus fosse a justificativa para todos os perrengues.
Já eu nego todas as formas divinas pré-concebidas pelos homens e não creio que tenhamos evoluído tanto assim a ponto de dar respostas a questões tão complexas quanto a nossa espiritualidade. Assuntos como reencarnação, céu e inferno, morte, pecado, punição, dogmas, sexo pré-marital podem dar margem a vários questionamentos que são levados em conta de acordo com a vivência espiritual de cada um, e não posso afirmar que X seja a expressão de pensamento correta, em detrimento de Y. Até porque no início da humanidade as civilizações foram politeístas, não possuíam explicações científicas o suficiente para expressar Deus, sendo assim a divindade poderia ser qualquer coisa palpável ou que provocasse medo ou admiração. Não podemos dizer que eles estavam equivocados, sendo que as crenças religiosas naquela época nada mais foi do que a expressão do tempo em que se vivia. Não é à toa que vivemos a proliferação da religião evangélica nos grotões do país. Em uma época em que o Estado se ausenta de fornecer as premissas básicas de infra-estrutura, só resta à população o milagre divino na busca de um paraíso terreno.
Enfim, ao olhar para o meu xará e seu estado atual, não tive como não deixar no ar mais perguntas, algumas respostas até, e o olhar perdido a procurar: que força é essa que é capaz de nos levar e nos tirar da letargia, de nos mostrar o céu e o inferno em pouco tempo? Em quem ou no que nos agarramos nas horas em que nos vemos sozinhos, nus no meio da multidão, com pontos de interrogação que substituem pessoas, prédios e postes? Ali eu vi um grande espelho, fosco até, porque ele não mostrava a minha fisionomia nem a dele, mas sim algo além. Eu percebi que somos muito diferentes. Jõões, Marias, Josés, Marcos, Antônias, enfim, você e eu, o vizinho, o mendigo, a vendedora, a dona-de-casa, todos nós. Uma hora a máscara que seguramos sem perceber vai teimar em cair ao chão, e nessa hora seremos sacudidos e estapeados abruptamente, porque chegou a hora de enfrentar a verdade. Não sabemos quem somos, nem se somos algo. Mas a dúvida surgirá em algum momento. E aí é que a porca torce o rabo.

domingo, dezembro 31, 2006

Mais um ano se inicia


Pois é, chegamos a 2007. Nostradamus disse: a 2000 não chegarás. Mas fomos teimosos e insistimos, tanto que estamos, da mesma forma como o ano passado, retrasado, 1990, 1815, 1622, 1980: esperamos com ansiedade o porvir. Pularemos sete ondas, assistiremos à queima de fogos, comeremos lentilha, vestiremos roupas brancas, faremos mandingas, e muitas tantas promessas que somente serão a reprise do ano anterior: esse ano eu paro de fumar; ah, agora eu começo aquele curso de espanhol; vou emagrecer esses 5 kg em 2007, vou me dar melhor com meus vizinhos.
Fazemos planos, sonhos, traçamos metas, objetivos, tudo em busca de um ano frutífero, inesquecível, um tempo que ficará marcado em nossas memórias enquanto existirmos. Alguns desses projetos são concretizados, alguns no decorrer desse ano serão iniciados e alguns outros ficarão esquecidos no fundo da gaveta até o próximo reveillon. Muita água ainda há de correr por debaixo desse moinho, já dizia a santa sabedoria popular.
A vida passa, as horas voam, os dias cada vez a velocidade impressionante cismam em começar a terminar sem nossas argutas observações, e os meses se esvaem pelo ralo, até que, lá pelo final de setembro ou outubro, nos daremos conta e discorremos: "Nossa, esse ano está voando, hein? Daqui a pouco já é Natal, tenho de começar a pensar nos presentes ou naquela viagem já tradicional." Nosso companheiro de diálogo apenas indagará com a cabeça, em consentimento, ou poderá tecer mais algum comentário sobre o ano a passos largos findos.
A esperança é intrínseca à condição humana, como já disse outras vezes, e ela cisma em aparecer no meio da festa mesmo sem convite. Grande penetra essa moça bonita, chamada esperança. Ela vem como quem não quer nada, fazendo charminho, tentando comprar o segurança na ânsia de adentrar a comemoração, dá dois beijinhos em cada convidado, vem falar com intimidade desmedida com o anfitrião, e vem com aquele embrulho lindo, com uma fita de cor simplesmente lírica, e te dá entrega aquela "bomba" e sai risonha, bebericando champanhe, como se nem estivesse dado as caras ali. Mas ali naquele pacote está toda a nossa vida, ou simplesmente a continuidade dela. Nossa, como a esperança é linda, dizem alguns. Outros torcem o nariz ao vê-la e muitos simplesmente não se apercebem daquela moça que irradia a todos com seus risos pouco comedidos.
Em 2007 continuaremos a crer em algo, reformularemos novas idéias, seremos mais gente. Enfim, cada um viverá de sua forma única e especial. Tristezas, alegrias fazem parte da nossa trajetórias 365 dias por ano, e muitos continuam se achando os senhores dos seus destinos, isso e desde o início da humanidade. Planos, eu também faço, sou humano tanto quanto todos os outros, por mais que muitas vezes aflore mais o meu lado animal. Eu acredito no destino, acredito que ele rege o universo e os seres que nele habitam. Todas as nossas circunstâncias serão guiadas por essa pequena palavra de significados diversos. Pode ser na borra de café, nos búzios, na quiromancia, etc., mas nossos passos são guiados por uma força maior, que os homens ainda não conseguiram identificar, não sei se por incapacidade ou medo da verdade mesmo.
2007 não bateu na nossa porta, ela simplesmente invadiu o recinto. Mas sua presença nos trouxe a seguinte certeza impressa em sua camiseta branca: Al Maktub (está escrito).

sábado, dezembro 23, 2006

Subentende-se que....


As informações que tenho são esparsas, seriam, a grosso modo, como pequenos pedaços de papel escritos que são colocados alguns momentos em um balde. Esse todo me forma o conceito que faço de algo ou alguém. Dela, especialmente. Não sei quais foram as primeiras palavras balbuciadas, suas brincadeiras de criança, seu modo de atender e de pegar no aparelho telefônico, suas preferências gastronômicas, se algum dia já experimentou o sabor ácido de um cigarro, quando foi seu primeiro beijo, se dorme de bruços ou de barriga para cima, quais seus sonhos durante o sono, sua preferência física dos homens com quem se relaciona, se ela gostava de Química na escola, se já se apaixonou platonicamente por algum professor, se alguma vez já chorou escondida no escuro por algum acontecimento triste, se já tomou porres para esquecer dos problemas ou simplesmente para celebrar a vida, se usa meias coloridas ou brancas, o que comeu no almoço do sábado passado, enfim, pequenas informações que nos processam mentalmente a imagem que temos de alguém. Porque a pessoa pode ter uma aparência física definida, mas a imagem que temos dela provavelmente não é a real. Fantasiamos, colocamos na pessoa muito de nós, ou daquilo que ansiamos ser ou de quem desejamos ser outrora. Só sei que algumas vezes na semana a encontro no MSN, na grande maioria das vezes à tarde, em horário comercial.
Eu (ou o meu arremedo) -Oi.
Elâiântônia (a personagem principal do fascículo de hoje) -Ó ó ó, quem poderá nos ajudar?
- Só meu padim Ciço poderá estender suas mãos poderosas pra nós ajudar, ó Elâinântônia.
- Mas é mesmo?
-Apois, se é. É e é muito. É porque é mesmo.
-E como faremos?
-Se apegue com ele, reze dez Pai-Nosso e quinze Ave-Maria. Qual seu pedido, ó mineira com dentes salpicados de amarelo em decorrências das mangas comidas em demasia?
-Menino, nem te conto. Hoje eu tirei meu All Star pra lavar e resolvi ir de Havaianas trabalhar. Vc acredita que eu trupiquei meu pé numa pedra? Meu dedão tá todinho esfolado.
-Mas então somente ele, o pai de todos nós, o intercessor do nosso senhor Jesus na terra poderá aliviar sua dor. Reze aí que eu faço as minhas preces daqui.
-Pois então, vamos. Mas ele vai me atender mesmo?
-Vai sim, meu padim olha por todos nós, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na pobreza. Para todo o sempre, amém.
-Êlâinântôniadôlivêira, você aceita o Gumercindo Amâncio Sá como seu legítimo esposo?
-Deixe de ser atoleimado, rapaz, meu pé tá aqui se acabando.
-Desculpe. Padre, interrompa a cerimônia, a noiva tá aqui pra quebrar tudo com essa dor que só meu padim poderá acudi-la.
Todos no recinto oram fervorosamente ao Padre Cícero. Em poucos minutos, como que por milagre, o pé dela se reestabelece. Como prova de tal milagre proveniente do meu santo padim, ouve-se de fundo alguma canção do Los Hermanos, e ela sai rodopiando pela igreja dançando feito uma doida varrida. Ao mesmo tempo, cegos passam a ouvir como na mais tenra idade, coxos largam suas muletas e a acompanham na dança e mais e mais milagres são efetuados por esse país.
Mas agora ela já rompeu os limites da cidade com sua dança frenética. Não se sabe mais seu paradeiro. Passaram-se muitos meses sem notícias de Êlâinântônia. As especulações são muitas. Algumas pessoas dizem que ela se infiltrou em um navio de bandeira liberiana e hoje é backing vocal de uma banda de reggae na Jamaica. Outros acreditam que a moça citada acima entrou clandestinamente na Venezuela e panfleta pelas ruas das cidades pregando a religião Antoniesca, na qual as curas do padre milagroso são as salvação dos homens de boa vontade.
Enfim, a conversa se encerra. Ela precisará desconectar pois daqui a pouco estará entrando na sala de aula da sua universidade. Mas ficam algumas questões no ar. Até que ponto essa moça permite ter sua intimidade devassada por um estranho, quantos metros realmente nos distanciam, o que ela busca em mim todas as vezes em que conversamos, qual a impressão que eu passo para ela, e vice-versa, quais seriam seus amores e frustrações contidas em cada palavra dita, e mesmo nas não ditas. As palavras não ditas são justamente as que denunciam mais sobre nós. Tudo aquilo que não temos coragem de dizer a ninguém, nem ao menos confessar a nós mesmos enquanto esperamos o ônibus que nos levará ao trabalho, à escola, aos compromissos com os amigos. Apagou-se uma luz. Hoje mais uma faceta de Êlâinântôniadôlivêira foi revelada a mim. As personagens no palco dão lugar a outros, com os mesmos medos, alegrias, dúvidas e sorrisos. Sim, porque amanhã será um novo dia. Esse dia nós é uma incógnita. Mas o show precisa sempre continuar. E nós somos as peças principais dessa grande engrenagem chamada vida.
OBS: Texto feito a pedido da minha amiga Elaine, de Sete Lagoas/MG.

sábado, dezembro 16, 2006

Esperando Godot



Estragon - Espere! Eu me pergunto se não teria sido melhor que a gente tivesse ficado sozinho, cada um por si. Nós não fomos feitos para a mesma estrada.
Vladimir - Isso nunca se sabe.
Estragon - Não, nunca se sabe nada.
Vladimir - Nós ainda podemos nos separar; se você achar melhor.
Estragon - Agora é tarde demais.
Vladimir - É, agora é tarde demais.
Estragon - Então, vamos?
Vladimir - Vamos.

Esperando Godot foi escrita pelo dramaturgo inglês Samuel Becket em 1949, sendo que suas duas personagens são dois maltrapilhos, Vladimir e Estragon. Eles passam durante todo o tempo da peça embaixo de uma árvore, esperando por esse tal Godot, que não se define bem quem ou o que realmente seria, apenas que ele ou este lhe traria a esperança de dias melhores. Mas ele não apareceu, a espera se tornara infrutífera.
Obviamente que essa peça pode adquirir contornos individuais, e cada um pode interpretá-la de forma individual. Mas a esperança, creio eu, é um valor individual. Todos nós, independente de tempo e espaço, acreditamos em um acontecimento ou pessoa que venha a modificar a nossa pequena vida, e os métodos pelos quais esse fato ocorreria são também únicos. Durante toda a história Godot adquiriu roupagem diversa. Poderia-se dizer que durante o Feudalismo ele se travestiu na promessa do servo que almejava adquirir a sua liberdade e deixar de depender do seu senhor, sem ter de lhe pagar altas taxas e se manter preso a um sistema social arcaico e de papéis sociais bem definidos. Durante a Revolução Industrial Godot apareceu para os operários como uma esperança de salários e condições de trabalho dignas, em que, se não se obtivesse riqueza, ao menos os trabalhadores ganhassem o suficiente para assegurar-lhes uma existência digna. Já durante a Revolução Russa de 1917 se acreditava que Godot (inconscientemente) apareceria com uma nação sem disparidades sociais, em que tanto o jardineiro quanto o alto empresário tivessem os mesmos reconhecimentos e igualdade perante a lei e o governo.
Enfim, o mais interessante nisso tudo é o que esperamos, sempre, durante toda a nossa vida. Sonhos, ilusões, utopias, ideologias, ou simplesmente crenças religiosas. Todas elas tem por fim nos fazer crer em algo. Dinheiro, filhos saudáveis, família feliz, êxito profissional, justiça social, o fim da guerra no Iraque, igualdade entre os sexos, aquisição da casa própria, o tapamento do buraco da rua onde moramos, o reprise na televisão daquele filme que adoramos, aquele produto top de linha na loja do shopping, enfim, nossos desejos são realmente das mais variadas naturezas e nenhum deve ser encarado com pequenez em detrimento de outros. São os sonhos também que fazem de nós ser o que somos, e são eles também que nos mantém, em certo grau, a continuar vivendo.
Eu também tenho o meu Godot, é claro. Quando adolescente, acreditava que poderia usar o meu pretenso talento com as palavras na transformação de uma sociedade mais igualitária, sem tantas desigualdades sociais. Obviamente queria por consequência um rendimento que me proporcionasse uma vida confortável e com acesso aos produtos que almejo ou mesmo necessito. Mas o tempo passa, e muitas vezes a vida nos encaminha por vertentes diferentes daquela que nos moveu anteriormente. Hoje posso dizer que meus sonhos de juventude não se realizarão daquela forma, mas Godot não me desapareceu por completo. Apenas trocou de roupa. Continuo crendo na transformação social através da palavra e dos seus desdobramentos, como popularização da arte e cultura entre os homens, o que viria a torná-los mais cientes do seu papel crítico. E é isso que me mantém, mesmo com todos os pesares. Mas não sei quais serão as minhas esperanças dentro de alguns anos. Mesmo assim, continuo esperando Godot, e, enquanto existir, continuarei colocando mais um lugar à mesa e imaginando o que dialogaremos se ele finalmente aparecer. E você, o que espera dele?

terça-feira, dezembro 12, 2006

Ô falta do que fazer


Após resolver alguns assuntos pendentes no centro da cidade, sentou-se em um dos bancos da praça principal. Havia se exaurido após ficar algumas horas em pé no banco, deixando ali grande parte do dinheiro conseguido às custas de muita labuta, sem contar a peregrinação ao despachante para se informar acerca do vencimento do licencimento de seu automóvel. Era um homem ainda jovem, apesar de já ter passado dos trinta há alguns anos. Tinha um sorriso largo, fácil, e não era de aparência física que nos chamasse a atenção, mas possuía em si algo inexplicável, olhos faiscantes, expressão curiosa, mãos inquietas, uma energia que não o deixava ficar parado em uma só posição durante mais de dez minutos. Esse homem estava simplesmente sentado ali, para tomar a fresca, sem maiores pretensões, durante esses minutos ele parte integrante da paisagem que compunha essa praça que não possui nada mais atrativo do que todas as praças vistas por nós no decorrer da vida.
Ali estava, observando as pessoas, as árvores, a vegetação, o comércio e o que mais não escapasse da sua arguta observação. Não se deteve nos detalhes estáticos, mas sim naqueles que iam e vinham sempre com aquela pressa típica de quem tem quezilas a solucionar. Como estava no centro da cidade, o fluxo de pessoas é geralmente considerável, o que não lhe permitiu prestar atenção a todos os transeuntes, mas alguns em especial lhe saltaram aos olhos. Pôde nesse pouco tempo ter uma pequena amostra das pessoas que o cerca, reconheceu pessoas que já tinha visto anteriormente mas nunca nem ao menos cumprimentou, viu jovens, velhos, gordos, magros, altos, baixos, homens, mulheres, mendigos e socialites, médicos e hippies, comerciantes e comerciários, donas de casa e profissionais das casa de tolerância, enfim, ele via e isso lhe bastava.
Começou a se perguntar sobre a história de vida dessas pessoas, e sobre o que elas pensavam sobre política, economia, futebol, sexo, a guerra no Iraque, seu bairro, os vizinhos, emprego, inflação, e principalmente, sobre o que elas pensam sobre si mesmas. Se se levantasse e as abordassse perguntando: Ei, diga para mim quem é vc?, ouviria as respostas mais diferenciadas, alguns não saberiam o que dizer a as demais continuariam seguindo suas vidas sem ao menos dar atenção a esse provável desocupado que não tem lá seus parafusos no lugar certo.
Mas não teve coragem, a covardia foi maior do que o ímpeto. Só conseguiu imaginar, divagar, até mesmo sorrir com o que lhe seria dito. Queria entender o outro se nem ao menos poderia responder essa mesma pergunta, se esta lhe fosse formulada. A partir daquele momento procurou saber que bicho esquisito é esse, o tal do homo sapiens. Queria poder responder porque cada um responde uma coisa quando questionados sobre o mesmo aspecto. Queria entender o que faz cada um de nós ser o que é, com suas virtudes e defeitos. Queria sair da mesmice e se surpreender com o que poderia descobrir a cada dia. Ele queria, afinal de contas, se entender. Mas não podia, sabia que isso era trabalho de Hércules, as chamadas doze tarefas.
Após esses longos minutos, se levantou e foi à loja de materiais fotográficos, onde tinha deixado alguns negativos para serem revelados. Fotos de viagens, da família, dos amigos, nada muito extraordinário. Após isso, se dirigiu para o seu carro, e, antes de dar a partida, pegou uma das fotografias, se viu retratado nela e pensou: Poxa, afinal de contas, quem é esse simpático moço da foto? O que será que ele pode me ensinar sobre a vida?
Saiu cantando pneus e nunca mais se teve notícias precisas dele. Alguns dizem que seguiu em peregrinação pelo Caminho de Santiago de Compostela. Outros juram que ele se enclausurou em um convento. Mas há aqueles que dão como certa sua entrada no hospital psiquiátrico municipal.